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the-big-short-movie-posterNo ano de 2008, o mundo inteiro presenciou a grave crise econômica do sistema bancário americano após o estouro da bolha imobiliária. Uma crise que afetou milhares, causando uma grande recessão que levou a taxas altíssimas de desemprego e de pessoas perdendo seus lares. E é justamente essa história que o cineasta Adam McKay se propôs a contar no filme A Grande Aposta, um dos concorrentes a melhor filme na premiação do Oscar 2016, que ocorre neste domingo (28). Quem conhece o histórico de filmes de comédia do diretor pode achar estranho a escolha de tema, mas quem disse que só porque o assunto é sério ele precisa se tratado da mesma forma? Com altas doses de sarcasmo, deboche da situação e inúmeras quebras da quarta parede, McKay entrega um divertido e bem humorado filme sem deixar em momento algum perder o tom de seriedade que a história pede.

Baseado no livro A Jogada do Século de Michael Lewis, o filme conta com um elenco de peso, podendo se dizer que existem quatro protagonistas. Christian Bale vive o excêntrico Michael Burry, investidor estadunidense que foi o primeiro a perceber que havia uma bolha no mercado imobiliário; Ryan Gosling é Jared Vennet, um corretor oportunista que vê a oportunidade de fazer muito dinheiro com a crise; Brad Pitt interpreta Ben Rickert, um ex-banqueiro cansado do negócio, mas que decide ajudar dois jovens que pedem sua ajuda para entrar no campo de guerra que se transforma o mercado imobiliário; e por último temos Steve Carell, que dá vida a Mark Baum, um temperamental dono de corretora com um pouco mais de senso moral do que os outros personagens, agindo como um improvável herói na busca por fazer os bancos pagarem.

Como já era de se esperar, devido ao tema extremamente complexo (para quem não conhece o assunto a fundo), o filme é recheado de siglas e situações financeiras que só fazem sentido para quem é familiarizado com Wall Street, e isso é algo que poderia tornar o filme maçante e por vezes tedioso, com aquela sensação chata de quando não estamos entendendo nada do que está sendo dito apesar de claramente estarem falando nossa língua. Para evitar essa sensação, McKay traz uma interessante narrativa para o filme, onde os personagens quebram a quarta parede, como citei mais acima, e apresentam celebridades para explicar de forma mais fácil e bastante sarcástica o funcionamento do mercado financeiro.

Assim, temos passagens hilárias onde personalidades como Margot Robbie, Anthony Bordain e Selena Gomez usam de situações mais próximas do cotidiano como cozinha e apostas, para tentar tornar mais entendível o que está acontecendo na tela. Nem sempre funciona, e por vezes ainda permanecemos tentando entender o que está acontecendo enquanto a cena já pulou para a seguinte um uma extremamente veloz sequência de acontecimentos. Mas diria que no final das contas, procurar entender como tudo funciona não é necessário, já que as situações vividas pelos personagens falam por si só e passam a história para o espectador de maneira satisfatória. 

Como já era de se esperar com esse elenco, todas as atuações são excelentes, mas acredito que o grande destaque fique com Steve Carell, que depois de ter sua veia dramática descoberta com força total ano passado em Foxcatcher (que inclusive lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator) parece dedicado a trabalhar essa vertente em sua carreira. Seu Mark Baum carrega o filme em diversos momentos, com seu visual cansado, nervoso e com a constante aparência de estar carregando mais do que pode suportar. Apesar de Baum supostamente ser o mais humano do filme em diversos aspectos, isso não significa que os outros personagens sejam retratados apenas como exploradores da desgraça alheia. O grande vilão do filme ainda são os bancos, e mesmo que os protagonistas possam ser taxados no mínimo como moralmente duvidosos, a forma como são caracterizados os coloca meramente como investidores inteligentes. Obviamente a dualidade de suas ações não passa despercebida no filme, contendo inclusive uma ótima cena protagonizada por Brad Pitt que trata exatamente desse ponto de vista moral a respeito de suas ações.

De uma forma geral, diria que o mais interessante em A Grande Aposta é a forma diferente com a qual Adam McKay conta sua história. Uma trama que poderia simplesmente se arrastar tediosamente durante duas horas, acaba fluindo de maneira confortável e boa de se assistir. Não diria que o longa é um grande primor, muito menos que seja favorito ao Oscar de melhor filme. Mas na categoria a qual pertence e no que se dedica a fazer, certamente destaca-se como um dos melhores.