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Algo na mistura do romantismo policial mórbido de Agatha Christie e a bombasticidade shakespeariana de Kenneth Branagh parece incrivelmente divertida para qualquer um chegado na ficção britânica. E realmente é, Assassinato no Expresso do Oriente é um bom retorno à forma para Branagh, tanto na atuação quanto na direção, e traz a obra outrora incrivelmente popular de Christie de volta ao cinema acessível para uma nova geração, mas sem perder seu flair clássico.

Após resolver mais um caso no exterior, o grande detetive belga, Hercule Poirot está à caminho de Londres via o Expresso do Oriente, quando o trem tem seu trajeto interrompido por uma nevasca e um dos passageiros é misteriosamente assassinado em sua cabine. Cabe agora a Poirot descobrir qual dos passageiros cometeu o crime antes que a viagem chegue ao seu destino, mas entre tantas pistas falsas e figuras suspeitas, a investigação pode revelar uma verdade muito maior do que ele imagina.

O filme carrega um elenco cheio de renomes incluindo Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Daisy Ridley, Johnny Depp, Josh Gad, Willem Dafoe e Penelope Cruz, todos entregando personagens marcantes, mas a grande estrela é inegavelmente Branagh como Poirot: 

Se tratando de um personagem icônico, ele tem que competir com outras versões tidas como definitivas, como as de Albert Finney e David Suchet, mas ele consegue encontrar um viés diferente o suficiente no personagem, talvez mais iconicamente representado pela interpretação radical do famoso bigodinho curvado do detetive em um bigodão de dar inveja a Nietzsche. Esse Poirot não é tão ridículo e não-ameaçador quanto suas contrapartes passadas, inclusive pode ser um tanto imponente dada a situação, mas ainda possui ainda vários dos seus trejeitos afrancesados caricatos que nos asseguram que este é o mesmo detetive pouco ortodoxo da prosa de Christie. Essa versão do personagem amplia a interpretação (muito sensata) que ele possui algum transtorno de compulsão obsessiva, o que ajuda em seu processo de observação na hora de resolver casos, mas termina por aliená-lo socialmente. E também ajuda o fato que, como ator, Branagh, em todos seus exageros, é pura encarnação de presença de tela.

É, no entanto, uma escolha curiosa de livro para se adaptar, considerando que a versão para o cinema de 1974 foi dirigida por ninguém menos que Sidney Lumet (Doze Homens e uma Sentença, Serpico e Um Dia de Cão), também teve um elenco estelar (Albert Finney foi indicado ao Oscar pelo filme, Ingrid Bergman levou o prêmio, e Lauren Bacall, Sean Connery e Anthony Perkins também complementam o cast) e é amplamente considerada uma das melhores adaptações de um livro de Christie, logo, é inevitável a comparação entre os dois filmes. Mas a nova versão consegue se destacar em diversos pontos, graças às sensibilidades teatrais de Brannagh e uma adaptação dinâmica em parte do roteiro, que expande tematicamente em relação ao livro, mais preocupado na construção do mistério:

O filme aborda elementos pesados como racismo, xenofobia, alcoolismo e fanatismo religioso e tem como tema central a ética da justiça, que forma o arco de personagem de Poirot, dando a clássica e inusitada solução do whodunit um contexto temático e emocionalmente ressonante (aos que já a conhecem, sem spoilers, por favor).

Como boa parte do livro consiste simplesmente em Poirot entrevistando os suspeitos no vagão-restaurante do trem, o filme tenta variar locações e introduzir sequências de maior tensão. Não chegam a se tornar realmente cenas de ação, mas ajudam a trazer dinamismo cinematográfico e um senso maior de perigo à narrativa;

Em tempos onde o romance de detetive clássico não tem mais a força de antes, é agradável ver um filme que se presta tanto carinho a esse gênero apagado. A cena final mostra o desejo de produzirem uma sequência (já confirmada, aliás) e espero que ela de fato vá para frente. Os últimos anos viram uma renascença de Sherlock Holmes no mainstream da cultura pop, então quem sabe não possa haver espaço para Hercule Poirot e as outras obras de Agatha Christie.

Assista nosso vídeo sobre o filme:



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