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Todo fã de Star Wars reconhece o significado de ter o nome de Dave Filoni associado a uma produção da franquia. Considerado um discípulo de George Lucas, Filoni começou a trabalhar com Star Wars em 2008, na série animada The Clone Wars, onde criou personagens icônicos como o Comandante Rex e, é claro, Ahsoka Tano.

Quando a Disney comprou a Lucasfilm em 2012, a série foi descontinuada em prol de uma produção mais voltada para o público infantil: Star Wars Rebels; mas não demorou para Filoni imprimir sua assinatura nessa série também, não apenas criando outros personagens incríveis, como também resgatando nomes muito queridos do antigo universo expandido (hoje Legends) e trazendo para o cânone, como foi o caso do Grão Almirante Thrawn, personagem criado por Timothy Zhan no livro Herdeiro do Império, de 1991.

Dou esse contexto para explicar porque é tão importante ter Dave Filoni em qualquer coisa relacionada a Star Wars hoje em dia, e porque ao assistir Ahsoka (série que teve todos os episódios escritos por ele) temos aquela sensação de que estamos diante de algo realmente digno da franquia. Porque Ahsoka é, facilmente, a melhor produção de Star Wars em anos. A que tem a essência de Star Wars e que traz o melhor de tudo que já vimos nesse universo.

Evento da Ahsoka
Reprodução/Disney

E convenhamos, fazer uma série como Ahsoka não é uma tarefa fácil. É até mais difícil, por exemplo, do que as séries da Marvel, que exigem conhecimento prévio de alguns dos filmes da UCM e seus personagens. Isso porque o cerne de Ahsoka sequer vem de uma obra live-action, tendo suas raízes na verdade em duas séries animadas: Clone Wars e Rebels. A primeira foi responsável por apresentar Ahsoka como a padawan de Anakin Skywalker, enquanto que a segunda praticamente oferece todo o mote para que a nova série aconteça. No último episódio de Star Wars Rebels, o jovem Jedi Ezra Bridger se joga para uma jornada sem volta para outra galáxia, como um último ato desesperado para impedir os planos do Grão Almirante Thrawn. Em Ahsoka, encontramos justamente um grupo de vilões em busca de trazer Thrawn de volta para reestruturar o Império. Sim, podemos dizer que Ahsoka é, basicamente, a quinta temporada de Rebels.

Mas afinal, isso atrapalha o entendimento? Digamos que, sim e não. Obviamente, existe todo um esforço da série em oferecer contexto para funcionar por si só, mas sabemos que existe um limite até onde isso é funcional. Os personagens são bem apresentados, flashbacks existem para contextualizar o Anakin mestre que nunca vimos no cinema, mas claramente existe a sensação de um buraco narrativo para aqueles que nunca assistiram as duas séries animadas que apresentaram todos esses personagens. E assim, é difícil para quem nunca viu essas séries criar qualquer tipo de conexão afetiva com esses personagens ou se interessar com o que acontece ou deixa de acontecer com eles.

Reprodução/Disney

Não é a toa que aqueles que mais se destacam são justamente os personagens apresentados na própria série, sem o peso de um conhecimento prévio além daquele trazido junto com eles. Estes são Baylan Skoll (Ray Stevenson) um misterioso ex-jedi que parece ter planos muito maiores, e sua aprendiz, Shin Hati (Ivanna Sakhno). Embora não se entendam como Jedi, os dois também não são Sith, e sua dualidade oferece alguns dos melhores diálogos da série. 

O Baylan de Ray Stevenson, aliás, é um dos melhores e mais bem escritos personagens que Star Wars já nos ofereceu, sem aquele velho maniqueísmo tão característico da franquia. Baylan é complexo, questionador, e embora não acredite mais na ideia do que é ser um Jedi, ainda é um admirador de seus preceitos originais. Além de ser um personagem muito bem escrito, a interpretação de Ray Stevenson acrescenta ainda algumas camadas extras ao personagem, o que torna ainda mais triste quando lembramos que o ator faleceu há poucos meses, aos 58 anos.

