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Não tem nada de ficcional no Coronavírus!


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O ano era 2011 e a revista dos X-Men estava mudando das mãos de Matt Fraction para as de Kieron Gillen. Se fosse nos dias de hoje, o simples pensar de um objeto estar mudando de mãos já acionaria a vontade de alguns de lavarem as mãos para evitar o Coronavírus. Naquela época, contudo, os quadrinhos dos X-Men, principalmente sua revista principal que saía quinzenalmente, Uncanny X-Men, vinham sendo tomados pela arte questionável de Greg Land. O artista havia conquistado os leitores de mutantes com a minissérie A Canção Final da Fênix, escrita por Greg Land.

Mas precisamos contextualizar ainda mais, para além do que estava acontecendo nas revistas em quadrinhos. De janeiro de 2009 a agosto de 2010 o mundo se encontrava às voltas com outra pandemia, a da gripe conhecida como H1-N1, que o nosso globo começou a chamar de “gripe suína”, porque havia sido primeiro verificada nos porcos. Assim como a pandemia anterior, a SARS, ficou conhecida também como “gripe aviária” ao redor do mundo.

Os quadrinhos sempre refletem os anseios e os perigos que o mundo real sofre. Foi assim com as guerras, com a epidemia de AIDS, com os tiroteios nas escolas. Quadrinhos de super-heróis, então, que têm a característica de terem uma cronologia ininterrupta e de promoverem soluções mágicas ou supercientifizadas para a maioria dos problemas mundiais, frente a esse tipo de efeito no mundo real, muitas vezes ficam sem saber como refleti-los de modo assertivo e acertado nas histórias em quadrinhos.

O 11 de setembro de 2001 foi um momento em que os quadrinhos de super-heróis, em princípio, não souberam absorver muito bem. Uma ataque em pleno solo americano era demais para uma cultura ensimesmada como a norte-americana. Mas logo a sua ficção começou a dar um rescaldo de todo o terror passado pelos norte-americanos no 11-09: os morto-vivos dos anos 1950 do pós-guerra voltavam a tomar a cultura ianque de assalto. Prova disso é o sucesso que fez a série (em quadrinhos e audiovisual) The Walking Dead.

Os próprios filmes de super-heróis eram uma resposta patriótica e ficcional àquilo que os estadunidenses não conseguiam transmitir em miúdos, ou seja, produzir ficção a partir dos acontecimentos do onze de setembro. Uma honrosa exceção foi o Ex Machina, de Brian K. Vaughan. Então que a reação da ficção quadrinística norte-americana ao Influenza H1-N1 também veio atrasada, em janeiro de 2011, em Uncanny X-Men #530. Essa série dos X-Men foi a única que teve coragem de botar o dedo diretamente (tematicamente) e indiretamente (com um vírus ficcional) na ferida. O vírus mutante, inclusive, se chama HX-N1.

Na história, os mutantes da ilha-nação mutante de Utopia começam a pegar uma gripe estranha, que não apenas os enfraquece, como também “desliga” os seus poderes. Um dos X-Men que parece ter sido mais afetados pela doença é Wolverine. Como o seu poder mutante é o fator de cura, ele tanto o impedia tanto de ter imunidade baixa como também remitia o envenenamento radioativo que seu esqueleto de adamantium gerava.

Ciclope, autoridade-mor da ilha-nação de Utopia, ordena que ninguém deve entrar e ninguém deve sair do local até que que o vírus não seja redimido. Quarentena para os X-Men e seus aliados. Anjo, Emma Frost, Estrela Polar, Fada, Cristal e vários outros mutantes estão fora da ilha quando irrompe a epidemia .A eles cabem os assuntos combativos e bélicos contra os mutantes fora-da-lei no mundo. O interessante é que nessa época os X-Men tinham à sua disposição uma profissional de relações -públicas chamada Kate Kildare. É ela que precisa deter a histeria da mídia contra os mutantes e as consequências do pânico do vírus para a população em geral.

Contudo, como tudo na vida das histórias em quadrinhos esse tipo de situação é facilmente resolvida. Afinal, não estamos no mundo real e – ligeiro! – o arco de histórias precisa se concluir em pelo menos seis edições. Dessa forma ficamos sabendo que o criador do HX-N1 era Encéfalo, um capanga do vilão John Sublime que queria para si o direito de usar o genoma mutante ao seu bel-prazer. Assim, ele poderia criar humanos com “avanços” límbicos mutantes.

Nas histórias em quadrinhos, todo criador de uma praga mortal tem em sua posse, obviamente, o antídoto. Não importa se ela mata mais mutantes ou humanos, velhinhos ou crianças, ou seja lá que faixa populacional seja o bode expiatório da vez.

De toda forma, precisamos lembrar que a “gripe mutante” HX-N1 quase matou Wolverine, o imortal, o todo-poderoso herói que tem como se curar e se curar e se curar várias vezes. Mas ele foi infectado com um vírus – e essa não foi a única vez que isso aconteceu – que quase o matou. A infecção de Wolverine levou outro bando de pessoas valentes a terem que se isolar do mundo. Isso porque os X-Men quiseram ser heróis de uma outra forma, evitando o contágio e uma sucessão de sofrimento e mortes.

Por isso, agora no instante que estamos vivendo da quarentena do COVID-19 é importante que todos nós nos recolhamos para dentro de nossas ilhas-nações Utopia e tentar viver o mais utopicamente possível com as coisas que temos. Fazendo isso para que a utopia não vire distopia. Ser herói neste momento não é sair nas ruas atacando possíveis vilões e cientistas loucos criadores de poções mágicas. Não é “só uma gripezinha”, não é ficção, é algo bem real. Se você você quer ser valente, evite o contágio, evite o sofrimento alheio e evite as mortes. Afinal, no mundo real é bem diferente. O limite que separa alguém de ser herói e ser vilão de uma história é uma linha bem fininha.

Faça como os X-Men: fique em casa e cuide-se! Tome todas as precauções para evitar a transmissão do novo Coronavírus.



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