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No universo da Marvel, poucos vilões carregam uma aura tão imponente quanto Victor Von Doom. Sempre escondido por uma máscara de ferro, o Doutor Destino se tornou um dos rostos mais icônicos dos quadrinhos… mesmo que ninguém veja seu rosto de verdade. Mas afinal, o que há por trás dessa armadura? O que realmente aconteceu com o rosto de Victor — e por que ele escolhe escondê-lo?

Ao longo das décadas, diferentes versões dessa história surgiram, algumas contraditórias, outras complementares, mas todas revelam algo fundamental sobre o ego e a tragédia por trás de Von Doom. E no vídeo de hoje, investigamos todas elas para responder de vez: como é, afinal, o rosto do Doutor Destino?

As interpretações de Lee e Kirby

As cicatrizes físicas de Destino estão entrelaçadas com as psicológicas. Quando era um estudante universitário, Victor Von Doom construiu uma máquina para visitar o “reino inferior”. Ele ansiava por contatar sua mãe, Cynthia von Doom, que havia sido condenada ao Inferno por vender sua alma a Mefisto em troca de poderes.

Quando testou a máquina, ela explodiu no rosto de Victor. A situação para ele se tornou ainda pior, pois o colega de classe de Victor, um jovem Reed Richards, o havia alertado que seus cálculos estavam ligeiramente errados. Victor não os verificou por causa de sua própria arrogância e pagou o preço.

Von Doom odeia Reed porque o culpa pelas cicatrizes, dizendo a si mesmo que Richards deve ter sabotado a máquina. No fundo, porém, ele sabe que o acidente realmente aconteceu porque Reed estava certo e ele errado. Destino precisa negar essa prova de que alguém é mais inteligente do que ele, assim como nega as evidências de sua aparência imperfeita com a máscara. Mas quão imperfeita é essa aparência?

Bem, o lendário artista Jack Kirby, co-criador do Doutor Destino, ofereceu este desenho de Destino desmascarado:

Mas peraí, esse é o tal rosto desfigurado? Bem, em uma convenção de quadrinhos em 1985, Kirby explicou suas intenções com Destino.

Ele diz que explosão deixou Destino com apenas uma pequena cicatriz no rosto. Mas sendo o egocêntrico que é, ele não consegue superar essa pequena imperfeição em sua aparência. Então, ele esconde o rosto de si mesmo e dos outros com sua máscara de ferro, mesmo que a maioria das pessoas mal notasse sua cicatriz. A fixação de Destio nessa cicatriz, Kirby observa, é sua falha trágica. Nas próprias palavras de Kirby:

Por trás daquela máscara de aço, há um cara muito bonito, mas há uma coisa errada com Destino. Ele tem um arranhão no queixo e está frustrado com isso. Aquele arranhãozinho, que meio que arruína toda a sua personalidade e alimenta aquela frustração que dura a vida toda, é o que o torna o vilão que ele é.”

No entanto, parece que o outro cocriador do Doutor Destino, Stan Lee, não compartilhava da interpretação de Kirby. Em “The Mighty Thor” #182, de 1970 (escrito por Lee, com artes por John Buscema e John Romita), Destino sequestra o cirurgião Donald Blake (Thor em forma humana) para reparar seu rosto. Ele se desmascara diante de Blake, que recua horrorizado e diz que seu rosto está além da salvação da cirurgia plástica.

O Quarteto Fantástico de John Byrne reinventou Destino

John Byrne, que escreveu e desenhou o título do Quarteto Fantástico de 1981 a 1986 (edições 232-293), é o autor mais influente da equipe da Marvel, depois de Lee e Kirby. Ele recontou a origem de Destino em Fantastic Four #278, com a ideia de que o protegido de Destino, Kristoff Vernard, está visualizando as memórias de Victor Von Doom, supostamente morto.

Byrne se mantém fiel a Fantastic Four Annual #2, a história original que contava a origem de Destino, até mesmo usando alguns diálogos e painéis de Lee e Kirby literalmente. A grande mudança é que ele mostra o rosto de Destino após a explosão.

