Desde sua estreia nas páginas de Detective Comics #27 em 1939, o Batman passou por inúmeras mudanças. Do Batman que matava, ao Batman colorido do pós-Comics Code Authority que inclusive gerou a série de 1966 estrelando Adam West, passando pelo Batman detetive de Denny O’Neil, as trevas de Frank Miller e o tom gótico imposto por Tim Burton no filme de 1989. E é essa capacidade de reinvenção que o torna um personagem tão interessante e que o difere de outros super-heróis dos quadrinhos.
Diferente do Homem-Aranha, por exemplo, que é muito mais dependente de uma caracterização precisa, os anos fizeram de Batman um personagem de muitas interpretações e facetas. Esse status de monumento cultural do Homem-Morcego, que faz com que ele possa ser reinventado das mais diferentes maneiras e ainda assim ser sempre reconhecível, foi algo que beneficiou o cineasta Matt Reeves em seu filme do Batman, que chega aos cinemas esta semana.
Quando soubemos que o filme traria uma abordagem mais urbana e realista, muito se falou a respeito de possíveis comparações com a trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, que também apresentava essa proposta. No entanto, ao desenvolver um thriller de suspense e investigação, Reeves demonstra que mesmo dentro de uma abordagem supostamente já utilizada, ainda é possível criar algo completamente novo com o morcego. Porque é isso que “Batman” consegue fazer, entregando um filme que em nenhum momento lembra qualquer coisa já feita com o personagem no cinema. Pelo contrário, é esse ineditismo que ajuda a tornar essa Gotham e esse Batman tão interessantes.
E o tom que Reeves conseguiu imprimir no filme é digno de nota. Afinal, vamos lá, o filme trabalha com a maior base de realismo que já vimos com o personagem no cinema. Isso é demonstrado tanto no macro quanto no micro, pois vai da forma mais rústica como o Batman lida com os criminosos e usa sua tecnologia, ao simples fato de mostrar – pela primeira vez no cinema – a pintura facial do Batman sob a máscara. Não temos, a título de comparação, um cara com um saco de batatas na cabeça que usa um gás do medo ou um idoso badass comandante de uma organização secreta de ninjas.

Esse realismo extremo, que traz o Batman de fato para muito mais perto de nós, significa então um distanciamento muito maior dos quadrinhos? Um pouco, mas não totalmente. Existe uma inspiração clara e palpável em “Batman: Terra Um“, de Geoff Johns e Gary Frank, tanto em temática quanto em elementos narrativos. Alfred, por exemplo, interpretado no filme por Andy Serkis, possui não apenas o mesmo visual da HQ citada, como também é o responsável nas duas histórias pelo treinamento de Bruce Wayne.
E por falar em Bruce Wayne, vamos logo tirar o elefante da sala, antes mesmo de falar sobre a trama. Robert Pattinson é, facilmente, o melhor Batman do cinema. Não que Batman seja um personagem de muitas nuances, que exija uma grande interpretação, mas Pattinson entrega exatamente o que o roteiro propõe, e passa, através de seus olhares, todos os sentimentos do Batman – da impulsiva agressividade à melancolia de sua jornada solitária.
Ajuda o fato do filme respeitar o seu título, e ter um foco constante no protagonista, especialmente nos seus sentimentos. Embora não vejamos (felizmente) a morte dos Wayne pela milésima vez, o roteiro consegue de forma natural ainda assim apresentar as motivações de Bruce e a ideia de vingança que o move – pelo menos inicialmente. Aliás, essa lógica da vingança e da agressividade do Batman, que já havia sido alardeada nos trailers do filme, se mostram como pontos muito importantes na construção do personagem e em seu desenvolvimento de vigilante a herói. Além de marcar um elemento crucial da trama como um todo.
