Comentários

Estimated reading time: 4 minutos

Por sua competência, M. Night Shyamalan construiu um selo de grandes expectativas em torno de seu nome. Assim, ao sairmos de casa para assistir a um de seus filmes, esperamos sempre encontrar subtextos filosóficos e grandes reviravoltas. No entanto, Armadilha (2024) surpreende ao apresentar-se ‘apenas’ como um bom ‘filme pipoca’ para o Dia dos Pais, quebrando as expectativas do público tanto para o bem quanto para o mal.

A concepção do filme em si já é um grande demonstrativo de amor paternal, pois, o diretor claramente arrisca sua reputação em uma promoção da carreira de sua filha, Saleka, como cantora pop.

Pode-se dizer que Shyamalan está agindo da melhor forma com Saleka ao dar esse empurrão para a carreira da jovem nos palcos, pois ela tem muito talento vocal, mas não demonstra qualquer aptidão para a atuação. Portanto, se fosse para lançá-la como atriz, seria bem mais complicado.

Em Armadilha (2024), o diretor abraça novamente o risco de criar histórias originais, mas como em nenhum outro de seus filmes: Shyamalan decide brincar com esse peso, sendo um ‘pai babão’ que adora fazer filmes macabros.

Embora a trama de mostrar um serial killer tentando fugir de um cerco seja interessante o suficiente para atiçar altas expectativas, o filme aborda uma história besta, repleta de policiais estúpidos e conveniências de roteiro que seriam um atentado à inteligência do público, se Shyamalan tivesse tentando ser inteligente, o que não é o caso aqui.

Armadilha do Josh Hartnett
Reprodução/Warner Bros. Pictures

Mesmo mantendo sua característica linguagem cinematográfica que ocupa muito bem o espaço da tela, o diretor está apenas se divertindo ao se colocar em situações difíceis de resolver, assim como o protagonista da história. É como se o próprio Shyamalan armasse a armadilha do título para si mesmo, e o arco do personagem de Josh Hartnett fosse uma metáfora para como ele e Saleka lidam com a produção.

Claro, para a experiência valer a pena tem que ser divertido para o público também, e é aí que o talento de Hartnett entra em cena. O ator é muito convincente na pele desse homem de vida dupla que ama muito a sua filha. Até no pior momento, quando as coisas já estão exageradas, é seu carisma quem segura o interesse, de modo que se torna uma missão difícil não torcer pelo vilão.

Para que o público entre na história, Shyamalan também utiliza seus truques com planos que vão se fechando, causando uma sensação de claustrofobia crescente e dando a perspectiva do protagonista sobre o cerco da polícia.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Podendo ser lido como um espetáculo cômico, Armadilha (2024) é, em síntese, Shyamalan usando a escapologia para brincar de escapismo em uma bela demonstração de afeto por Saleka. Como um bom filme de Dia dos Pais, não poderia terminar melhor do que com um abraço que sela o amor incondicional de uma filha por seu pai serial killer.

Leia mais sobre Armadilha:

Nota 7
Ramon Vitor, Editor-Chefe do site, engenheiro civil convertido em jornalista, é um apaixonado por cinema, quadrinhos e pelo poder transformador da comunicação. Com um olhar analítico aprimorado por anos de estudo da indústria cinematográfica, ele mergulha em seus artigos para O Vício desde 2021, transformando sua paixão em conteúdo cativante. Descubra uma perspectiva única sobre o universo do cinema e da TV.