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Isso é a vida real? Isso é apenas fantasia?”, pergunta a letra de abertura de Bohemian Rhapsody, música do Queen que dá nome ao filme biográfico que chegou esta semana aos cinemas. E o filme, como a maioria das cinebiografias, tem um pouco dos dois. Contando com dois membros remanescentes da banda como produtores executivos, Brian May e Roger Taylor, os cineastas tiverem acesso completo às músicas do Queen e às memórias da banda. No entanto, nesse tipo de cooperação sempre existe o perigo de suavização e romantização da história, e o roteiro de Anthony McCarten seguramente faz um pouco disso.

O filme narra o período de 15 anos entre a formação da banda e seu show mais famoso no Live Aid no Wembley Stadium em 1985, tratando da vida amorosa de Freddie Mercury, o funcionamento interno da banda e a criação de seus maiores sucessos. E foi uma longa jornada até que esse filme finalmente chegasse aos cinemas. Mais precisamente desde 2010, quando o ator Sacha Baron Cohen foi vinculado ao papel de Freddie Mercury, desligando-se do projeto após anos de desenvolvimento, supostamente por querer criar um filme focando em todos os abusos e excentricidades de Freddie, enquanto os membros remanescentes do Queen desejavam algo mais light e com destaque também na banda. O foco no humor (especialidade de Baron Cohen) também seria um agravante para sua saída.

O próprio filme que vimos chegar aos cinemas não escapou de problemas, já que o diretor Bryan Singer foi demitido antes de sua conclusão por atrasos e comportamento inapropriado, sendo substituído por Dexter Fletcher (Voando Alto). E apesar dessa mudança não transparecer no tom do filme e nem prejudicar sua estrutura, o que vemos é um produto que claramente foi suavizado e que possui várias licenças poéticas – algo que já era esperado desde o afastamento de Sasha Baron Cohen.

Mas se engana quem pensa que os exageros e a vida sexual de Freddie Mercury foram deixados de lado, como muitos temiam. Na verdade, o filme é mais uma biografia do cantor do que do Queen, e toda a trama é contada por meio de sua ótica. No entanto, mesmo essa parte mais bizarra da vida do cantor é suavizada e apresentada de uma forma clichê, com direito até a um açucarado arco de redenção.

Talvez o maior problema seja a forma um tanto quanto simplista com que a vida de um ícone como Freddie é retratada, e o ritmo frenético e apressado com que os primeiros dias do Queen são apresentados, deixando lacunas que fazem com que o espectador casual – aquele que não conhece o histórico da banda – se veja um pouco perdido. Relacionamentos importantes acabam não tendo a profundidade necessária, personagens vem e vão sem um mínimo desenvolvimento e não demora para a trama seguir um caminho formulaico e fácil.

Mas o filme tem muita sorte em contar com dois elementos cruciais para torná-lo uma excelente e emocionante peça de entretenimento: as incríveis e atemporais músicas do Queen, e a atuação magnífica de Rami Malek (Mr. Robot). Mesmo com uma estranha prótese dentária que em diversos momentos parecia incomodá-lo, o ator brilhou com sua atuação de Freddie Mercury, demonstrando um minucioso estudo das características do ator, que foram de seu modo de falar, passando pela postura, e o mais importante de tudo… a forma como se movimentava (e dominava) nos palcos.

Uma decisão narrativa, até mesmo ousada, mas que talvez incomode alguns, foi o encerramento do filme com uma reprodução extremamente fiel do emblemático show no Wembley Stadium quase que inteiramente na íntegra. Em seus minutos finais, o longa parece conversar com o público de uma forma mais visceral e íntima: transformando-se em um show. E sinceramente, dá vontade de aplaudir.

Talvez Bohemian Rhapsody não seja o filme que os fãs do Queen e de Freddie Mercury esperaram por tantos anos. Infelizmente ele só arranha a superfície do furacão que foi Freddie. Imposição dos membros da banda? Decisão do estúdio para criar um produto com classificação 13 anos? Não sei, acredito que um pouco de cada. É inegável que o filme poderia ser muito mais, e isso pode ser decepcionante para alguns. No entanto, passar pelo desenvolvimento da banda ao longo dos anos e ver como diversas músicas lendárias como Bohemian Rhapsody, We Will Rock You e Another One Bites The Dust foram compostas, certamente é uma ótima experiência. Talvez mais musical do que cinematográfica.



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