Reprodução/Disney

No entanto, para aqueles familiarizados não apenas com as séries animadas mas também com o que vem sendo construído no chamado “Mandoverso” – cujo ponto de partida foi a série The Mandalorian – Ahsoka é uma perfeita orquestra regida por Dave Filoni. Deixando bem claro por que é considerado um discípulo de George Lucas, o diretor, roteirista e produtor nos leva para um passeio por essa galáxia muito distante (e até outras mais distantes ainda), com um pacing perfeito de quem sabe muito bem trabalhar com obras serializadas.

Há algum tempo, o criador da série de The Boys, Eric Kripke, fez um declaração bastante certeira sobre como muitas das séries hoje em dia se perderam no seu próprio conceito, sendo basicamente filmes inflados de 8 horas, divididos em pedaços – o que gera aquela sensação de episódios de enchimento que não avançam a trama. Filoni, felizmente, não trabalha dessa forma. A divisão de Ahsoka faz com que cada episódio seja especial, tenha peso narrativo dentro da história que está sendo contada e mantenha o espectador interessado por si só. Isso não apenas faz com que a série tenha um ritmo excelente, como também imprime com elegância uma história muito bem construída, onde até mesmo as pontas soltas deixadas para a próxima temporada foram milimetricamente pensadas.

Reprodução/Disney

Ao longo de suas quatro décadas de existência, Star Wars foi se expandindo e se moldando, até chegar à identidade característica que temos em mente quando pensamos na franquia. E de tudo que foi criado desde a compra da Disney, Ahsoka é a produção que melhor patina dentro de tudo que faz Star Wars ser Star Wars. De duelos com sabre de luz, batalhas espaciais, vilões inalcançáveis e raças exóticas, Ahsoka consegue entregar tudo com perfeição. Aliás, por falar nos duelos de sabres de luz, Filoni traz aqui algo que ele já havia brincado brevemente em Rebels: colocar uma pesada influência samurai nas lutas. 

O núcleo de Star Wars sempre gritou cinema samurai, afinal algumas das maiores inspirações de Geoge Lucas vieram da obra de Akira Kurosawa. O estilo de batalha com sabres de luz nada mais é do que uma forma de kendo exageradamente coreografada, mas Filoni testou em Rebels (quem não lembra do duelo final entre Obi-Wan e Darth Maul?) algo muito mais próximo das lutas de espada do cinema samurai. Aquele duelo mais analítico, cadenciado, quase reverente. Em Ahsoka isso é extrapolado, com confrontos que, se as poses diretamente retiradas da arte samurai não fossem o suficiente, ainda contam com uma trilha sonora para marcar a assinatura de forma mais clara. Um primor.

Reprodução/Lucasfilm

Nos últimos tempos, mesmo no espaço que havia encontrado no streaming, Star Wars começou a amargar alguns problemas. Boba Fett desapontou com algumas decisões criativas pouco inspiradas, Obi-Wan Kenobi ficou muito aquém da expectativa gerada, a terceira temporada de The Mandalorian parecia completamente sem foco, e Andor, embora tecnicamente excelente, pareceu esquecer que é Star Wars. 

Dessa forma, Ahsoka não apenas é uma carta aberta de Filoni ao universo ao qual se dedica há pelo menos 15 anos, mas é também uma amostra do potencial narrativo que existe dentro da franquia criada por George Lucas em 1977. E vou além: Ahsoka é tão bom, traz personagens tão incríveis e oferece um potencial narrativo tão incrível, que é um pouco triste lembrar que isso vai descambar no Episódio VII. Mas tudo bem, Filoni tem aí um espaço de pelo menos 30 anos para brincar – e para nos oferecer ótimas histórias.

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Nota 9
Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.