Comentários

A animação Batman: Gotham by Gaslight é um caso muito peculiar de adaptação: ela muda absolutamente cada detalhe da história na qual se baseou, mas ainda assim cai nas mesmas armadilhas do original. Afinal, existiam algumas boas oportunidades de suspense aqui, e o visual certamente é muito atraente, mas os personagens não são explorados bem o bastante para que todo mistério seja justificado, o que gera um clímax, no mínimo, insatisfatório.

Trata-se de uma história original inspirada por Um Conto de Batman – Gotham City 1889, minissérie de uma edição que imagina um embate entre Batman e o famoso assassino Jack, o Estripador na cidade de Gotham da Era Vitoriana. O quadrinho, que contava com ilustrações estilizadas do ótimo Mike Mignola, era um conto muito curto que se focava em inserir o Homem-Morcego na Era Vitoria. Como consequência disso, Jack, o Estripador acabava virando um mero detalhe da narrativa, e honestamente qualquer leitor com mais de dez anos poderia desvendar o mistério por trás de sua identidade ainda nas primeiras páginas.

Este problema conta com uma tentativa de correção da animação, que insere mais personagens para confundir o espectador. Eles são rostos muito conhecidos pelos leitores das histórias em quadrinhos, e é divertido como vilões como Harvey Dent, Solomon Grundy e Hugo Strange são reimaginados. E é só: uma escolha divertida que rende boas “piscadelas” para o público. Todos eles são tratados de maneira superficial, e nenhum deles é um suspeito convincente.

A representação de Jack, o Estripador é particularmente estranha, pois o mesmo não passa de um problema para os músculos de Batman. Neste sentido, o produtor Bruce Timm e o roteirista James Krieg perderam uma boa oportunidade de transformar o assassino em uma ameaça psicológica para o Homem-Morcego, como Charada e Coringa. A consequência disso é um retrato raso e pouco amedrontador de uma figura amedrontadora por essência.

O grande ponto alto de Batman: Gotham by Gaslight está em suas imagens, não necessariamente pelos traços, que são no mínimo bobinhos em comparação com o que Mignola fez na HQ. O diretor Sam Liu, veterano nas animações da DC, transforma Gotham em um lugar ainda mais desagradável para se estar. Bem como na visão do cineasta Tim Burton, a cidade do século XVIII não soa muito grande, e é cheia de ruas apertadas e becos cobertos com névoa, que trazem uma sensação claustrofóbica ao longa animado.

Outro tópico positivo é o elenco de dublagem, que dá um aspecto diferente bem-vindo aos personagens. O dublador do Batman, desta vez, não é o famoso Kevin Conroy, mas Bruce Greenwood, conhecido por ter dublado o super-herói em Justiça Jovem. Ele é um Cavaleiro das Trevas que age mais do que fala, o que é sempre interessante porque tal característica está sendo esquecida aos poucos, e Jennifer Carpenter adota modos muito sedutores como Selina Kyle.

Original, Batman: Gotham by Gaslight estabelece muito bem o universo no qual se passa, mas decepciona por subaproveitar uma ideia rica por natureza – que, ao que parece, jamais será bem aproveitada. É triste que continuem narrando embates físicos entre Batman e Jack da mesma maneira que narram embates entre Batman e Bane. Se o maior detetive do mundo se encontrasse com o assassino em série mais misterioso da história, as coisas certamente não iam acontecer desta maneira. 



Comentários