Comentários

Esta semana a Netflix anunciou que estará transformando em live-action uma das histórias em quadrinhos argentina de maior sucesso e mais emblemática de todas, “O Eternauta”. A intenção da rede de streaming é que a nova série repita o sucesso de outra série latina, A Casa de Papel. Mas do que se trata “O Eternauta”, obra prima de Hector German Oesterheld e desenhada em versões por Francisco Solano-López e Alberto Breccia? Vamos falar rapidamente sobre ela agora.

A maior história de ficção científica já produzida na América do Sul, com ares de uma história Alan Mooriana, é o Eternauta. A HQ já saiu aqui no Brasil pela editora WMF Martins Fontes, mas a edição que li se trata de uma história revisada. Apenas se mantem o escritor, Oesterheld, o desenhista muda de Francisco Solano Lopez para Alberto Breccia. Trata-se de O Eternauta 1969 e foi publicada originalmente na argentina para revista Gente, uma espécie de revista Caras deles. Outra diferença é o formato. Este último, que também foi editado em 2019 pela editora Comix Zone, tem formato vertical. O original é em formato horizontal. Vamos falar mais sobre essa história em quadrinhos que envolve alienígenas e viagens no tempo e foi feita na década de 50.

Você pode adquirir a edição original de “O Eternauta” da WMF Martins Fontes a partir deste link.

A história abre metaliguística. Um roteirista de quadrinhos é visitado por um viajante do tempo e lhe conta a sua história. Ela começa com um jogo de truco entre quatro amigos, mas uma nevasca interrompe a jogatina. Logo, eles percebem que esse fenômeno climático acaba matando boa parte da população por conter algum fragmento nocivo na neve. Os amigos só sobreviveram porque a casa estava fechada.

Você pode adquirir a edição da Comix Zone para “O Eternauta 1969” neste link.

A narrativa aqui é minimalista e de ponto de vista. Não temos grandes flashes de invasões alienígenas nem de grandes naves como nos filmes americanos. É construído o clima e a atmosfera da história através de uma percepção nublada típica de literatura de origem ibérica como a de Jorge Luis Borges e de José Saramago. A sensação que dá é que o protagonista, Juan Salvo, está sempre no início de filmes como Extermínio ou a série The Walking Dead, mas de uma forma mais arcaica, com os sobreviventes se unido para, primeiro apoiarem-se uns aos outros e depois buscarem debelar a ameaça. Indo e voltando no tempo tentando se reencontrar com a filha e a mulher.

donde_esta_oesterheld

Vale dizer que isso ressoa na vida do roteirista Oesterheld, que foi perseguido pela ditadura argentina por suas histórias em quadrinhos de aspecto conscientizador e de cunho político. Suas quatro filhas foram mortas pelos militares. Ele, perseguido, foi dado como desaparecido e seu corpo nunca foi encontrado. Ressalto que uma das grandes diferenças dessa edição que li, da Comix Zone e a que circulava até então no Brasil, a original, editada pela WMF Martins Fontes, é que nesta, apenas a América do Sul é tomada pelos alienígenas, uma vez que as Grandes Potências, da Europa, URSS e EUA trocaram nossa região pela liberdade deles. Isso é destacado no seguinte diálogo: “Somos como os Incas ou os Atecas lutando contra os Europeus… O inimigo vem de outro sistema solar, e convenceram, sabe-se lá como, aos Estados Unidos, à Russia e a às Demais Grandes Potencias, de que a Terra deve ser compartilhada com eles, com os invasores”.

Por fim, a intenção do viajante do tempo era a de informar a si mesmo no passado sobre a invasão e mostrar como impedi-la. Mas toda vez que retornava, perdia a memória. Que Exterminador do Futuro (1984), o quê! Que Dias de Um Futuro Esquecido (1980), o quê! O inusitado e inovador foi O Eternauta (1957). Produto latino-americano. Ficção científica com FC maiúsculos. Uma das últimas frases que é dita na HQ é que “todos somos eternautas”. Talvez pra dizer que todos viajamos no tempo, todos os dias, tentando buscar a beleza e as glórias do passado, mas na hora de construirmos um futuro melhor, perdemos nossa memória de como queremos que o mundo fosse para buscar necessidades mais prementes.

Guilherme "Smee" Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, redator e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. Entre seus quadrinhos publicados estão Desastres Ambulantes, Sigrid, Bem na Fita e Só os Inteligentes Podem Ver.


Comentários