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A série da Patrulha do Destino estreou recentemente no DC Universe e rapidamente conquistou o público – sendo considerada até mesmo superior a Titãs, primeira aposta do serviço de streaming da DC.

Mas também, pudera, a produção foi extremamente certeira na ambientação e adaptação da série, não tendo pudores em deixar bem claro de qual fonte de inspiração estavam bebendo: a arrebatadora passagem de Grant Morrison pelo título, nos anos 80.

Criada por Arnold Drake em 1963, a Patrulha do Destino acabou sendo eclipsada pelos X-Men da Marvel (o que gera até hoje um grande debate sobre plágio) e ficou durante anos no ostracismo. Somente na chamada “invasão britânica” da DC, o estranho grupo de super-heróis disfuncionais teria sua chance de brilhar.

Tudo começou quando a editora Karen Berger começou o seu “recrutamento” de autores britânicos para a criação de histórias voltadas para um público dos quadrinhos que havia crescido e ansiava por um material mais adulto – muito disso devido ao sucesso do Monstro do Pântano de Alan Moore. Obviamente, a DC não entregaria seus medalhões para esse teste de público, então coube aos novatos escolherem dentre personagens relegados ao segundo escalão, esquecidos, ou que sofriam com baixas vendas.

Para o escocês Grant Morrison ficaram o Homem-Animal e a Patrulha do Destino.  Morrison é conhecido por uma visão bem peculiar dos quadrinhos, e sempre segue pela vertente “do mundo além do papel”, com suas histórias trazendo grandes análises a respeito da manipulação da realidade como a conhecemos, indagando a nossa própria existência e ironizando as coisas que todos estão acostumados a ver no mundo imaginário, mas que nunca pararam pra pensar em sua lógica.

Se em Homem-Animal Morrison exploraria mais elementos narrativos como a quebra da quarta parede, Patrulha do Destino serviu como laboratório para o autor explorar elementos como surrealismo e principalmente o dadaísmo. Aproveitando-se da estranheza que permeava os personagens e o universo da Patrulha, Morrison decidiu deixar tudo ainda mais estranho – mas de uma forma extremamente intrigante e cativante.

O autor usou alguns dos personagens clássicos da equipe, como Homem-Robô, Homem-Negativo (agora Rebis, uma fusão do espírito negativo com Larry Traynor e a Dra. Eleanor Poole, criando um hospedeiro hermafrodita) e Niles Caulder, o Chefe. Porém, ele também inseriu algumas de suas criações, como a interessantíssima Crazy Jane, uma garota que após sofrer abusos do pai na infância, desenvolveu 64 personalidades, cada uma delas com algum poder específico.

Surrealista? Sim. Psicodélica e egocêntrica? Talvez. Confusa? Nem um pouco.

É difícil imaginar que uma HQ dos anos 80 tenha coragem de abordar temas como homossexualidade, incesto, abuso sexual infantil e transtorno mental compulsivo-depressivo com tanta clareza e sem parecer algo forçado para ser chocante. Tudo flui de maneira orgânica e imersiva, nos fazendo refletir sobre nós mesmos e a natureza cruel dos seres humanos. Mas além de questionar questões existenciais em seus protagonistas, Morrison também brinca com a realidade em seus antagonistas, usando constantes quebras de quarta parede e sátiras à nona arte, como por exemplo uma equipe de vilões que simplesmente não faz sentido, e que justamente pela falta de propósito e pelo absurdo de sua própria existência, decide se juntar para causar o caos.

A Patrulha do Destino de Grant Morrison abusa de uma experimentação muito característica do escritor, que simplesmente não sabe o que é triagem de ideias. Em seu livro, Superdeuses, existe uma passagem onde critica Watchmen e Alan Moore, alegando que o ciclo perfeito que o escritor cria entre o final da história e o seu início, além da perfeição do texto, matam qualquer tentativa de Moore de trazer um suposto realismo para a trama. Para Morrison, realismo é caos. Verossimilhança é desordem. E todas as suas histórias recebem um pouco disso, algumas mais, outras menos.

Mas o interessante da Patrulha do Destino, e talvez o seu maior mérito, é conseguir passar toda a psicodelia e grandiloquência de Morrison de uma forma “fácil” de ser digerida, diferente de algumas obras do escritor, principalmente posteriores a esta, que se perdem dentro de um caldeirão de ideias que infelizmente só fazem total sentido dentro de sua cabeça. Os Invisíveis entra nessa categoria, mas isso é assunto para um outro texto.

Esse Morrison, mais jovem, que  consegue equilibrar experimentação com narrativa coesa, inseriu dentro da Patrulha do Destino um nível de estranheza que hoje é impossível de separar da equipe. O que era estilo criativo, identidade autoral, acabou mesclado ao núcleo dos personagens de uma forma tão natural, que qualquer coisa diferente disso hoje seria praticamente descaracterização. Por isso a série do DC Universe vem sendo aclamada. Se está estranho, se as tramas são cada vez mais malucas e os personagens parecem sofrer de graves transtornos de todos os tipos imagináveis e não existem limites para a bizarrice de suas aventuras… então é porque estão fazendo do jeito certo.

Se você quer ler a Patrulha do Destino de Grant Morrison, clique aqui.



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