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Apesar de já ser extremamente consagrado em seu meio, Martin Scorsese disse recentemente que está entendendo o potencial que o cinema pode ter apenas agora e, Assassinos da Lua das Flores (2023) é um claro produto desse longo processo de amadurecimento do cineasta.
Ao longo das tão debatidas 3 horas e 26 minutos do filme, o diretor verbaliza no roteiro que nenhuma palavra deve ser dita em vão, e não é! Muito pelo contrário, até o silêncio não é em vão, pois em determinados momentos, os olhares e expressões narram muito mais do que dezenas de páginas de diálogos.

Com bastante tempo à sua disposição, Scorsese não se preocupa em servir a um gênero específico e volta todo seu foco para a história, se permitindo brincar entre o faroeste, a máfia, o thriller político, o investigativo, e por aí vai. O melhor de tudo: Ele faz isso sem forçar um clima de grandiosidade com uma pretensão exagerada.
O diretor não tem pressa para fazer a história acontecer, e deixa tudo fluir naturalmente com uma elegância ímpar.
Em tom, é impressionante como a abordagem de Scorsese consegue provocar sentimentos tão conflitantes à sua temática difícil, através do riso em momentos mais tensos, ou do romance que você já sabe que vai dar errado. É como se o filme permitisse que o público pudesse viver o que os personagens estão vivendo em tela, em tempo real.
Através dessa imersão profunda, e do tempo que não é desperdiçado nem por um segundo, que Assassinos da Lua das Flores (2023) entrega um dos melhores trabalhos de construção de personagens já feitos na história do cinema.
Graças a montagem, o roteiro e o trabalho espetacular do elenco, com poucos minutos você sabe o quanto William Hale (Robert De Niro) é um homem extremamente influente, manipulador e poderoso, e que seu sobrinho, Ernest Burkhart (Leonardo DiCaprio) é um cara de bom coração, porém, ganancioso, manipulável e burro.
Por não entender profundamente a dor dos Osage, Scorsese opta por narrar o filme sob a ótica do casal Ernest e Mollie (Lily Gladstone), cujo a esposa se destaca como centro dramático.
Através da personagem brilhantemente interpretada por Lily Gladstone, o diretor retrata a dor dos Osage assim como a enxerga, e foge das armadilhas das produções sobre crimes reais, que comumente transformam os criminosos em estrelas e ofuscam as vítimas.
Scorsese também consegue driblar esses riscos através da montagem completamente inovadora que apresenta em Assassinos da Lua das Flores (2023), que sustentada pela fotografia delicada de Rodrigo Prieto, foge de clichês de filmes baseados em histórias reais, surpreendendo com dinâmicas inventivas.
Aliás, que ano para o Rodrigo Prieto! Caso não saiba, ele também assina a belíssima fotografia de Barbie (2023), que tal qual a de Assassinos da Lua das Flores (2023), é uma das favoritas para vencer o prêmio da categoria no Oscar.
O fato de Scorsese estar cercado de profissionais que estão trabalhando nas coisas mais criativas de Hollywood, mostra o quanto o cineasta se nega a sentar sobre o seu status para fazer as mesmas coisas de sempre.
Certa vez, um cara fez um personagem de um filme de super-herói dizer que “ou você morre herói, ou vive o bastante pra se tornar o vilão“, e isso virou uma regra ridícula para algumas pessoas. Esta é uma frase que funciona perfeitamente no contexto do filme espetacular que esse cara fez, porém, soa extremamente estúpida quando fora dele, já que coloca o tempo em viés de antagonismo ao conhecimento.
Se propondo a repensar a sua própria carreira aos 80 anos em uma documentação brilhante sobre o “Reinado do Terror” atravessado pelos Osage, Martin Scorsese deixa claro que o conhecimento só será inimigo do tempo se você negá-lo.
Mais maduro como contador de histórias, Scorsese faz de Assassinos da Lua das Flores (2023) não só uma reflexão – já comum na sua carreira – sobre o canibalismo do “Sonho Americano“, mas também uma denúncia sobre as mazelas que a colonização deixou de herança para a civilização moderna.
A exemplo disso, estamos em outubro de 2023 e, com um decreto de emergência sanitária para terras indígenas em vigor, e o garimpo ilegal ainda ameaçando os Yanomami nos estados de Roraima e Amazonas.
Por que coisas terríveis assim ainda acontecem? Por que quase ninguém liga para isso? Um bom palpite é dado quando o personagem de Robert De Niro diz para seu sobrinho que não se preocupe com as acusações que ele vai sofrer, pois vão causar um agito por algum tempo mas depois serão esquecidas.
A luta por resistência a opressão ao redor mundo ainda está longe do fim muito por causa de uma falta de memória, sobre o quanto líderes cretinos e pessoas poderosas deploráveis – como Hale – foram cruéis em momentos passados.
Em Assassinos da Lua das Flores (2023), Scorsese não se propõe apenas a fazer justiça aos Osage contando a história da tribo, mas também a deixar a memória dos crimes cometidos contra eles como um legado para o futuro, para que as pessoas olhem para o que o filme tem a contar e reflitam sobre aqueles que os cercam.
Scorsese não é a personificação do cinema, ou até mesmo um Deus da sétima arte, pois isso sequer existe. Porém, no auge dos seus 80 anos, é alguém que compreende tudo o que um filme pode ser, e que sabe que fazer filmes não se trata sobre tentar mostrar o quanto você é bom no que faz. Não é sobre ele, mas sobre o que ele vai deixar para as próximas gerações.
Podemos nos sentir privilegiados pelo lendário diretor viver o bastante, não para virar um vilão, mas para nos presentear com o resultado de todo o conhecimento que adquiriu com o tempo.
Com Assassinos da Lua das Flores (2023), Scorsese presta uma respeitosa homenagem aos injustiçados Osage, ao adicionar as memórias da tribo ao seu legado de cineasta, que enquanto houver a existência, jamais será apagado!
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