E por falar na trama, temos aqui um Batman atuando já há dois anos em Gotham, aliado do tenente Jim Gordon e com o Bat-sinal sendo utilizado para aterrorizar os criminosos da cidade à noite, quando o Homem-Morcego sai para caçar. É nesse contexto que surge o Charada, um criminoso que começa a assassinar pessoas influentes em Gotham, desvelando até onde vai o nível de corrupção da cidade. Criando um doentio jogo de enigmas com o Batman, ele funciona ao mesmo tempo como antagonista e fio condutor narrativo para a trama.
E por falar em corrupção, o fato de Gotham ser uma cidade corrupta com policiais e sistema judiciário completamente comprometidos com a máfia é um ponto recorrente nos quadrinhos, mas nunca foi tão bem aprofundado no cinema quanto nesse filme. A sujeira é tão real e tão ofensiva, que nos faz entender a sensação de impotência do Batman e suas dúvidas se está realmente fazendo a diferença.
É um nível de corrupção tão profundo e emaranhado, que faz o espectador sentir que Gotham é uma cidade sem salvação. Esse nível de construção de mundo faz o filme ainda mais imersivo, pois torna as motivações do Batman muito mais justificáveis de um ponto de vista simpatizante ao espectador. É mais fácil compreender a motivação do Batman enxergando o que ele quer mudar, do que apenas entendendo que aquele sistema tirou seus pais.
A direção de Matt Reeves, aliada ao roteiro, que ele também assina, leva o filme em uma absoluta crescente. Tudo é muito bem estruturado, as respostas são dadas nos momentos certos, e embora esse seja o Batman mais detetive do cinema em um filme muito mais cerebral, por vezes vemos o protagonista se surpreendendo tanto quanto o espectador. No entanto, toda essa construção não funcionaria tão bem se não fosse pelo elenco, completamente dedicado a entregar a melhor experiência possível.
Além do já citado Robert Pattinson, a Mulher-Gato de Zoe Kravitz também se destaca, o Pinguim de Colin Farrell é tão escorregadio e perigoso quanto nos quadrinhos, e o Alfred de Andy Serkis, embora tenha pouco tempo de tela, é responsável por ser o ponto de apoio de Bruce Wayne, embora essa relação pudesse ter sido melhor explorada e aprofundada. Quem também rouba a cena é Jeffrey Wright como Jim Gordon, principalmente porque o policial tem uma grande participação no filme, provavelmente a maior de Gordon em um longa. Sua parceria com o Batman é bastante explorada, e a confiança dos dois homens é um dos pontos altos do filme.
E, é claro, não podemos deixar de falar de Paul Dano, que interpreta uma versão completamente psicótica e perigosa do Charada. Embora durante boa parte do filme ele fique apenas nas sombras ou aparecendo em vídeos com um modulador de voz, Dano entrega uma performance incrível, que em determinado ponto do filme, sai do campo lúdico e traz um arrepio real para o público. Um medo primitivo. Isso porque o filme é corajoso e inesperado quando chega em seu terceiro ato, tocando em um tema extremamente sensível e que, sinceramente, eu não esperava que Matt Reeves fosse trazer à luz.
No entanto, por falar em terceiro ato, ele não é exatamente um problema, mas digamos que destoa um pouco do ritmo imposto ao longo de todo o filme. Não é nada drástico como Mulher-Maravilha (2017), mas é como se alguém tivesse decidido que o clímax precisava de doses cavalares de ação. Novamente, não é um problema, e na verdade é muito bem executado, mas não deixa de sacudir as estruturas de algo que, embora contasse sim com ação pontual, parecia muito mais focado em ser um suspense investigativo.
O Batman de Matt Reeves é um marco interessante para a história do Homem-Morcego, provando que, assim, como outros ícones do entretenimento, sempre existe espaço para experimentação e reinterpretação quando estamos falando do Cavaleiro das Trevas. Ao longo de quase 3 horas de execução, vemos um vigilante agressivo e dominado pelo ódio, aprendendo mais sobre sua cidade e sobre si mesmo, e entendendo que, antes de qualquer coisa, o povo – assim como ele próprio – precisa de esperança. Existe uma cena muito interessante no filme, aliás, que nos faz pensar o quão curioso é o fato de que, embora represente as trevas, Batman é um farol para Gotham.