Vemos uma cicatriz notável, maior do que a que Kirby tinha em mente, mas também relativamente limitada em tamanho. Então, quando Destino está forjando sua armadura, ele ordena que a máscara seja colocada em seu rosto enquanto ela ainda está quente. E é isso que desfigura completamente Destino, quando o metal incandescente derrete sua face.

Claramente, John Byrne estava mesclando as duas interpretações aqui e, ao fazer isso, sublinhando a autodestruição de Destino e o ponto de Kirby. Para Destino, qualquer cicatriz torna seu rosto horrível. A cicatriz equivale a seu rosto literalmente derreter, então é isso que Destino deixa acontecer. A origem de Byrne torna Destino mesquinho e trágico.

O verdadeiro rosto de Destino

O próximo filme dos “Vingadores” depois de “Doomsday” tem o subtítulo “Guerras Secretas”. Este título se refere tanto à saga original “Guerras Secretas”, de 1984, de Jim Shooter, Mike Zeck e Bob Layton, quanto ao quadrinho de 2015, de Jonathan Hickman e Esad Ribic. Em ambas as histórias, Destino adquire poderes cósmicos e se torna basicamente um Deus.

Hickman escreveu “Quarteto Fantástico” (de 2009 a 2012) e “Vingadores”/”Novos Vingadores” (de 2012 a 2015). Narrativamente, “Guerras Secretas” é o final de sua série “Vingadores”. Mas os temas centrais e o conflito da história — especialmente a disputa entre Reed e Destino sobre quem pode consertar o mundo de uma forma melhor — remontam à sua época com o “Quarteto Fantástico”.

Durante os “Vingadores” de Hickman, universo após universo é destruído em eventos chamados Incursões. Destino, que sabe que isso é obra da raça dos Beyonder, é um dos muitos personagens que trabalham para garantir a sobrevivência. Após os dois últimos mundos colidirem e se desintegrarem, Destino mata os Beyonders e rouba seu poder, unindo pedaços do multiverso em um único planeta conhecido como “Mundo Bélico”.

E é na edição #3 de “Guerra Secretas” que, pela primeira vez desde sua criação, a Marvel finalmente revela como é o rosto desfigurado de Destino por trás da máscara. A interpretação do artista Esad Ribic do rosto marcado de Destino, ainda lembrando Victor de suas imperfeições mesmo quando ele atingiu seu auge, explica melhor por que Donald Blake reagiu daquela forma (por mais insensível que fosse de qualquer maneira).

O verdadeiro rosto de Victor Von Doom, finalmente revelado

Por que Destino não conserta seu rosto?

E então resta a pergunta: Victor Von Doom é um dos homens mais inteligentes do Universo Marvel, um mestre da ciência e da magia, e, mesmo não consegue curar suas cicatrizes?

Na HQ “Guerras Secretas” original, Destino restaura seu rosto ao receber os poderes do Beyonder, o que implica que, sim, Destino precisava de nada menos que o poder de um deus para curar seu rosto. Nas “Guerras Secretas” de 2015, Destino não restaura o rosto, e aparentemente não consegue, nem mesmo com sua onipotência.

A série “Doutor Destino”, de 2019, de Christopher Cantwell e Salvador Larocca, responde em texto o que Hickman deixa como subtexto. Na décima e última edição, Destino encontra uma versão alternativa de si mesmo que curou seu rosto, encontrou o amor e construiu uma utopia universal. Tudo o que precisou, diz esse Victor alternativo, foi aceitar que nunca foi uma vítima, que seus rancores não valiam a pena guardar e que consertar o mundo era mais importante do que provar que podia.

Ou seja, o nosso Doutor Destino jamais admitiria, mas ele escolhe manter o rosto marcado para provar a todos, inclusive a si mesmo, que o mundo (e especialmente Reed Richards) o injustiçou. Destino então mata essa variante e destrói todo o seu universo, então, sim, a autopiedade é a resposta.

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