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Os primeiros filmes do DCEU são quase todos polarizantes e, por mais que tenham sido uma decepção de crítica, ainda tem sua cota de defensores. Esquadrão Suicida foi a exceção, no sentido que é bem não-controverso afirmar que é um péssimo filme e um exemplo notoriamente ruim de blockbuster da década passada.

Ele também foi um enorme sucesso de bilheteria e um dos filmes mais falados de 2016.

Talvez a maior marca do sucesso do filme foi como ele efetivamente impulsionou a Arlequina de favorita entre os fãs do Batman para um fenômeno da cultura pop e séria candidata a personagem com mais cosplays em qualquer convenção.

O que também é irônico, já que, por maior que fosse o carisma de Margot Robbie (hoje já concretizada como uma das maiores estrelas da geração), também é uma péssima representação da personagem:

Não apenas por conta da péssima direção, montagem e roteiro do filme, que não consegue desenvolver ninguém em seu elenco plenamente, mas por também ser exatamente a romantização juvenil do relacionamento disfuncional e sádico entre ela e o Coringa que todo textão no Facebook apontava (como se não fosse o ponto óbvio da narrativa desde sempre), aqui inexplicavelmente sendo retratada como um romance não-irônico, contradizendo tudo o que fez dela uma personagem fascinante nos quadrinhos e na série animada de onde ela surgiu, primeiro como uma figura trágica vítima de abuso e, mais tarde, como uma história de superação.

Por sorte, o DCEU parece ter deixado sua primeira fase sombria para trás e tem sido muito bacana nos seus últimos filmes e essa tendência continua em Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa, uma mistura de pedido de desculpas e correção de rumo para aproveitar plenamente todo o potencial mercadológico da ex-Dra. Harleen Quinzell.

Depois de muitos anos de relacionamento psicótico, a Arlequina e o Coringa (aqui interpretado por Sir Não-Aparece-Nesse-Filme) finalmente terminaram de vez. Agora ela está em uma crise existencial, após tanto tempo sendo definida como a namorada de seu pudinzinho. Pior ainda, uma vez que ela não está mais sob a proteção do Príncipe Sadboy Tatuado do Crime, metade do submundo de Gotham City agora está livre para tentar matá-la, em especial, inclui o chefão sádico e afetado Roman Sionis (Ewan McGregor, divertidíssimo), vulgo Máscara Negra.

Como barganha para não salvar a própria vida, ela concorda em recuperar um diamante que foi roubado de Sionis pela ladrazinha mirim, Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Para complicar mais, ela não é a única interessada na menina ou em derrubar o Máscara Negra. Também temos a detetive amargurada, Reneé Montoya (Rosie Perez), a cantora/motorista particular vira-casaca de Sionis, Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) e a misteriosa matadora em busca de vingança com uma besta, Caçadora (Mary Elizabeth-Winstead).

Por um lado, meio estranho que um filme cujo arco central é a homônima emancipação fantabulosa da Arlequina não envolva o seu antigo objeto de sua afeição e agora de óbvio ressentimento, o Coringa (afinal, não é como se ela se importe com o Máscara Negra ou tenha qualquer conflito interno em enfrentá-lo). Mas por outro lado, não posso dizer que estou triste de nunca mais ter que ver o Coringa de Jared Leto de novo.

No mundo dos quadrinhos, as Aves de Rapina, cuja HQ se tornou cultuada nos anos 2000 sob o roteiro de Gail Simone, são uma equipe de super-heroínas, em sua maioria associadas ao universo de Gotham City, e geralmente liderada por Barbara Gordon (tanto em sua identidade de Oráculo como a de Batgirl). E Arlequina nunca fez parte delas.

Nesse sentido, o filme se distancia bastante do material de base, sendo inegavelmente um veículo para a Arlequina em primeiro plano e, no máximo, algo como uma prelúdio para o que nós conhecemos como as Aves de Rapina das HQs salpicado aqui e ali (nossas heroínas sequer unem forças até o terceiro ato).

E pode se entender o fã frustrado que queria que a adaptação das Aves de Rapina e o que é essencialmente o filme solo da Arlequina fossem projetos separados, mas não é tão diferente de quando James Gunn transformou os Guardiões da Galáxia em uma canalhas de coração de ouro espaciais engraçadinhos ao som de música dos anos 70 e essa acabou sendo a decisão correta, porque fazer um bom filme que conecte com um grande público é mais importante do que fanservice.

