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Um exercício interessante para o fã do Universo Cinematográfico Marvel (ou MCU) é observar o que a Marvel utilizou dos quadrinhos para criar as bases de um universo compartilhado tão coeso, liderado por Kevin Feige. Desde o início, em especial com a escalação de Samuel L. Jackson como Nick Fury e uma grande participação da S.H.I.E.L.D. na formação da equipe dos Vingadores, parecia bem óbvia uma inspiração no que Mark Millar e Brian Hitch haviam feito no início do século em Os Supremos, uma abordagem mais pé-no-chão dos Vingadores no Universo Ultimate.

No entanto, logo percebemos que apesar do Universo Ultimate reverberar bastante no MCU, no que se refere à personalidade dos heróis a Marvel optou por um caminho mais clássico. Ok, Tony Stark é um piadista bon vivant como sua versão em Os Supremos, mas no geral todos os personagens na HQ de Mark Millar são exageradamente arrogantes, sociopatas, narcisistas e mesquinhos. Uma experimentação interessante para aquele título, mas não exatamente ideal para levar aos cinemas.

O Capitão América de Millar em especial, era um típico soldado americano da década de 40, machista, racista e xenófobo, cujos feitos mais lembrados na HQ incluem ofender os franceses e chutar um homem desarmado no rosto. Um cowboy irredutível e averso a opiniões alheias, que o escritor levou para o universo regular da Marvel quando escreveu a controversa Guerra Civil.

Para o universo que estava sendo construído no cinema, a Marvel precisava claramente de algo diferente.

Assim como o Superman, o Capitão América foi um personagem criado para representar a verdade, a justiça e o modo de vida americano, sendo sempre o herói que não apenas é respeitado por todos os outros, mas também aquele que é usado como exemplo a ser seguido. E também como o Superman, existe sempre o perigo do personagem ser considerado bobo ou desinteressante pela sua personalidade um pouco escoteira demais. A linha entre torná-lo mais interessante ou escrotizá-lo é tênue.

Porém, nem só de Mark Millar vivia o Capitão América nos quadrinhos do início deste século, já que na linha regular da Marvel o escritor Ed Brubaker entregava aquela que é considerada hoje a melhor fase que o personagem já teve nos quadrinhos. E que sabiamente, foi a maior inspiração na construção do personagem de Chris Evans para o cinema.

Com tramas adultas, críveis e extremamente cinematográficas, Brubaker redefiniu o Capitão América nos quadrinhos, sem jamais desrespeitar sua caracterização clássica conforme idealizada por Joe Simon e Jack Kirby. Muito identificável e carismático, seu Steve Rogers consegue oscilar muito bem do soldado patriota e líder incontestável ao garoto do Brooklyn que só queria fazer o bem, inserido em histórias que mexem profundamente com o seu status quo, usando velhos e novos inimigos, e trazendo reviravoltas que trouxeram os holofotes para o título do Capitão América como não acontecia há muito tempo. Reviravoltas tão emblemáticas que acabaram chegando aos cinemas no segundo filme do personagem, como o Soldado Invernal.

Baseado no arco de mesmo nome escrito por Brubaker em 2005, Capitão América: O Soldado Invernal surge como um dos melhores filmes produzidos pela Marvel Studios , seguindo uma fórmula um pouco diferente de seus antecessores. Tendo muito do clima do quadrinho, o filme dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo é um thriller de espionagem e conspiração que agrada tanto aos fãs de quadrinhos quanto àqueles que são chegados a um bom filme de ação no estilo 007 ou Bourne. E sacramenta, de forma definitiva, como o Capitão América de Brubaker é completamente funcional no cinema – algo que sua própria narrativa já evidenciava.

Assim como na HQ, a trama gira em torno da existência do Soldado Invernal, um assassino misterioso que está envolvido em algumas das maiores conspirações do século e que mais tarde se revela como o antigo parceiro do Capitão América, seu amigo James “Bucky” Barnes. Encarada com muita polêmica na época de seu lançamento por trazer de volta um personagem morto há anos, a história acabou se revelando como uma das melhores do herói (se não a melhor) e Brubaker o seu escritor definitivo.

Não é difícil enxergar as nuances do Capitão América idealizado por Brubaker naquele que foi construído no MCU. Altruísta e justo, ele também pode ser incisivo, preciso e letal. Às vezes aparentemente inocente, revela-se astuto e estrategista. A verdade é que, sem a base construída com perfeição por Brubaker, a Marvel Studios teria muito mais dificuldade para conseguir encontrar o perfeito equilíbrio no espírito do Capitão, correndo o risco de optar pela errônea (e mais fácil) abordagem de Mark Millar.

Algo interessante a se observar é que a fase de Ed Brubaker pelo Capitão América é, ainda hoje, base para muitas teorias do que ainda pode acontecer com o personagem no MCU. Afinal, depois do Soldado Invernal, um dos elementos mais notórios dessa run é o fato de Steve Rogers ser assassinado nas escadarias do Capitólio, e o manto e o escudo do Capitão América passarem para Bucky Barnes, o homem outrora conhecido como Soldado Invernal.

Muitos apostam que o Capitão América pode morrer em Vingadores: Ultimato, filme que marca o “encerramento” dos primeiros 10 anos do MCU, e que o Bucky pode assumir o escudo como nos quadrinhos, sendo o novo Capitão América dos cinemas.

E se você ainda não teve a oportunidade de ler a aclamada fase de Ed Brubaker à frente do Capitão América, esse é o melhor momento. A editora Panini está relançando Capitão América: O Soldado Invernal, o primeiro volume. Você confere a lista de edições abaixo:

O Soldado Invernal
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Ameaça Vermelha
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A Morto do Sonho
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O Homem que Comprou a América
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Flecha do Tempo
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Renascimento
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O Julgamento do Capitão América
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