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Revitalizando uma franquia sucateada por décadas, Alien: Romulus (2024) apresenta-se como um produto autoconsciente de sua posição corporativa, que ainda assim reflete a personalidade de seu idealizador, Fede Alvarez (O Homem nas Trevas).
Há muitos temas metalinguísticos no trabalho do diretor uruguaio, a começar pelo fato de que este é um filme criado a partir da sucata do original, Alien: O Oitavo Passageiro (1979). Se bebe dessa fonte, naturalmente repete alguns temas, mas não se limita a ser um simples disco repetido, e expande a forte discussão sobre as diferenças entre as classes sociais.

Dentre outros temas abordados, Alien: Romulus (2024) propõe também uma discussão sobre escravidão moderna, entrelaçando-a com as questões da inteligência artificial. Ao evitar um maniqueísmo simplista quando aborda o avanço da tecnologia, o filme provoca um sentimento agridoce, instigando o espectador a refletir sobre o tema sob uma nova perspectiva.
Em outra camada, Fede parece se divertir com o fato de seu filme ser o primeiro Alien a ser lançado sob o guarda-sol da Disney. Talvez o maior símbolo metalinguístico disso seja a forma como ele traz um personagem clássico da franquia, literalmente, de volta do mundo dos mortos para que ele interprete um morto-vivo que representa os interesses da corporação.

Há sentimentos mistos quanto a esse retorno: por um lado, o CGI tosco e a abordagem parecem um despeito à figura real; por outro, a ideia é bastante divertida, especialmente considerando que a Disney já fez algo similar de forma muito mais sem vergonha em Star Wars.
Fede assume no texto que se esforçou para encontrar o melhor de dois mundos: não apenas imprimir sua personalidade, mas também atender os anseios do estúdio, oferecendo ao público ávido por mimos uma tonelada de fan-services. Além disso, o diretor deixa de presente um rumo para a Disney continuar caminhando pela sucata do Ridley Scott.
O ponto alto do trabalho, no entanto, não está nessa autoconsciência do filme como produto de franquia, mas justamente em como Fede e seu diretor de fotografia, Galo Olivares, se distanciam disso ao imprimir um estilo próprio na forma de contar a história.

O peso da gravidade é um recurso muito interessante para dar dinâmica para a fotografia, que brica com os espaços de uma maneira fluída e inventiva. A interação disso com o cenário prático e sujo dos destroços de uma estação espacial é algo muito agradável aos olhos.
A criação da tensão, entretanto, fica sob responsabilidade do que não se vê. Quando mostra o Xenomorfo em um take rápido e logo tira a criatura do campo de visão, Fede coloca o público na posição de presa e potencializa isso com seus enquadramentos claustrofóbicos.
A claustrofobia, então, toma seu espaço e vai sufocando de maneira invisível, fazendo com que o pior se torne o único horizonte possível.

No auge de seu talento, Cailee Spaeny brilha como uma verdadeira estrela de Hollywood na claustrofobia crescente do passar dos atos. Isabela Merced e David Jonsson também brilham como bons coadjuvantes, enquanto os outros membros do elenco principal, embora se esforcem, são esquecíveis.
O esforço do trio Cailee, Isabela e Jonsson, aliado às decisões de cinematografia de Fede e Olivares, ajudam o final a manter seu efeito explosivo, mesmo com um descrédito em verossimilhança ocasionado por uma decisão criativa minimamente curiosa.
Em síntese, Alien: Romulus (2024) não é resultado só de acertos de Fede Alvarez, mas tem grande personalidade, e acerta em cheio na forma como retoma e atualiza algumas das principais discussões da franquia. O filme tem como principal mérito entrelaçar algo novo à nostalgia tão buscada pelo público atual do cinema.
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