De fato, a reinvenção em uma entidade singela é tanta que “saturado com o gênero de super-herói” é uma crítica muito batida e muito rasa para descartar esse filme. Ele é muito mais um filme de ação de máfia maluco, uma versão feminina cheia de glitter de Guy Ritchie, Shane Black ou até Paul Verhoeven, do que um filme de super-herói, com vários criminosos de personalidade excêntrica e moda extravagante no lugar de máscaras e super-poderes.

Abrindo o ano onde todos os grandes lançamentos da Marvel e DC são dirigidos e estrelados por mulheres, algo que não podemos esquecer que era impensável até muito pouco tempo, o filme abraça seu elenco majoritariamente composto de mulheres violentadas ou injustiçadas e aproveita a sua censura para maiores para se destacar como não apenas um girl power, mas uma fantasia de vingança catártica contra um mundo patriarcal. Tudo com muito sangue, palavrões, neon, glitter e bom-humor, é claro, porque quem fica com cara fechada é Zack Snyder.

É o primeiro grande filme da diretora Cathy Yan, e ela consegue conciliar com sucesso com o tom irreverente do filme com sua narrativa feminista. E essa não é uma tarefa tão simples de se executar:

Sendo exatamente o filme vulgar, violento e debochado que ele precisa ser, sem um excesso de pudor ou didatismo em seus temas, mas também evitando se indulgir na vibe “politicamente incorreta” ao ponto de se contradizer com tons machistas por puro choque, algo que seria muito fácil de se imaginar sob o comando de um diretor homem (a cena em que Sionis força uma cliente de sua boate a ter seu vestido cortado é um bom exemplo, na qual a câmera se recusa a ser cúmplice da mesma objetificação misógina do vilão).

Yan também não resume suas protagonistas à vítimas, ou finge que suas protagonistas são perfeitas, que a Arlequina não é uma pessoa muito autodestrutiva independente do Coringa, mas ainda com suficiente nuance e carisma para que torçamos que ela se torne uma pessoa melhor (mesmo que não necessariamente mais sã).

O filme, no entanto, não vem sem suas imperfeições. A sensação que algumas de suas personagens não tem tanto destaque ou desenvolvimento quanto deveriam ou que arcos se fecham sem batidas emocionais o suficiente. Acima de tudo, dá a impressão que muito do filme foi criado na sala de edição e existem dezenas de cortes muito diferentes antes do produto final (o que lembra o próprio Esquadrão Suicida nesse quesito, mesmo que nem de longe num nível tão grave), com uma narração em off de Margot Robbie servindo como como fita adesiva narrativa para remendar qualquer rachadura muito evidente.

Muito de sua estrutura caótica para o que é essencialmente uma história simples é justificado pelo próprio filme como resultado de ter uma narradora tão excêntrica e alucinada quanto a Arlequina, o que não deixa de ser verdade, mas não deixa plenamente convencido que esse caos narrativo é totalmente intencional. Mas é, todavia, cativante que o filme tenha noção de como as suas imperfeições se encaixam com sua própria personalidade.

Ao fim, esse é um filme violento, sujo e anárquico que conquista sua classificação para maiores, mas que eu secretamente desejo que muitas meninas de 15 anos assistam, fique encantada com sua estética punk cheia de glitter a ponto de iniciar sua fase rebelde, e, com sorte, talvez ainda lhe marcar com um senso de independência feminina. Não é um mau impacto para filme.

É especialmente engraçado que ele esteja saindo na mesma semana que o mala do ex-namorado da Arlequina concorre ao Oscar com o seu próprio filme solo, o completo oposto de Aves de Rapina, um manifesto de duas horas exigindo que você o leve a sério…

Sinceramente, nessa separação de casal, acho que eu prefiro continuar sendo amigo da Harley.

Tchau-tchau, pudinzinho!

Positivo
  • Corrigindo os erros de Esquadrão Suicida para realmente aproveitar o potencial de Margot Robbie como Arlequina
  • Um delírio da DC de glitter, neon e moda. Com porradaria
  • Caminha a linha tênue entre narrativa de empoderamento feminino e filme de crime vulgar e violento com sucesso
Negativo
  • Parece bastante um filme criado na ilha de edição a partir de dez horas de material bruto e um corte inicial de três horas
  • As Aves de Rapina são sensacionais, mas não tem muito das Aves de Rapina no filme das Aves de Rapina
Nota 8010
Crítica | Aves de Rapina



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