No primeiro trailer de Homem-Aranha: Um Novo Dia, vemos que Peter Parker está aparentemente sofrendo algum tipo de mutação, com seus poderes evoluindo. Além dos sentidos estarem mais aguçados do que nunca, ele se mostra capaz de gerar teias orgânicas, saindo de seus próprios pulsos.
Existem rumores de que o filme está preparando uma adaptação da saga da Aranha-Humana, mas afinal, o que é isso? Como (e por que) Peter se tornou um monstro aranha nos quadrinhos? No vídeo de hoje, explicamos tudo sobre isso, além de falar também sobre a saga O Outro, que também pode estar sendo adaptada no filme.
A Saga dos Seis Braços
A semente para as mutações corporais extremas de Peter Parker foi plantada no início da década de 1970, em um arco que se tornaria um dos mais icônicos do personagem. Em The Amazing Spider-Man #100 (1971), com roteiro de Stan Lee e arte de Gil Kane, Peter encontra-se em um estado de exaustão física e colapso emocional. Assombrado pela morte do Capitão George Stacy e acreditando que sua vida dupla como super-herói está destruindo suas chances de ter um futuro normal ao lado de Gwen Stacy, ele toma uma decisão drástica: deixar de ser o Homem-Aranha para sempre.

Para alcançar esse objetivo, Peter utiliza seus conhecimentos científicos para desenvolver um soro químico complexo, projetado para anular os efeitos da aranha radioativa em seu DNA e remover seus poderes.
Ao ingerir a poção, ele entra em um estado de delírio febril agonizante, sofrendo alucinações onde enfrenta seus maiores inimigos. Quando finalmente desperta desse pesadelo induzido pela química, a realidade se mostra pior que o delírio: o soro não removeu suas habilidades, mas sim agiu como um catalisador, acelerando sua mutação aracnídea. Peter descobre, horrorizado, que quatro braços adicionais cresceram em seu torso.
O desespero toma conta do herói em The Amazing Spider-Man #101. Incapaz de circular por Nova York ou explicar sua condição para Gwen e Tia May, ele busca refúgio no laboratório secreto de seu amigo e colega cientista, Dr. Curt Connors (o Lagarto). A situação de isolamento de Peter é repentinamente interrompida pela chegada de um novo e perigoso vilão que faz sua primeira aparição nos quadrinhos: Morbius, o Vampiro Vivo. Morbius havia invadido a propriedade em busca de refúgio após sua própria trágica transformação científica.
O clímax da saga ocorre em The Amazing Spider-Man #102. A tensão no laboratório atinge níveis críticos quando o estresse da situação faz com que o Dr. Curt Connors se transforme novamente no Lagarto. O Homem-Aranha de seis braços se vê preso em uma batalha brutal de três frentes contra o Lagarto e Morbius.
Durante o confronto, Peter e Connors percebem que a enzima presente no sangue de Morbius, resultante de sua mutação vampírica com morcegos, é a chave química necessária para reverter as condições de ambos. Após conseguirem extrair o sangue do vampiro e sintetizar um antídoto, Peter consegue retornar à sua anatomia normal, encerrando a bizarra mutação dos seis braços.
Como a Aranha-Humana surge nos quadrinhos
Embora a Saga dos Seis Braços tenha trazido uma mutação física, a transformação completa de Peter Parker em uma criatura monstruosa e bestial, a verdadeira “Aranha-Humana” (Man-Spider), ocorreu pela primeira vez nas páginas de Marvel Fanfare #1 e #2 (1982), por Chris Claremont e Michael Golden. A história começa com o Homem-Aranha e o mutante Anjo (dos X-Men) viajando para a Terra Selvagem, o ecossistema pré-histórico escondido na Antártica. O objetivo inicial da dupla era investigar o desaparecimento de Karl Lykos, o alter ego do vilão Sauron.
Na Terra Selvagem, os heróis entram em conflito com os Mutados, um grupo de seres alterados geneticamente. O líder científico do grupo, o vilão Imago, consegue capturar Peter Parker. Fascinado pelo DNA já alterado do herói, Imago o submete a um dispositivo de manipulação genética de sua própria invenção. O objetivo não era apenas enfraquecer o Homem-Aranha, mas regredir sua evolução, destrancando o potencial animalesco da picada da aranha radioativa e sobrepujando sua humanidade.
O resultado do experimento de Imago é aterrador. A estrutura óssea e muscular de Peter se expande e se deforma. Ele perde sua capacidade de fala, seu intelecto e qualquer traço de consciência humana, transformando-se em um aracnídeo gigante, grotesco e bípede. Essa versão da Aranha-Humana possui múltiplas patas, olhos compostos, mandíbulas afiadas e a habilidade de cuspir uma teia ácida e altamente corrosiva. Movida apenas por instintos primitivos e predatórios, a criatura se torna uma força da natureza incontrolável e letal dentro da selva.
