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Após quase ter se aposentado, depois de uma péssima experiência com a Disney no live-action de Dumbo (2019), Tim Burton volta à ação com o estado de espírito renovado e cheio de coisas para contar em Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice (2024).
Lançada 36 anos após o original, a sequência volta sem cair na armadilha da nostalgia. A estruturação de humor não é construída a partir da autorreferência — pelo menos na maior parte do tempo —, mas sim a partir de uma tentativa de entender o que aconteceu nas últimas quatro décadas e como isso impactou aqueles personagens, e até mesmo o quanto interferiu na visão que o próprio Burton tem sobre o mundo.

A nostalgia, na verdade, é vilã em Beetlejuice Beetlejuice (2024), e isso é simbolizado nos arcos de todos os personagens, mas principalmente no de Lydia (Winona Ryder) e Astrid Deetz (Jenna Ortega). Na sequência, mãe e filha devem superar uma barreira criada pelos mortos do passado para se reconectarem.
Essa Lydia de meia-idade, que outrora se definia como um espírito livre, agora é uma pessoa que enfrenta sérios problemas de dependência química. Embora não vá muito longe no tema da pílulas entorpecentes, Tim Burton tem o trato de trazer isso para a história como uma consequência do ciclo midiático mórbido que a personagem de Winona Ryder se meteu.
Quando fala da cabeça mórbida de Lydia e do quanto as experiências recentes dela foram ruins, Burton parece, ao menos em um baixo nível, falar de si próprio. Esse elemento é decisivo para que Beetlejuice Beetlejuice (2024) encontre sua alma e seja autêntico.
Mesmo que toque em temas pesados como morte e drogas, a sequência não está interessada em ser um produto totalmente sombrio, muito pelo contrário. O filme traz de volta uma versão empolgada do Burton que há muito tempo não se via.
Quando essa empolgação solta as rédeas de Michael Keaton, Willem Dafoe e Catherine O’Hara, temos alguns dos melhores e mais divertidos momentos do longa. No entanto, o ímpeto de falar sobre muitas coisas acaba ofuscando parte do brilho do projeto.

Beetlejuice Beetlejuice (2024) lida com vários personagens e se preocupa em dar sentido às participações de cada um deles, mas não consegue fazer isso da maneira mais inteligente. Todos têm seus problemas com o passado; no entanto, ao invés de aproveitar essa intersecção para criar uma ameaça em comum, o roteiro de Alfred Gough e Miles Millar separa a história em vários núcleos diferentes.
A partir do segundo ato, a sensação é de estar acompanhando diferentes filmes em paralelo, com tantos desafios sendo introduzidos ao mesmo tempo, que você começa a duvidar que será possível resolver todos em um só filme. O resultado desse roteiro hiperativo não poderia ser diferente: as conclusões são muito convenientes, simplistas, apressadas e até mesmo confusas.
Monica Bellucci talvez seja quem mais sofre com essa falta de precisão do roteiro. Sua personagem, apresentada como a grande ameaça da história, entra e sai do filme sem causar qualquer impacto significativo. É estranho escrever isso, mas é justamente esse elemento novo o que mais se aproxima de uma participação especial gratuita em Beetlejuice Beetlejuice (2024).

O que é preciso reconhecer do trabalho de Alfred Gough e Miles Millar, entretanto, é que eles são muito eficientes em criar sequências genuinamente engraçadas. A dupla conhece Tim Burton bem o suficiente para saber a melhor forma de explorar o senso de humor dele. Além disso, eles contam com o pesado reforço das improvisações incríveis de Michael Keaton.
É importante notar que, mesmo que o tema do filme não seja sobre os personagens de Michael Keaton e Willem Dafoe, eles são os verdadeiros astros desse novo show de Tim Burton. O diretor reconhece isso e dá bastante espaço para a dupla brilhar.
Embora não se esforce tanto para criar cenas memoráveis, Burton usa muito da sua sensibilidade para ajudar a construir esses momentos mais divertidos. É como se Beetlejuice Beetlejuice (2024) fosse seu parque de diversões.

Em uma época em que os grandes estúdios de Hollywood, tal qual Ouroboros, se consomem em autorreferência e nostalgia, é hilário ver personagens clássicos voltando para nos pedir para deixarmos eles no passado.
Mas não se engane, isso não significa que nunca mais veremos o Besouro Suco. Bem, ele dificilmente vai voltar, mas esse Tim Burton de estado de espírito renovado, disposto a daqui para frente trabalhar só no que estiver afim, deixa claro que uma nova visita a esse mundo ainda é possível, desde que seja autêntica como esta.

O divertido Beetlejuice Beetlejuice (2024) abraça o caos em uma história bagunçada para nos falar sobre luto, morte, aceitação e avanço do mundo digital, enquanto brinca com as inconsistências da indústria do entretenimento — há uma piada ótima com a Disney, inclusive. Na sequência, Burton está bem mais preocupado em entregar a mensagem sobre viver o presente do que em impressionar com eventos bem elaborados, e isso é ótimo.
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