
A recém-lançada adaptação da HQ atualiza a cena de um modo interessante: Dessa vez, as imagens que aparecem no Bat-Computador incluem referências aos Coringas de Jack Nicholson, Heath Ledger, Cesar Romero, bem como o dos anos 70, das animações de Bruce Timm, entre outros. Desde 1987, o Príncipe Palhaço do Crime rendeu versões tão variadas e fascinantes quanto o seu arqui-inimigo. Infelizmente, é aqui que os elogios acabam, porque a versão animada de Batman: A Piada Mortal é uma tremenda decepção que falha em fazer justiça à graphic novel em quase todos os aspectos.
Ironicamente, essa é talvez a animação da DC que foi mais ansiosamente aguardada pelo público, incluindo até o lançamento limitado nos cinemas brasileiros. Outros grandes clássicos do Batman já foram adaptados, incluindo Ano Um e O Cavaleiro das Trevas (e renderam ambos animações muito melhores), mas a chegada do Coringa de Jared Leto em Esquadrão Suicida, a possível perfomance final de Mark Hamill como o personagem e a classificação indicativa para maiores tornaram altas as expectativas para essa animação. É necessário então um pouco de calma para explicar as falhas do filme:
Sexo, Mentiras e Barbara Gordon
Antes de mais nada, é importante notar que existe uma grande polêmica em relação à HQ e o tratamento sádico de Barbara Gordon na narrativa. Ela se tornou um dos exemplos mais emblemáticos de “Mulheres na Geladeira“, o conceito criado por Gail Simone, que observa o quão recorrente na cultura dos quadrinhos é a morte, violência e desempoderamento de mulheres, frequentemente utilizadas apenas como motivação para o personagem masculino.
Ao longo da HQ, Barbara é baleada, paralisada e ainda exposta em um abuso de cunho sexual (o que não significa literalmente estupro, como alguns especulam, mas a alusão à violência sexual é inegável) simplesmente para desenvolver a narrativa do Comissário Gordon dentro da história. Assim, Barbara, em todo o seu sofrimento, é menos uma personagem com autonomia e mais um plot device. Apenas depois, a personagem foi transformada em Oráculo por Kim Yale e John Ostrander, desgostosos com o tratamento que Barbara recebeu em A Piada Mortal.
Isso não diminui todo o grande triunfo narrativo da HQ como um todo, mas é uma crítica legítima e muito séria (o próprio Alan Moore já declarou que se arrepende dessa escolha) que a maioria dos fãs de quadrinhos prefere simplesmente ignorar. O roteiro desse filme foi escrito por Brian Azzarello, que está ciente dessa controvérsia e decide retificar a situação. Da pior forma possível.
A animação inclui um dispensável prólogo focado em Barbara e seus últimos dias como Batgirl, como forma de dar autonomia à personagem. Se a ideia de um prólogo de dez minutos já parece descartável à princípio, surpresa, ele dura 25 minutos(!), um terço da duração total, fazendo dele menos um prólogo e mais um primeiro ato artificialmente inserido em uma história que já era perfeitamente estruturada. E esse começo também tem pouco a ver com o resto do filme, além de ser muito arrastado e sem justificativa para ser tão longo (tirando, é claro, dar uma enrolada para o filme atingir os 75 minutos de duração).
O prólogo foca na rivalidade entre a Batgirl e um mafioso chamado Francesco e, em uma das escolhas mais estranhas do roteiro, ainda introduz um romance entre a personagem e o Batman (!). Isso mesmo, com direito a sexo impulsivo nos telhados, ainda de uniforme (o que me lembra uma certa cena horrível entre o Batman e a Mulher-Gato no começo dos Novos 52 muito mais do que eu gostaria). Essa ideia já foi insinuada de leve em Batman do Futuro e depois levada a fundo na (não-canônica) HQ do próprio Batman do Futuro, mas acho que a maioria dos fãs concordam que a relação entre Bruce Wayne e Barbara Gordon não é mais que platônica. E muito mais importante que mera fidelidade à fonte original, é que essa é uma péssima decisão narrativa.
