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Inevitavelmente, uma continuação para Blade Runner parecia não só desnecessária, mas de certa forma, danosa ao seu legado.

Isso porque o filme de Ridley Scott  incompreendido em seu tempo – não é apenas uma obra-prima, o filme que definiu o cyberpunk e influenciou praticamente todos os filmes de ficção científica (e até outros gêneros) que se sucederam, mas também entrega uma narrativa fechada cujo final aberto ativamente pede para que não mostre o que aconteceu depois.

Mas a máquina hollywoodiana é imbatível, então com a inevitabilidade de uma sequência, não havia escolha mais adequada para assumir a direção que Denis Villeneuve, um dos nomes mais conceituados da atualidade, que já se provou tanto na ficção científica (A Chegada) quanto no thriller policial (Sicario, Os Suspeitos), a combinação ideal para Blade Runner 2049.

Trinta anos após os acontecimentos do filme original, as Indústrias Tyrell faliram e foram substituídas pela corporação de Niander Wallace (Jared Leto). K (Ryan Gosling) é um novo Blade Runner caçando velhos modelos de replicantes para “aposentá-los”. Seu novo caso o levará de encontro com o paradeiro misterioso de Deckard (Harrison Ford).

Gosling interpreta K com muita nuance, uma vulnerabilidade sútil por trás de uma fachada fria. Seu relacionamento com Joi (Ana de Armas) é tocante e fascinante, dando boa dimensão emocional ao personagem. Como protagonista, ele até supera Deckard no primeiro filme.

Não é um acaso que ele compartilha o mesmo nome que Josef K, o protagonista de O Processo, O Castelo e outras obras de Franz Kafka, uma vez que o personagem reflete muitas das ansiedades kafkianas a respeito da modernidade. Ele tenta achar significado através das práticas aceitas de um membro da sociedade moderna, ao mesmo tempo que se vê um prisioneiro do sistema.

O próprio Deckard demora a aparecer, então não conte com a sua presença como um dos atrativos principais. O filme ainda tenta flertar com a ambiguidade quanto à natureza do personagem, uma ideia admirável, mas é preciso de um tempo saber o quanto isso funciona.

Jared Leto faz um bom trabalho como Wallace, o gênio magnata cego (olhos continuam sendo um símbolo importante), mesmo que a presença grandiloquente de Leto mais uma vez superestime um personagem cujo papel é bem mais limitado do que o marketing e boatos quanto a seus métodos levam a crer.

O elemento fraco no elenco, no entanto, é Luv (Sylvia Hoeks), a replicante assistente pessoal de Wallace, com um papel-chave na trama. As afetações na performance de Hoeks (aliada a sua motivação estranha e confusa) fazem com que a personagem pareça pertencer mais a algum filme de ação mais derivativo e não ao universo denso contemplativo de Blade Runner

O filme é esperto em não depender muito de velhos elementos e referências diretas ao original, buscando mais expandir o universo, além das fronteiras de Los Angeles e levando em conta a evolução tecnológica e sociopolítica de um futuro ainda mais distante. Ele tenta achar novas perspectivas para tocar em pontos pontos abordados em seu antecessor como colonialismo, o papel formador das memórias, o sincretismo cultural, a manifestação do religioso e, é claro, a definição do humano em relação à máquina, mas também aborda novas idéias, mais específicas de nossa geração millenial, como nossa obsessão em armazenar informação e a dependência do digital.

Roger Deakins é o dono do visual contemporâneo na fotografia Hollywoodiana e fotografa esse filme com sua competência habitual. No entanto, ele não consegue realmente capturar a visceralidade suja e multicultural do primeiro, sua capacidade de criar um mundo que parece orgânico e em constante fluxo. 2049 frequentemente parece estéril e sanitizado, às vezes intencionalmente, às vezes nem tanto. Mesmo com 30 anos de dianteira, o primeiro filme continua sendo o mais visualmente impressionante e hipnótico. Da mesma forma que a trilha sonora tenta emular a original de Vangelis, mas sem realmente capturar a sua qualidade onírica e transportadora.

Ele termina com a conclusão do arco do protagonista, mas muitos de seus elementos periféricos acabam não-resolvidos. Justo, o primeiro filme também não terminava com respostas prontas, mas o sentimento ao fim das suas 2 horas e 46 minutos foi mais frustrante do que instigante, embora isso talvez mude com o tempo.

Pessoalmente, eu acredito que absorvi o grosso do filme adequadamente, e gostei do resultado final, especialmente considerando o quão desastroso o filme poderia ter sido em mãos menos capazes, mas não tenho certeza se concordo com o frisson que o filme está recebendo da crítica internacional. Ainda quero reassisti-lo para ter uma opinião mais concreta e saber se, assim como o original, ele melhora a cada sessão ou se vai acabar se provando um tanto superestimado.



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