A criatura bestial trava um combate violento contra seus próprios aliados, incluindo o nativo Ka-Zar. A força bruta da Aranha-Humana quase sobrepuja o herói, que hesitam em usar força letal contra o corpo de seu amigo. A resolução desse arco só ocorre quando Karl Lykos, em sua forma de Sauron, utiliza sua habilidade mutante de absorção de energia. Ao drenar a energia vital e genética do monstro para se alimentar, Sauron inadvertidamente retira o excesso da mutação induzida por Imago, revertendo o processo e devolvendo a Peter Parker sua forma humana e sua sanidade.
A adaptação da série animada
A popularização definitiva do conceito da Aranha-Humana para o grande público ocorreu na aclamada série animada do Homem-Aranha de 1994. Durante a segunda temporada do desenho, os roteiristas adaptaram a Saga dos Seis Braços, mas decidiram expandi-la significativamente. Na série, a mutação de Peter não é resultado direto de um soro que ele tomou para perder os poderes, mas sim uma falha instável em seu próprio DNA.
Buscando desesperadamente uma cura, Peter procura os X-Men, na esperança de que os especialistas em mutação genética possam estabilizá-lo. Sem sucesso com os mutantes e correndo contra o tempo, o Aranha recorre aos experimentos da Dra. Mariah Crawford. Em um ato de desespero, ele ingere um soro não testado desenvolvido por ela. O resultado espelha os quadrinhos: em vez de curá-lo, a fórmula acelera drasticamente a doença neogênica, fazendo com que quatro braços extras rasguem seu traje, criando o Homem-Aranha de seis braços.
No entanto, a série animada diverge dos quadrinhos ao não parar a mutação nos braços extras. A instabilidade genética de Peter atinge um ponto de ruptura e, em uma cena que marcou uma geração de espectadores, ele sofre uma metamorfose completa e dolorosa. Seu corpo cresce, seu rosto se deforma em uma carapaça com mandíbulas, e ele se torna a monstruosa Aranha-Humana. A criatura foge para a noite de Nova York, completamente destituída das memórias e da moralidade de Peter Parker, agindo como um predador noturno implacável.
A transformação atrai a atenção de dois caçadores letais: Kraven, o Caçador, e o Justiceiro, que começam a rastrear a criatura pelos esgotos e becos da cidade. Após uma perseguição intensa e combates explosivos, o Justiceiro e Kraven percebem que a fera é, na verdade, o herói corrompido. Juntos, eles conseguem imobilizar a criatura tempo suficiente para que a Dra. Crawford administre um novo antídoto, revertendo a mutação para a forma humana.
O que é “O Outro”
A exploração da dualidade entre o homem e a criatura no mito do Homem-Aranha atingiu seu ápice conceitual e filosófico no evento “O Outro”, publicado entre 2005 e 2006. A saga se afasta das mutações científicas clássicas para abraçar a natureza mística e totêmica dos poderes de Peter Parker. Tudo começa de forma sombria: Peter é diagnosticado com uma doença degenerativa terminal e incurável decorrente de sua radiação inicial.
Enquanto lida psicologicamente com a iminência de sua morte e tenta se despedir de Mary Jane e Tia May, Peter é caçado pelo vilão Morlun, um predador vampírico e implacável que se alimenta da energia de totens animais. Sabendo que o herói está doente e enfraquecido, Morlun o ataca implacavelmente. O combate é o mais brutal da vida de Peter, deixando-o em coma. Quando Morlun invade o quarto de hospital para finalizar o trabalho e consumir o herói, Peter, em um último ato de defesa instintiva, se deixa ser consumido por uma força bestial interior, desenvolvendo ferrões nos pulsos e destruindo Morlun de forma selvagem antes de aparentemente falecer.
O corpo de Peter não apodrece, mas secreta uma teia biológica espessa, formando um casulo sob a Ponte do Brooklyn. Dentro desse estado de incubação, a consciência de Peter é transportada para um plano astral. Lá, ele é confrontado por uma entidade espiritual mística conhecida como O Grande Tecelão, ou “O Outro” — uma divindade aracnídea predatória. O Outro explica a grande falha de Peter: durante toda a sua vida, ele abraçou a parte “Homem” de sua identidade, usando a ciência e o intelecto, mas rejeitou ativamente a parte “Aranha”, enxergando a picada radioativa apenas como um acidente biológico, e não como um chamado totêmico.
Para renascer e sobreviver à doença, Peter é forçado a aceitar um pacto: ele deve abraçar “O Outro”, o lado animal predador, unificando o homem e a besta de forma definitiva. Ao aceitar, ele eclode do casulo completamente curado, e fisiologicamente evoluído. Esse renascimento não traz a forma de um monstro, mas lhe concede novas habilidades orgânicas inerentes a uma aranha verdadeira, como a capacidade de disparar teias de seus próprios pulsos, visão noturna, pelos sensoriais aprimorados e a letal habilidade de liberar ferrões venenosos de seus braços quando ameaçado.
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