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Nenhum personagem dos quadrinhos é tão atraente para cineastas e contadores de histórias quanto o Batman. O fato de Cruzado Encapuzado reunir nomes consagrados da indústria de Hollywood, como J.J. Abrams, Matt Reeves e Bruce Timm, diz muito sobre o peso que esse universo de histórias carrega. Obviamente, essa reunião jamais resultaria em algo ruim, mas há um alerta importante no subtexto da nova série animada: está cada vez mais difícil contar novas histórias sobre o Homem-Morcego.
Cruzado Encapuzado é mais sobre Gotham e menos sobre a figura do Batman, que vem à série sem nada de novo. Muito sobre esse vigilante em começo de carreira atormentado por seu trauma já foi explorado em outras adaptações, seja na narrativa expositiva do Christopher Nolan ou no profundo estudo de personagem de Matt Reeves.
Olhar para essa situação só reforça o quanto o vindouro The Brave and the Bold precisa da versão mais madura do herói, que estará lidando com a paternidade, para que se possa falar algo definitivamente novo sobre o personagem no audiovisual.

Não que seja necessário trazer algo novo para contar uma história sobre o Batman, pois, há uma biblioteca vasta nos quadrinhos que permite que criadores possam trabalhar na missão da vez, como era feito nos filmes clássicos e episódicos de James Bond.
A questão é que é difícil algum grande nome da indústria topar com o Homem-Morcego e se contentar com a missão da vez. É o caso de Cruzado Encapuzado, que se propõe a contar algo sério sobre o herói em tom de ineditismo, mas acaba repetindo algo que já foi contado inúmeras vezes antes, mudando apenas o cenário para uma Gotham dos anos 40.
O antídoto dessa falta de novidade, entretanto, é a habilidade do showrunner Ed Brubaker em dar peso para o entorno do Batman com a construção de um ecossistema sombrio para Gotham. Veja, poucas pessoas são mais qualificadas para falar sobre as entranhas dessa cidade podre quanto Brubaker e seu parceiro criativo, Greg Rucka — leia Gotham: DPGC.
Porém, esse desenvolvimento do submundo da cidade e seus interessantes personagens seria muito mais atrativo se o Batman participasse mais da história. Da forma que foi executado, o herói acaba virando um coadjuvante de sua própria série em alguns momentos, e isso é frustrante em algum nível.
Dessa forma, o que há de mais interessante em Cruzado Encapuzado é a reinvenção em si, desde os desafios que o herói enfrenta sem ter seus brinquedos tecnológicos, até a forma como os vilões clássicos são distorcidos em favor da trama e do tom, que faz uma mistura muito interessante entre o terror clássico e o noir.
Já em sua 1ª temporada, a série aponta para algumas potenciais heranças muito interessantes, e talvez a principal delas seja a reinvenção do Cara-de-Barro, vilão que está sendo discutido há algum tempo em Hollywood e tem gerado dúvidas sobre como funcionaria na tela grande.
Juntando os conceitos do metamorfo da fase moderna dos quadrinhos com os do ator serial killer da Era de Ouro da DC, a série abre um portal enorme de potencial para exploração do vilão na TV e no cinema. Lembre-se, Mike Flanagan está desenvolvendo um filme sobre ele há anos. Pense nisso assim que assistir ao episódio 3.
Se a reinvenção é o que de melhor há em Cruzado Encapuzado, pode-se dizer que o estilo extremamente burocrático da animação é o que mais decepciona. A nova série não cumpre sua promessa de fazer jus à produção clássica de Bruce Timm nesse quesito.
Há uma clara falta de inspiração visual e falta fluidez aos movimentos. Seria leviano descrever a animação como preguiçosa sem saber o quanto a indefinição sobre o lançamento influenciou nesse processo. Vai ver, faltou orçamento para produzir algo mais interessante. No entanto, não há como ignorar o quanto esse estilo cansado desperdiça bons elementos do script.
Em saldo geral, a série é uma grande produção sobre o Homem-Morcego, que inteligentemente se força a ser mais sobre mistérios e detetives do que sobre feitos heroicos. Entretanto, seria interessante isso mudar de figura na vindoura 2ª temporada, preferencialmente com o tamanho do papel do herói sendo aumentado.
A Gotham que a equipe criativa queria estabelecer já está estabelecida, e o que eles tinham para falar sobre sua versão do herói já foi falado. Talvez o foco na missão seja o melhor caminho para o crescimento de Batman: Cruzado Encapuzado como série.
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