Quinze anos depois, Daniel Craig encerra sua fase como James Bond em ‘007: Sem Tempo Para Morrer‘. O ator superou a enorme desconfiança dos fãs (inclusive a minha) para marcar seu nome na história da franquia. Então, vê-lo tendo a oportunidade de colocar um ponto final nessa jornada dentro dos seus próprios termos, com um filme muito superior a ‘007: Contra Spectre‘, foi realmente especial.
‘007: Sem Tempo Para Morrer’, assim como várias outras produções de Hollywood, acabou sendo afetado pela pandemia de COVID-19. Em determinado momento, surgiram até rumores de que poderia ser vendido ao streaming, pela bagatela de US$ 600 milhões. Mas, esse é um dos casos que podemos dizer tranquilamente: felizmente, não aconteceu.
A última dança de Daniel Craig merecia ser vista na tela grande.

Na trama, Bond deixou o serviço ativo e está desfrutando de uma vida tranquila ao lado de Madeleine Swann (Léa Seydoux). Mas, seu período de paz é curto, pois seu velho amigo da CIA, Felix Leiter (Jeffrey Wright), aparece pedindo ajuda. A missão leva o ex-agente secreto para a trilha de um misterioso vilão armado com uma nova tecnologia perigosa.
Começando pelo óbvio: Craig fez jus às declarações de que precisava de um tempo para descansar após a cansativa experiência de ‘Contra Spectre’. O ator mostra muita vitalidade nas sequências de ação, além disso, se empenhou para mostrar uma das versões mais vulneráveis do icônico agente secreto.
Ao contrário de outros filmes da franquia, desta vez Bond está muito mais carregado pela emoção, especialmente no relacionamento com Madeleine Swann. Mas, a verdade é que pude perceber um equilíbrio muito melhor com os elementos clássicos da personalidade do personagem.
Várias de suas “tiradas” de humor continuam lá, colocadas em pontos estratégicos, sem prejudicar a construção da trama. Esse, aliás, é um problema que tenho com a interpretação de Roger Moore (opinião impopular, talvez).
O elenco de apoio também não decepciona, especialmente Léa Seydoux e Lashana Lynch.

Seydoux retorna como Madeleine Swann, principal interesse romântico de Bond, e desta vez, com um desenvolvimento muito mais interessante em comparação ao filme anterior. Na verdade, fiquei bem surpreso especialmente no terceiro ato, onde a atriz mostra todo seu alcance, e não apenas em cenas dramáticas.
Lynch é Nomi, a nova 007. A agente é tudo aquilo que você pode esperar: habilidosa, letal, e até um pouco convencida. São características que entram em conflito com a experiência de Bond logo no contato inicial.
Outros papéis secundários como M, Q, Moneypenny continuam na medida certa, mas sem muito a acrescentar.
Ana de Armas, apesar de ótima em tela como a espiã Paloma, tem uma participação bem pequena. Tanto a crítica internacional quanto o público reclamaram disso, e com razão. A atriz, em ascensão desde ‘Blade Runner 2049‘, merecia mais.

Tudo isso, é claro, seria prejudicado sem uma direção forte, e Cary Fukunaga conseguiu entregar isso. No início do desenvolvimento, confesso que considerei algo inusitado para a despedida de Craig, mesmo que seu trabalho na primeira temporada de ‘True Detective‘ seja uma verdadeira obra de arte.
Vale lembrar: Danny Boyle (Trainspotting) havia sido a escolha original dos produtores. Estilos totalmente diferentes.
Grandes sequências de ação, intensidade, fotografia excelente e tomadas mais longas ditam o ritmo, com destaque especialmente para as cenas na Itália e Noruega. Apesar desse ser o filme mais longo da franquia, dificilmente você se sentirá entediado.
Podemos dizer que foi um “teste de fogo” para Fukunaga, que não trabalhava em um longa-metragem desde Beasts of no Nation, de 2015.
Minha torcida é para que ele fique em uma posição de destaque em Hollywood a partir de agora.

Infelizmente, nem tudo são flores. Como todos sabem, os vilões da franquia são tão importantes quanto o próprio Bond, e na fase de Craig, tivemos apenas Silva (Javier Bardem) e Le Chiffre (Mads Mikkelsen) como aqueles realmente impactantes.
Havia a promessa de fazer algo diferente aqui, com Safin do vencedor do Oscar Rami Malek. Alguém que até não conseguiria igualar Bond fisicamente, mas se transformaria em um dos “vilões mais inteligentes” da franquia.
Isso não aconteceu. Na verdade, após sua introdução (que é excelente), chama muito a atenção como o vilão é colocado para escanteio. Parecia que os roteiristas não sabiam o que fazer, e por isso, concentraram seus esforços apenas em situações causadas pelos capangas.
Aliás, caso você seja fã de longa data da franquia, ficará feliz ao ver que se manteve a tradição de ter um capanga “excêntrico”: O Ciclope! Não é nada no nível de Oddjob ou Jaws, mas traz boa diversão em cena.
Christoph Waltz retorna para uma participação especial como Blofeld. No entanto, se fosse para ter tão pouco do ator e com uma qualidade tão abaixo do restante do filme, era melhor ter descartado.

A trilha sonora foi uma grata surpresa. Comandada pelo mestre Hans Zimmer, temos várias homenagens ao (injustiçado) 007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade, único filme estrelado por George Lazenby e um dos melhores da franquia, com um final simplesmente chocante.
(Por favor, assista!)
Ouvir algumas das melodias de John Barry incorporadas no trabalho de Zimmer foi a cereja do bolo.
O tema principal de Billie Eilish inegavelmente combina com o tom do filme, mas ainda ficou bem longe de Skyfall (Operação Skyfall) ou You Know My Name (Cassino Royale). Por sorte, fica bem acima da medíocre Writing’s on the Wall (Contra Spectre) e a aberração Another Way to Die (Quantum of Solace).

Conclusão:
007: Sem Tempo Para Morrer é uma aventura eletrizante e emocionante do icônico agente secreto, podendo muito bem ser considerado o “último melhor filme” de um ator na franquia, comparado talvez com 007: Licença Para Matar de Timothy Dalton.
Aliás, faziam quase três anos que esse editor não ia ao cinema. Então, ter a oportunidade de retornar justamente nessa franquia que é tão importante pessoalmente, me deixou com um sentimento muito bom.
Encerro esse texto com um pedido de desculpas ao ator, por ter duvidado do seu potencial no início. Sua carreira irá prosseguir, é claro, mas sabendo que o legado deixado por esses cinco filmes será muito importante para a próxima iteração de Bond.
Obrigado por tudo, Daniel Craig. Hora de aproveitar seu Dry martini, e claro: batido, não mexido.
- Exploração do lado emocional/dramático de James Bond
- Daniel Craig empenhado para entregar sua melhor performance no papel
- Elenco de apoio, especialmente Lashana Lynch e Léa Seydoux
- Grandes sequências de ação
- Equilíbrio entre elementos clássicos da franquia com a fase moderna
- Trilha sonora de Hans Zimmer
- Presença fraca do vilão Safin
- Participação de Christoph Waltz como Blofeld
- Participação de Jeffrey Wright como Felix Leiter






Comentários