Baseado no romance de mesmo nome escrito por Richard K. Morgan, Altered Carbon traz um futuro distópico com clima noir e cyberpunk claramente inspirado em obras como Blade Runner (não à toa, o livro ganhou o prêmio Phillip K. Dick em 2002) e Ghost in the Shell. O cyberpunk tornou-se extremamente popular principalmente nos anos 80 por nos apresentar a ideia de um futuro colorido e ao mesmo tempo sujo que além de visualmente atrativo nos fazia pensar nossos valores enquanto sociedade e seres humanos. Mas afinal, hoje em dia, onde praticamente vivemos nesse futuro e já consumimos dezenas de obras com essa temática, o gênero ainda traz algo de novo?O mais interessante em Altered Carbon talvez seja mudar a discussão que era comum nesse tipo de produção nos anos 80. A série (assim como o livro) não nos leva a questionar o que é ser humano, mas sim o que é ser imortal. Se em algumas dessas obras futurísticas o destaque estava nos avanços tecnológicos e nas máquinas, aqui a tecnologia serve apenas como alegoria para algo muito mais importante: a psique humana diante de uma posição quase que de divindade.
Isso porque, no futuro da série, a humanidade desenvolveu uma tecnologia que permite que a consciência de uma pessoa seja armazenada em uma espécie de chip, transformando corpos em objetos intercambiáveis. Sendo assim, se alguém morre, o seu chip pode ser transferido para um novo novo corpo (chamado de Sleeve, ou capa, nesse universo) e acabando com a possibilidade da morte. A chamada “morte real” só ocorre quando o chip de alguém é destruído.
Dentro desse universo, um mercenário rebelde chamado Takeshi Kovacs é ressuscitado dentro de um novo corpo (Joel Kinnaman) para solucionar o complexo e misterioso assassinato de um dos homens mais ricos do mundo. Seu contratante? A própria vítima, já devidamente ressuscitado em um corpo clonado.
O mundo criado por Richard K. Morgan e adaptado para a Netflix pela produtora Laeta Kalogridis é muito criativo, inventivo e interessante. Fica bem claro que existe um histórico bem desenvolvido e é perceptível como esse mundo vive e respira. No entanto (para o bem ou para o mal) a série não faz questão alguma de contextualizar o espectador ou lhe entregar explicações. O público é inserido de cabeça dentro do primeiro episódio e precisa ir aos poucos pescando os termos e as informações necessárias ao total entendimento. No entanto, isso acaba ocorrendo de forma progressiva e natural, e dentro de pouco tempo temos estamos imersos naquele mundo e acostumados com seu passado e seus termos.
No entanto, muita coisa acaba ficando apenas no campo da suposição. As colônias humanas em outros planetas, por exemplo, é algo apenas arranhado superficialmente, como que se esperando que o público tenha algum conhecimento prévio da obra, o que pode acabar por afastar aquele espectador mais casual. Ainda que as informações necessárias ao entendimento da série sejam sim passadas na tela, fica uma sensação de tremendo desperdício de background. Cria-se um mundo que gera interesse, mas que não é explorado.

Obviamente a série se destaca por seus elementos de ação, e um roteiro frenético que envolve investigação e alguns plot twists. A fórmula mágica para prender um espectador, e onde é mais difícil errar. Mas felizmente, não fica só nisso.
Talvez o ponto alto do roteiro seja apontar o impacto desse tipo de tecnologia para a sociedade. Afinal, com a possibilidade de uma pessoa “ressuscitar”, qual seria a reação e o posicionamento das religiões do mundo? Como fica a figura de Deus? Não que esse tipo de debate tenha um espaço muito grande na série, mas é um ponto que chega a ser questionado e que serve como elemento narrativo para parte da trama. E a visão que a série traz para essa possibilidade é interessante, mostrando que ou a religião se torna obsoleta, ou toma um inevitável viés de organização extremista que obriga seus fiéis a não usarem o “reencapamento”.
Mas se estamos falando de sociedade, é claro que falamos de desigualdade, e é interessante como a série aborda isso. Em uma visão bem realista, vemos que os ricos são os que realmente tem a possibilidade de trocar de corpos indefinidamente, gozando de uma imortalidade obscena, enquanto que os menos favorecidos precisam se contentar com o que lhes é oferecido pelo governo. Uma cena que ilustra muito bem esse cenário é onde um casal pobre consegue um reencapamento para sua filha de 7 anos, que retorna no corpo de uma mulher de meia-idade.
Inevitavelmente, a série no entanto acaba caindo em diversos clichês, como o da sociedade rica e sem escrúpulos, que entediada, resolve se divertir às custas da casta inferior com todo tipo de jogos bizarros e doentios. Já vimos isso até mesmo em Rick e Morty. Mas em defesa de Altered Carbon, acredito que essa seja realmente a melhor forma de caracterizar um futuro onde os ricos podem viver eternamente sem medo da morte. Infelizmente, não existe outro cenário.
Os personagens servem ao seu propósito, mas possuem pouco ou nenhum desenvolvimento. O protagonista por exemplo, Takeshi Kovacs, é desinteressante e unidimensional, apesar de Joel Kinnaman realizar um bom trabalho. Na verdade, o ator sueco faz o melhor que pode com o que tem em mãos. Talvez o grande destaque fique mesmo com os coadjuvantes, como Vernon Elliot (Ato Essandoh) e Poe (Chris Conner), principalmente este último, uma inteligência artificial que se parece e se porta como o escritor Edgar Allan Poe, sendo inclusive dono de um hotel chamado O Corvo. Uma homenagem muito bem vinda, principalmente quando lembramos que Poe é considerado o inventor do gênero ficção policial, além de comumente creditado por sua contribuição ao gênero de ficção científica. Não à toa, os dois pilares de Altered Carbon.
Talvez, potencial seja a melhor palavra para descrever Altered Carbon. A série é sim empolgante, atrativa e oferece um mundo repleto de possibilidades a ser explorado. No entanto, talvez sua linguagem um pouco frenética e carente de explicações possa impedir que se torne um produto de entretenimento de massa. Mas sem sombra de dúvidas, é a proposta mais ousada e inventiva da Netflix nos últimos anos.





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