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Vamos começar esse artigo com uma afirmação contundente: nem O Homem de Aço (2013) de Zack Snyder nem Superman (2025) de James Gunn acertam em cheio na representação do seu super-herói principal.
Ambos os filmes têm as suas falhas e qualidades, que, curiosamente, parecem contrastar entre si. Dito isso, a versão de Gunn é mais bem-sucedida em um aspecto crucial: a desmistificação do propósito glorioso do Superman.
Snyder acertou com Jor-El, mas não soube traduzir isso em motivação para o protagonista

Uma das principais qualidades de O Homem de Aço é o desenvolvimento do personagem Jor-El, o pai biológico do Superman. A versão de Russell Crowe conseguiu o improvável: rivalizar com o icônico Jor-El do lendário Marlon Brando.
A sua história de fundo é destaque no começo de O Homem de Aço. Além disso, também é notável como o filme deu ao personagem um papel muito ativo na trama mesmo após a sua morte na explosão de Krypton.
Este Jor-El era um cientista brilhante que fez de seu filho, Kal-El, o primeiro nascimento natural em Krypton em eras (isto é, diferente de outros kryptonianos, ele teria livre arbítrio, uma ideia original do filme que não existe nos quadrinhos) porque, desde o princípio, tinha um propósito glorioso em mente para ele. Jor-El fala explicitamente sobre enviar o seu filho a um lugar onde ele seria um deus, um salvador divino.
A intenção aqui era clara: reforçar os paralelos entre Superman e Jesus Cristo, o que, honestamente, também estava presente na versão de Richard Donner. Embora os criadores do personagem, Joe Shuster e Jerry Siegel, fossem judeus, não há nada de necessariamente errado com essa abordagem.
O problema é que Snyder falhou em traduzir isso em motivação para o herói. O dito propósito nunca é gratificante para Superman; é o oposto, ele o vê como um fardo. Este é um Superman que parece atormentado pelo próprio heroísmo que deveria representar.
A sequência de O Homem de Aço, Batman vs Superman: A Origem da Justiça, tornou isso ainda mais evidente. Num determinado momento, Superman diz à sua mãe adotiva, Martha Kent, algo sobre estar cansado de ser temido e incompreendido, e ela responde que ele é livre para fazer o que quiser porque não deve nada à humanidade.
Gunn desconstruiu a ideia do Superman como um deus

Curiosamente, por intenção ou não, a abordagem de James Gunn foi um giro completo de 360⁰ em relação à de Zack Snyder.
Para este Superman, não há fardo para carregar porque, para início de conversa, simplesmente não há propósito glorioso: embora Kal-El inicialmente acredite que foi enviado para a Terra por seus pais biológicos para fazer o bem, ele logo descobre que, na verdade, eles tinham a expectativa de que ele a dominasse.
Ao se reconectar com os seus pais humanos, Clark logo percebe que nunca foi sobre destino: ele é o herói que é com base na boa educação que teve e nas escolhas que ele mesmo fez. Ele não é um homem bom porque estava destinado a ser; ele o é porque sabe distinguir o certo do errado, mesmo que a sua visão de mundo seja excessivamente simples às vezes, e o certo é sempre o melhor a se fazer.
Gunn não precisava tornar Jor-El mau para passar essa mensagem

Como já citamos, a abordagem de Gunn não é isenta de falhas. Ele não precisava tornar Jor-El e Lara maus para passar a mensagem que queria passar.
Partindo do ponto de vista do Superman como imigrante, essa ideia da “natureza versus criação” pode levar a algumas interpretações bastante negativas e equivocadas, mesmo que essa não fosse a intenção de Gunn.
Em várias histórias em quadrinhos, Jor-El não enviou seu filho à Terra necessariamente para ser um salvador: na realidade, ele nem sabia direito o que estava fazendo e só queria que Kal-El tivesse boas chances de vida. Essa é, na verdade, a abordagem preferida de muitos dos leitores de histórias do Superman. Essa ideia poderia ter funcionado na desconstrução que Gunn queria fazer, e ele teria evitado controvérsias no processo.
Infelizmente, Gunn não é o roteirista mais sutil que existe, e acabou seguindo um caminho muito mais obtuso. Mesmo assim, o cineasta fez um trabalho digno em nos entregar um Superman que não é um deus inalcançável, mas um sujeito com o qual todos podemos nos identificar ao tentarmos ser pessoas boas.
Quando parece que ninguém permanece bom nesse mundo, talvez fazer o bem seja o novo Punk Rock.






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