Comentários

Existia uma grande expectativa em torno de Capitã Marvel. Principalmente por ser o primeiro filme da Marvel Studios, em um histórico de 21 filmes e 10 anos, a ser protagonizado por uma mulher. E mais do que isso, estrelando uma personagem que só começou a ser devidamente explorada nos quadrinhos em 2012, e que surge com uma ingrata missão: bater de frente com o todo-poderoso Thanos em Vingadores: Ultimato, filme que promete ser o clímax do Universo Cinematográfico Marvel.

Portanto, com os holofotes em cima da Capitã Marvel e com uma grande responsabilidade de não errar, era óbvio que a Marvel iria jogar na zona de conforto. Sem espaço para experimentação como em Thor: Ragnarok. Sem espaço para tons políticos e sociais como em Pantera Negra. Simplesmente um divertido blockbuster de super-heróis com o que o estúdio consegue produzir de melhor com a já tão conhecida “Fórmula Marvel”.

Mas isso é ruim ou bom? Digamos que vai depender muito do ponto de vista de cada um e do que procuram em uma sala de cinema – especificamente com filmes do gênero. De uma maneira técnica, o filme é muito bem feito. O roteiro abre mão da linearidade para passar para o espectador a mesma sensação de lacunas na memória da protagonista, a trama é bem construída, os relacionamentos dos personagens são críveis e os atos são bem definidos. Mas quem esperava algo mais, seja algo inovador ou um ponto de vista mais explicitamente feminista, pode se decepcionar.

Não que o filme não flerte com temas de empoderamento, muito pelo contrário. Porém, os diretores Anna Boden e Ryan Fleck fazem isso de forma sutil, quase tímida (o que pode decepcionar algumas mulheres). O filme traz Carol Danvers (Brie Larson) como uma mulher forte e que sempre foi decidida a não deixar que ninguém diga o que ela pode ou deve fazer. Então, de uma forma inteligente, o filme traz uma lição universal de superação e de acreditar em seu potencial, que automaticamente empodera a sua personagem feminina… por ela ser uma mulher.

Uma forma confortável da Marvel de lidar com o viés feminista da personagem (algo que remonta de suas origens nos quadrinhos), mas que pode decepcionar alguns espectadores pela falta de coragem do estúdio em usar de uma abordagem mais clara. Porém, é inegável que o filme procura ser inspirador para qualquer mulher, e mesmo com a Marvel jogando de forma segura, tem material suficiente para que todas se sintam representadas.

(Obviamente, essa é uma visão superficial de um homem, com base na reação das mulheres presentes na sessão e na empolgação de minha própria esposa. )

Brie Larson está confortável no papel e entrega uma personagem interessante. Sua Carol Danvers é durona e às vezes até um pouco arrogante na confiança em suas habilidades, mas é altruísta e possui carisma suficiente para carregar o filme. A química da atriz com Samuel L. Jackson gera excelentes cenas com Nick Fury, e é interessante vê-lo aqui como um personagem completamente diferente do superespião misterioso que estamos acostumados.

A Guerra Kree/Skrull, pano de fundo do filme, é apenas superficialmente arranhada, mas introduz elementos suficientes para ser reintroduzida no futuro. Dentro dessa construção, usa de alguns plot twists, uns interessantes e outros extremamente previsíveis, que acabam levando a um terceiro ato cansativo. Principalmente pela direção confusa de Boden e Fleck em cenas de ação. Existem pelo menos duas, uma no primeiro ato e outra no último, que exigem uma atenção e esforço homéricos do espectador, que mesmo assim vai se sentir meio tonto e com a sensação de que está perdendo algo. Isso é um problema, pois tira o público momentaneamente de uma sequência que exigiria total imersão.

De uma forma geral, Capitã Marvel padece do mesmo problema de Homem-Formiga e a Vespa: preparar o palco para o evento que realmente importa – com a diferença de que esse filme tem muito mais a acrescentar ao Universo Marvel como um todo, obviamente.  A Marvel Studios conseguiu o que mais queria, que era apresentar a Capitã Marvel devidamente a um público que precisa se preocupar o suficiente com ela para a importância de seu papel em Vingadores: Ultimato. E fizeram isso bem. O estúdio chegou a um patamar onde isso é o suficiente, e o que vier além pode ser considerado lucro.



Comentários