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No que diz respeito ao atual status de oligopólio da Walt Disney Company, nada representa melhor o dano que isso causa à integridade artística de suas obras do que essa onda de remakes live-actions de suas animações. Enquanto alguns são até justificáveis (modernizações de filmes de décadas atrás, como Mogli – O Menino Lobo e Dumbo, ou reinvenções como Malévola e Christopher Robin), são os remakes de suas animações da Renascença que realmente ofendem.

Tratam-se de filmes com menos de 30 anos que já são amados e permanecem atuais (e atemporais) e que dificilmente tem algo a acrescentar em uma versão com atores reais. Mas regurgitar suas grandes histórias de forma mecânica apelando para a nostalgia do público pagante (que cresceu com as animações) é muito mais fácil e uma garantia muito maior de lucro do que tentar algo novo (até porque atualmente se a Disney quer algo de novo, ela não cria, apenas compra), então o próximo a sofrer o tratamento live-action é Aladdin. E mais uma vez, essa tendência se prova quase tão cínica e cansada quanto no remake de A Bela e a Fera.

Naturalmente, a trama é a que já conhecemos: Aladdin (Mena Massoud) é um ladrãozinho que se apaixona pela Princesa Jasmine (Naomi Scott). Quando ele é manipulado pelo maquiavélico grão-vizir Jafar (Marwan Kenzari) a capturar uma lâmpada mágica, Aladdin descobre que nela vive um gênio poderoso (Will Smith) que o concederá três desejos. Com isso, ele vai tentar se passar por um príncipe e cortejar a princesa enquanto aprende importantes lições sobre valor pessoal.

Curiosamente, existe muito potencial em uma nova releitura de Aladdin. Talvez reinventado com mais ênfase em ação e aventura, inspirado pelos épicos swashbuckler do passado, como O Ladrão de Bagdá (que foi grande inspiração para a animação), mas com sensibilidades modernas à la Piratas do Caribe. E no entanto, o estúdio opta por mais uma adaptação opressivamente fiel da animação de 1992, mas que constantemente falha em capturar o que fez dela tão especial.

Não por acaso, seus melhores momentos são quando o filme se desprende da fonte, tentando cenas completamente originais (a festa com tons de Bollywood e a perseguição no tapete mágico contra um Iago gigante) e novas características de personagens (Jasmine quer suceder o sultão, Jafar já foi um ladrão de rua como o Aladdin), mas esses elementos mal são desenvolvidos quando o filme precisa voltar a reproduzir a animação de forma perfunctória.

Mas, ironicamente, um dos problemas que essa reprodução leva, é quando ela entra em choque com os elementos que foram especificamente desenvolvidos pensados de forma animada.

O Gênio é um bom exemplo. A grande estrela do filme, o Gênio do Robin Williams funcionava justamente porque foi concebido para o formato de animação, representando os seus poderes cósmicos ilimitados com a linguagem de humor slapstick nonsense que foi cimentada nos Looney Tunes e outras animações de Chuck Jones, junto com a energia frenética de standup de Williams. Aqui, Smith funciona quando ele está apenas sendo um gênio cômico com a persona moldada em cima de sua personalidade, mas quando ele precisa canalizar a anarquia cartunesca da animação, o resultado é desconexo. É simplesmente uma piada que tenta ser reproduzida de forma literal, mas se perde na tradução entre mídias (incluindo o seu visual azul em CGI, que só fica pior à medida que o filme segue).

O resto do elenco também apresenta a mesma inconsistência:

Naomi Scott é de longe o maior destaque, tanto como atriz como cantora, trazendo uma nova convicção à uma das mais famosas princesas da Disney e convencendo em sua nova narrativa feminista (mesmo quando nesse quesito, o roteiro vive na linha tênue entre o sincero e a progressividade ilusória corporativista). Mena Massoud começa bem como o ladrão charmoso e depois o príncipe farsante com tons de adolescente atrapalhado, mas vai definhando no último terço, quando temos que acreditar que conquistou a princesa e depois precisa contemplar as consequências de suas mentiras, onde sua performance estagna. E quanto a Marwan Kenzari… bem, para os que sempre quiseram a versão sem carisma, sem presença e mais heterossexual do Jafar, esse é o seu dia de sorte.

A direção de Guy Ritchie é outro problema: Engessada e com enquadramentos letárgicos que consegue drenar a vida do ótimo design de produção do filme e dá aos números musicais uma boa vibe de teatro filmado. Nem parece o mesmo diretor que, independente de qualquer defeito, sabia comandar um blockbuster de ação com energia e personalidade (seus filmes de Sherlock Holmes, por exemplo).

No final, o remake de Aladdin é um pouco melhor (ou no caso menos pior) que A Bela e a Fera. Pelo menos ele é menos fixado em explicar o que nunca precisou ser explicado e não arruina completamente a essência dos seus personagens-chave. Mas tal qual A Bela e a Fera, esse é um filme que jamais vive fora da sombra do original. É impossível não comparar todas as cenas às suas respectivas contrapartes animadas e pensar o quanto elas eram superiores. O live-action tenta replicá-las, mas sempre falta com os pequenos toques que faziam elas criar vida:

O sentimento de derrota do Aladdin, na lama, ao ouvir que ele nunca vai ser mais que um ladrão ou o deslumbre da Jasmine ao ver além dos muros do palácio pela primeira vez em cima do tapete mágico, e que convence qualquer um que ela está prestes a engatar em um dueto romântico. No live-action, parece que só inseriram o mp3 de “Um Mundo Ideal” abruptamente, porque obrigatoriamente essa é a parte da história em que a música toca.

O coração da animação estava nos detalhes. O live-action não tem coração. Apenas ganância.



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