Em sua 6ª e última temporada, Better Call Saul se prova como uma série a ser contemplada e não comparada como muitos preferem fazer.
Quando a série foi anunciada como derivada de Breaking Bad, muitas pessoas torceram o nariz, e com razão. Quem é que imaginava que uma produção sobre Saul Goodman poderia dar certo?
Se parte do público não comprou a ideia, Peter Gould e Vince Gilligan investiram pesado nela, por acreditarem no potencial do personagem mais do que ninguém.
Falar que os dois são mestres do audiovisual é chover no molhado, mas não tem como não destacar o quando eles dominam os recursos narrativos e visuais, a ponto de atingirem a perfeição ao fazer algo simples, porém complexo, que é contar uma história.

Se na 4ª e 5ª temporada, eles fizeram de Better Call Saul uma série com identidade própria muito forte, principalmente com o desenvolvimento extraordinário de Lalo Salamanca, nesta temporada chegou a hora fazer isso se amarrar de vez com Breaking Bad.
E olha, seria muito fácil errar nesse processo e exagerar nas referências ou ligações. Mas o domínio deles sobre a narrativa é tão forte, que mesmo quando o fato de Lalo e Howard estarem enterrados no laboratório do Gus deveria ser um exagero, se torna perfeição, principalmente quando se lembra do icônico episódio da mosca que perturba Walter White.
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Desta forma, a 6ª temporada de Better Call Saul se estrutura em simetria tanto tecnicamente quanto de forma narrativa, com tal recurso combinando não só com os eventos ocorridos na 1ª temporada, como também com os futuros de Breaking Bad.
É de se esperar que a série vença a maioria dos prêmios que está concorrendo no próximo Emmy, principalmente os de atuação, pois o trabalho feito por todo o elenco, sem exceção, é algo para se documentar em qualquer curso sobre cinema e arte.
Não é simples interpretar um homem de muitas faces como Bob Odenkirk faz brilhantemente, ao deixar o público notar quando ele está sendo Jimmy, Saul ou Gene.
Assim como não é simples carregar o peso de um grande arrependimento como Rhea Seehorn faz, ao entregar uma cena agoniante, quando chora compulsivamente dentro de um ônibus no penúltimo episódio da série.
Arrependimento que é um tema importante na narrativa, tão bem frisado quando até Jimmy, o homem que não se arrependia de nada, revelou se arrepender de não ter aceitado a ajuda de seu irmão Chuck, quando ela lhe foi oferecida.
Aliás, o diálogo metafórico da “máquina do tempo” no episódio final, vai muito além de um discurso sobre arrependimento, pois reflete exatamente o que o público experimentou no decorrer de Better Call Saul.
Se os personagens da série não tiveram a oportunidade de voltar para o passado ou ir para o futuro, o público teve, e novamente torceu não só pelos vilões, como também por um dos grandes responsáveis por Breaking Bad ter terminado como terminou.
No fim das contas, acaba sendo uma reflexão de que mesmo voltando no tempo, os mesmos erros seriam cometidos. A diferença desta vez, é que boa parte do público se tornou cúmplice. Ou você vai dizer que não achava o Chuck chato? Pois bem, ele poderia ter mudado tudo.
Sendo assim, ao contrário do que algumas pessoas tentam fazer, não cabe comparar Breaking Bad com Better Call Saul, pois elas não são concorrentes, e sim complemento uma da outra.
A 6ª temporada de Better Call Saul é o fim de uma jornada de 14 anos, que ensina não só o quanto se deve focar em contar uma grande história, como também deve se valorizar a forma com que ela é contada.