Personagem que dispensa apresentações, o Coringa nasceu nas histórias em quadrinhos em 1940 na primeira revista solo do Batman. Pensado para ser o grande nêmesis do Homem-Morcego desde o princípio, o Príncipe Palhaço do Crime não precisou de muitos anos para assumir este posto de vez e ganhar exuberante popularidade. Por conta de sua versatilidade, mudou consideravelmente de personalidade ao longo das décadas e muito pouco era sabido sobre suas origens…
Até que Alan Moore escrevesse A Piada Mortal. Nesta clássica história em quadrinhos publicada pela DC em 1988, descobrimos que o personagem era um comediante mal-sucedido que flerta com o mundo do crime para suprir as necessidades de sua esposa, que está esperando uma criança dele. Depressivo e indeciso, ele encontra-se obrigado a participar de um assalto quando descobre que ela faleceu, juntamente com seu filho. Todos conhecem o resto da história.
Pois bem: imaginava-se que seu passado era assim até certo momento da narrativa. No fim, ele explica que não se lembra bem do que realmente aconteceu e que tudo sempre muda quando tenta se lembrar. Fato é que só precisou de um dia ruim para que enlouquecesse. Pela mente de Moore, seu passado se tornou uma grande questão que nem mesmo precisava de uma resposta, conceito que Christopher Nolan abordou com inteligência em Batman: O Cavaleiro das Trevas. O rumo dos quadrinhos da DC nos anos mais próximos só chegaria para reforçar esta ideia.
Tudo mudou quando o roteirista Scott Snyder decidiu reinventar o que pensávamos que conhecíamos durante sua fase nos Novos 52, em 2015. Em sua perspectiva, o Coringa era praticamente uma entidade eterna, pois seu corpo era formado pela mesma substância que deu imortalidade ao Vandal Savage. Estava espalhando o caos há séculos, antes mesmo de surgir uma certa cidade chamada Gotham e um certo super-herói chamado Batman. Portanto, ele não sumiria nem se o próprio Cavaleiro das Trevas decidisse matá-lo. Foi considerada uma abordagem muito radical, que deu origem às mais amalucadas teorias sobre viagens no tempo e ressurreição.

As coisas mudariam novamente em 2016, quando Geoff Johns deixou explícito que esse Coringa estabelecido por Scott Snyder era apenas um dos Coringas rondando por aí. É sabido que os outros dois são sua versão clássica e o cara que conhecemos em A Piada Mortal (que continua sendo meu predileto), mas também é possível que existam outras muitas pessoas assumindo o nome de Coringa ao redor do universo da DC. No fim das contas, é por causa disso que ele continua ressurgindo mesmo depois das mais violentas investidas do Homem-Morcego. Espera-se que o roteirista explique melhor suas intenções em uma revista ainda sem título que será publicada futuramente, mas é preciso que tenha cuidado, porque essa é uma área cheia de minas que explodem furos de continuidade.
A decisão de Johns teve impacto instantâneo em mídias como a TV e os próprios quadrinhos. Em “Gotham“, aprendemos que Jerome, o personagem que todos pensavam que era o Coringa, tinha um irmão gêmeo que, mais tarde, se tornou uma versão dele próprio, mesmo ainda não sendo exatamente o antagonista dos quadrinhos. É como se fosse uma ideologia que muda de hospedeiro de tempos em tempos. Na ainda decorrente minissérie “O Cavaleiro Branco“, que se passa em um universo alternativo em que o Coringa é curado de sua loucura e se torna um cidadão intelectual e exemplar, acompanhamos duas versões do Palhaço do Crime – uma delas é ninguém menos que uma das Arlequinas – sendo reveladas para suprir sua necessidade no submundo do crime, concepção trabalhada com distinta competência por Sean Gordon Murphy.
É difícil de imaginar aonde os roteiristas irão chegar com essas constantes reformulações. Tudo é canônico e, ao mesmo tempo, nada é canônico, porque tudo o que era de nosso conhecimento desaparece ou torna-se menos importante de vez em quando. No entanto, existe uma coisa boa nesse recente tratamento de Johns: é bem melhor do que o conceito de que o Coringa é meramente imortal e, pelo menos, mantém sobrevivendo o mistério sobre o personagem. A feliz conclusão é que, justo quando pensávamos que sabíamos tudo sobre o Coringa, percebemos que não sabíamos nada sobre o Coringa.