Quando eles terminam, o que esses vinte minutos iniciais fazem pela personagem da Barbara é dar a ela uma subtrama que consiste na sua incapacidade de conciliar a vida profissional e emocional com sua atração pelo bat-macho alfa. E mais, retrata a Barbara como sendo impulsiva, inconsequente e facilmente manipulável e é apenas acentuada como motivação para os personagens masculinos; agora o Batman, além de apenas o Gordon. Parabéns a todos os envolvidos, vocês bagunçaram toda a narrativa e ainda tornaram ela muito mais machista que antes. É preciso de um tipo especial de incompetência para isso.
E pior, nesses 25 minutos iniciais, nenhuma dúvida é mais presente do que “esse filme não era sobre o Coringa?”. Isso mesmo, o suposto personagem mais importante sequer é mencionado durante o prólogo (no máximo, muito vagamente insinuado e pode se dizer que a relação entre Batgirl e Francesco é semelhante a de Batman e o Coringa) e só aparece após 30 minutos, quando o filme finalmente decide adaptar A Piada Mortal. E nisso, o Coringa brota na narrativa quase tão abruptamente quanto a Barbara deixa de ser relevante (existe uma cena no meio dos créditos que tenta fechar um arco para ela, mas tudo o que ela faz é tirar o impacto do final original). É ruim para os dois personagens: a Barbara porque quase desaparece em um filme onde ela é a protagonista dos primeiros vinte minutos, e o Coringa porque agora tem seus flashbacks e motivação jogados na trama. Talvez essa sequencia de eventos fizesse mais sentido como um episódio de uma série, seguido de um episódio duplo que são mais ou menos conectados, mas como um filme, é uma narrativa fragmentada e sem coesão.
A Piada Mal-Contada
Mas, apesar do estrago já feito, uma vez que chegamos efetivamente na parte que adapta a HQ, o filme fica bom, certo? Não, o que nós temos é uma adaptação semi-literal da graphic novel, mas de execução muito incompetente.
Não contem ao Alan Moore, mas A Piada Mortal é uma HQ incrivelmente cinematográfica. Não só é um primor de arte sequencial, mas também um tremendo storyboard para quem quiser produzir um filme. Ele introduz vários recursos de linguagem cinematográfica no roteiro, um dos mais notáveis é o raccord, ou match cut, na transição entre cada cena, um conceito que deriva desde a montagem inteligente no cinema soviético, que aqui relaciona o final e começo de todas cenas de forma visual ou verbal (incluindo o primeiro e último quadro), tornando a HQ um ciclo perfeito e ininterrupto que perfeitamente espelha a relação entre o Batman e o Coringa.
Isso é completamente perdido no filme, o que seria compreensível, se ele estivesse tentando seguir o próprio caminho, mas não só ele tenta ser uma adaptação literal, como ainda inclui alguns dos raccords esporadicamente, sem muito critério. Isso sem considerar o prólogo que não tenta absolutamente nenhum desses recursos narrativos (custava terem aberto o filme com o plano da chuva caindo na calçada?).
Uma cena específica do quadrinho faz a transição do Coringa no presente para um flashback de seu passado através de dois quadros que mostram o seu reflexo numa poça de chuva. No filme, eles se dão ao trabalho de recriar o reflexo do Coringa no presente, mas aí cortam para um stablishing shot da fábrica onde trabalhava. Nesse caso, pra que sequer incluir o primeiro plano, sem aquele que o completa?
É como se o filme estivesse reproduzindo automaticamente a maior parte dos quadros de forma idêntica, mas também mudando um ou outro só pra variar, sem entender muito como cada um deles se encaixa na grande narrativa e sem muito entendimento da linguagem cinematográfica.
Volta e meia, a animação também decide incluir uma ou outra cena nova, às vezes com resultados um tanto surreais: Você sabia que a primeira coisa que o Coringa costuma fazer quando escapa do Asilo Arkham é gastar todo seu dinheiro em prostitutas? Ou essa não é exatamente a visão que tinha em mente do personagem? Acho que Azzarello deve achar que ainda está escrevendo o Coringa gangster do gueto da sua graphic novel com Lee Bermejo. O pior é que isso provavelmente é para tentar insinuar aquela velha teoria de que o Coringa teria estuprado a Barbara, um uso muito insensível para um tema tão delicado e que não adiciona nada à história além de fazer ela parecer mais “adulta” na cabeça do fã de quinze anos (literal ou mentalmente).
