Os anos 90 tiveram um efeito curioso nos X-Men. Com diversos títulos derivados, os mutantes estiveram no centro da revolução noventista, que alavancou caras como Rob Liefeld e Jim Lee, colocando inclusive uma revista dos X-Men no Guinness Book como a história em quadrinhos mais vendida de todos os tempos. X-Men por muito tempo foi sinônimo de tudo de mais bizarro nos quadrinhos dos anos 90: cores berrantes, músculos exagerados, corpos desproporcionais, armas que desafiavam a lógica e… bolsos nos uniformes. Muitos bolsos.
Esses fatores, que por algum motivo eram adorados pelos leitores daquela época, fizeram muito bem aos X-Men, pelo menos durante algum tempo. A bolha estourou, a Marvel quase faliu e uma nova revolução nos quadrinhos surgiu no início do século na esteira de obras como The Authority. E os X-Men, que eram o ápice da “originalidade” nos anos 90, rapidamente se tornaram datados.
Foi então que o escocês Grant Morrison, que carece de apresentações, foi colocado à frente do título, e tratou logo de eliminar os trajes coloridos dos personagens, usando um látex preto e amarelo, mais em sincronia com o que o público havia acabado de ver chegar aos cinemas. O que tivemos foi um Morrison bem mais autocontido, que trouxe boas tramas para os X-Men e com isso um frescor que conseguiu novamente conquistar os leitores. Porém, estamos falando de Grant Morrison, e não demorou para o escritor pirar e começar a inserir toda a sua controversa e fértil imaginação na trama (o que provavelmente foi um fator que o fez sair brigado da Marvel).

Novos X-Men voltou a trazer o interesse do público para os mutantes, mas algo maior ainda precisava ser feito. E foi assim que a Marvel decidiu entregar seus personagens para… Joss Whedon. Ok, hoje essa pode até parecer uma decisão lógica, afinal Whedon é nada mais nada menos que o diretor de Os Vingadores. Mas nessa época, no longínquo ano de 2004, ele era apenas o criador de Buffy: A Caça Vampiros, e apesar de ter um extenso currículo como roteirista em filmes e séries de TV, Whedon não era exatamente um escritor de quadrinhos.
No novo título, que precisava evocar grandiosidade, os X-Men não era mais “fabulosos”. Eles eram “surpreendentes”. Com a belíssima arte de John Cassaday (que já havia feito seu nome em Capitão América e Planetary) Supreendentes X-Men tinha como objetivo principal resgatar o espírito dos bons tempos de Chris Claremont e John Byrne, também conhecido como o período mais criativos dos X-Men.
Os clássicos trajes coloridos foram rapidamente trazidos de volta, assim como foi formada uma equipe de pesos pesados, reunindo personagens queridos pelos fãs – incluindo alguns que não eram vistos há um bom tempo. Assim o escritor conseguiu trazer de volta aos X-Men sua personagem favorita dos quadrinhos, Kitty Pryde, que é extremamente bem trabalhada nas mãos do autor. Outro personagem trazido de volta (dessa vez dos mortos) foi o grande amor da garota: Colossus.

Mesmo assim, Whedon não ignorou o que Morrison havia feito anteriormente. Tudo valia. Incluindo o recém estabelecido romance entre Scott Summers, o Ciclope, e Emma Frost, a outrora vilã conhecida como Rainha Branca. Uma boa sacada da Era Morrison, que ganhou muito mais peso e desenvolvimento por Whedon. O escritor soube perfeitamente como trabalhar a personalidade de Emma Frost, e sua arrogância e dualidade criaram situações extremamente interessantes não apenas com Ciclope, mas também com Kitty Pryde, que nunca aceitou completamente a redenção da ex-vilã.
Mas não foi só de saudosismo e nostalgia que viveu a fase Whedon. o escritor também deu vários importantes passos à frente, e o maior deles é algo que remontava da Era Lee/Kirby. Se tem duas coisas que sempre foram insinuadas ao longo dos anos nas histórias dos X-Men desde sua criação, elas eram: 1 – Scott Summers estava sendo treinado para um dia liderar definitivamente os X-Men, e 2 – Charles Xavier possuía segredos, e não era um homem tão bondoso e inocente como aparentava.

E é exatamente isso que Whedon desenvolve durante sua fase. Ele retira a figura de Charles Xavier da equação, marcando não apenas um grande evolução dos X-Men com uma visão mais moderna e inclusiva do “sonho de Xavier”, como eleva Ciclope à figura de líder da raça mutante que seria amplamente desenvolvida mais tarde.
Scott Summers estava não apenas livre da influência de Jean Grey, mas também de Charles Xavier. O antigo mentor dos X-Men, após uma série de revelações sobre suas mentiras ao longo dos anos, acabou perdendo a confiança de seus alunos e abandonou o Instituto. Foi a oportunidade para levarem Scott além. E Whedon aproveitou. Aqui finalmente nós estávamos começando a ver o personagem se tornar o líder que foi treinado para se tornar desde a infância.
O Ciclope de Joss Whedon tinha atitude, tomava as decisões que fossem necessárias e fazia qualquer coisa para proteger os seus. É memorável a sequência em que ele está sem os seus poderes e usa uma pistola para eliminar os inimigos. No segundo arco de Surpreendentes X-Men, que envolve uma ameaça alienígena, é onde vemos a veia estrategista de Ciclope em sua plena forma. O plano de Scott é um dos pontos altos da HQ, e onde o personagem se consagra como um dos maiores estrategistas do universo Marvel. Mas essa fase também foi só o começo do que ainda viria pela frente para o mutante.
Surpreendentes X-Men foi lançado nos quadrinhos com uma lógica de série de TV: por temporadas. Ao longo de duas temporadas, Whedon e Cassaday construíram uma história que começa na Terra e aos poucos vai tomando um escopo cada vez maior, levando os mutantes para o espaço e uma guerra interplanetária. Uma referência belíssima do crescimento das tramas dos X-Men em sua fase mais áurea.
Essa fase, que mostrou à Marvel, anos depois, que Joss Whedon era o cara certo para escrever e dirigir Os Vingadores no cinema, está voltando às livrarias brasileiras esse ano pela Panini, em um luxuoso formato em capa dura. Não deixe de conferir essa belíssima fase dos X-Men. Eles nunca foram tão surpreendentes.






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