É incrível a quantidade de momentos em que o filme falha em capturar as nuances da HQ (desde o uso das cores nos flashbacks, até o Coringa apontando a arma para o Batman no final deixando de ser um eco de seu ataque à Barbara), como o ritmo impecável do roteiro de Moore é completamente quebrado e como a reprodução de quase todas as cenas mais famosas não tem nem de longe o mesmo impacto de sua versão na página. E isso não se dá apenas por conta do roteiro.
Mais ou Menos Animado
Como se não bastasse problemas de roteiro, caracterização e direção, olha só, até a animação é ruim.
Brian Bolland famosamente passou um ano inteiro desenhando as 45 páginas do quadrinho, então seu traço detalhadíssimo é impossível de reproduzir aqui, mas ainda assim, o design decidido dos personagens é genérico e pouco interessante. A animação em si é extremamente dura, cheio de frames de qualidade questionável. Os filmes direto pra DVD da DC sempre tiveram um orçamento limitado por natureza, mas conseguiam manter um padrão de qualidade admirável em sua animação (até as últimas baseadas nos Novos 52 tinham problemas, mas se sustentavam) e é muito estranho ver uma queda tão grande justamente agora, em seu filme mais antecipado. Basta dizer que assistir na tela grande não é a melhor forma de apreciá-lo.
Aqui, cenas como a montanha russa do terror que o Coringa submete Gordon ficaram tão ruins que é até estranho lembrar que a HQ consiste apenas de imagens estáticas, enquanto esse filme é de fato animado. Mas o mais insultante em relação a baixa qualidade da animação é como ela conseguiu sugar toda a energia do Coringa. Parece que a idade finalmente atingiu o personagem, e ele agora só pode fazer alguns movimentos, muito lentamente, caso não queira sofrer de severa dor muscular.
É até covardia comparar com a gesticulação do Coringa de Bolland na HQ, mas basta olhar para animações como Batman e Superman – Os Melhores do Mundo e Batman do Futuro – O Retorno do Coringa para observar a diferença. Chega até a acabar com a graça de finalmente ouvir Mark Hamill recitar as falas mais famosas da HQ.
Capitu matou Bentinho, Batman traiu o Coringa
Há alguns anos, Grant Morrison, apresentou uma leitura interessante do final da HQ: de acordo com ele, quando o Coringa recusa a ajuda do Batman e os dois começam a rir juntos da piada, Batman teria quebrado o pescoço do Coringa, terminando assim a rivalidade entre os dois. Essa interpretação, no entanto, acabou ganhando popularidade demais e, equivocadamente, passaram a reduzir a cena final a um simples “matou ou não matou?”.
O final aberto da HQ só recebeu grande atenção há alguns anos, após as observações de Morrison, por um motivo: se ele está realmente lá, ele é sútil e elegante. O final do filme, por outro lado, quer muito ser notado. A animação do Batman levando as mãos em direção ao Coringa é extremamente chamativa, assim como o fim da risada do Coringa. E eles excluíram a sirene de polícia para deixar tudo ainda mais claro (toda a composição da cena é muito feia, a propósito).
Mais importante, ele é tão interessado em apresentar essa dúvida, que perde os pontos mais importantes da melhor cena original: a constatação da relação absurda e contraditória do Batman e o Coringa. É como um leitor desatento de Dom Casmurro, que ao terminar de ler, não absorve nenhuma das ideias do romance, além de simplesmente indagar: “Capitu traiu ou não?”.
Ao final, o filme é indeciso se quer fazer algo novo ou fielmente adaptar A Piada Mortal, e acaba por simplesmente bagunçar o roteiro redondíssimo de Alan Moore para costurar muita gordura de forma crua em uma execução medíocre do clássico. Não conquista nem mesmo o direito a toda essa ambiguidade do final. Com essa piada mortal tão mal-contada, é mais provável que o Batman arranque logo a cabeça do Coringa e vá embora para casa de saco cheio.
Um dos meus primeiros vídeos no canal foi uma análise da HQ. As pessoas parecem gostar. Dá uma olhada lá:
https://www.youtube.com/watch?v=E9cQPTiA_wE