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O conceito black ops caótico de Comando das Criaturas não é uma novidade para os fãs de James Gunn. No entanto, algo que ninguém imaginava era que o primeiro lançamento do DCU poderia ser, de forma estranhamente divertida, uma das obras de temática mais sombria da DC em muito tempo.

Trocando o horror característico dos clássicos sobre monstros por uma mistura entre a violência estilizada de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, e o pessimismo cômico dos Irmãos Coen, a série é repleta de sarcasmo e personagens miseravelmente egoístas, que sob um contexto nada maniqueísta se tornam personalidades complexas. Essa abordagem remete a alguns elementos de obras como Três Homens em Conflito (1966), Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), Um Drink no Inferno (1996) e Os Doze Condenados (1967).

Reprodução/DC Studios

A trama é simples, mas não dá para falar muito sobre ela sem entregar algumas surpresas guardadas por grandes reviravoltas. Basicamente, tudo começa quando a soberania de Pokolistan está ameaçada por Circe e seu grupo terrorista, chamado Filhos de Themiscyra. Como o país é um importante aliado e fornecedor de recursos naturais para os EUA, o governo norte-americano autoriza Amanda Waller (Viola Davis) montar uma equipe de monstros para proteger a vida da herdeira do trono, a princesa Ilana Rostovic (Maria Bakalova).

Themiscyra é uma descoberta relativamente recente no DCU, e James Gunn já começa seus comentários sarcásticos nos primeiros minutos, quando chama o grupo de terroristas de “palhaços perigosos“, após botar um deles para dizer, armado até os dentes, que “as feministas woke” da ilha da Mulher-Maravilha são “sexistas” por acharem que podem ter uma ilha fechada só para elas. Na trama, esses caras realmente acreditam estar em uma cruzada pelo que eles acham que é liberdade. Eles dizem lutar para ‘libertar’ Themiscyra do feminismo.

Bem, Themiscyra é apenas uma das citações no meio de várias referências e easter eggs que não apenas deixam claro para o público que esse é o começo do DCU, como gritam isso. Vale elogiar que, nenhuma delas é gratuita. Por mais curtas que sejam, servem como importantes elementos narrativos para fazer a trama andar.

Quanto ao contexto político, a semiótica é eficiente em trazer Comando das Criaturas para o cenário atual, e James Gunn demonstra não ter medo de se manifestar contra essa crescente onda conservadora que está polarizando o mundo. No entanto, esse assunto tem menos peso nos diálogos do que nas imagens, pois ao lidar com personagens controversos, o criador da série evita o tom moralista. Não espere por ninguém querendo ensinar algum valor em tela, pois a produção é praticamente imune ao sentimentalismo.

Só para que você tenha ideia do quão fundo Gunn se dispôs a trazer elementos pesados para a série, a trama passa por assuntos como eutanásia infantil, neonazismo, abuso íntimo, stalking, transtorno de estresse pós-traumático e manipulação psicológica.

Reprodução/DC Studios

Diferente de O Esquadrão Suicida (2021) e Pacificador — que embora haja negação, são, sim, bastante canônicos no DCU —, a série animada não oferece redenção ou qualquer propósito glorioso para seus protagonistas. Não há recompensa por ser bonzinho e nem senso de justiça. As coisas simplesmente acontecem num trágico ciclo de causa e efeito alimentado por decisões equivocadas de tom individualista.

Isso, no entanto, não quer dizer que Comando das Criaturas seja uma série incapaz de gerar emoção. Há um coração muito forte na conexão do grupo, e em alguns momentos o roteiro de James Gunn até apela demais nesse sentido. O pessimismo cômico da história, entretanto, é capaz de despedaçar quem se conectar com a faceta emocional da trama.

Outra grande diferença em relação a O Esquadrão Suicida (2021), é que agora os personagens principais conseguem ter mais espaço para desenvolvimento. Usando o formato de Lost como referência, todos os episódios voltam ao passado para nos contar como A Noiva (Indira Varma), Doninha (Sean Gunn), Nina Mazursky (Zoë Chao), Dr. Phosphorus (Alan Tudyk), Eric Frankenstein (David Harbour) e G.I. Robot (Sean Gunn) chegaram até ali.

Reprodução/DC Studios

Quem não tem seu passado explorado é apenas Rick Flag Sr. (Frank Grillo), que já é alguém bastante desenvolvido no presente. Tudo o que sabemos sobre ele é o que é dito em tela: seu filho morreu em missão em Corto Maltese e ele tem um passado militar.

De todos, sem dúvida, o que tem a participação menos impactante é Frankenstein. Incorporando a natureza sociopata do personagem, tirada diretamente do romance de Mary Shelley, David Harbour manda bem no papel e ainda protagoniza momentos realmente divertidos. No entanto, o monstro acaba funcionando mais como uma escada para Rick Flag e a personagem mais substancial da série, A Noiva, da incrível Indira Varma, que tem tudo para conquistar uma legião de fãs.

O grande destaque do elenco, por sua vez, é Sean Gunn. Além dos flashbacks dos personagens dele serem muito interessantes, o irmão de James Gunn tem uma grande amplitude no trabalho de voz, e mesmo atuando em meia dúzia de papéis na série, consegue entregar elementos únicos e marcantes para cada um deles.

Embora sirva para dar mais espaço aos protagonistas, a forma como os episódios são divididos pode dificultar o engajamento do público no começo da exibição. O ritmo acelerado demais nos três primeiros capítulos e a sensação de déjà vu podem decepcionar. No entanto, há uma grande virada de chave que justifica essa escolha. A questão é: os assinantes da Max só vão perceber isso semanas depois da estreia, por causa da exibição semanal. Realmente acredito que Comando das Criaturas parece ser mais adequada para um formato de maratona

Reprodução/DC Studios

Tecnicamente esta é uma produção bela e equilibrada. A série tem muitas cenas de ação carregadas de pequenos elementos e o estúdio Bobbypills entrega o trabalho com louvor. Há bastante sex appeal e brutalidade. A animação é um verdadeiro espetáculo de cores e decupagem, e a trilha sonora, como sempre, é incrível. Isso tanto a original quanto a playlist pop.

Há várias sequências que não saem da cabeça, mas há uma em específico, envolvendo uma literal chuva de balas de G.I. Robot contra um bando de red pills, que merece destaque por explorar todo o potencial da plataforma de animação. É estranhamente poético ver todas aquelas cabeças explodindo ao som de “Coin Operated Boy”, de The Dresden Dolls, enquanto um sorridente robô assassino de nazistas faz as pazes com sua natureza e reencontra seu propósito.

Quanto ao trabalho original, som e imagem criam um clima fantasmagórico mítico capaz de saciar os fãs de Castlevania. Comparada a um álbum musical, a série me lembra bastante o tom de um trabalho de Lobão, chamado Lino, Sexy & Brutal.

Reprodução/DC Studios

Comando das Criaturas conta uma história sobre como verdadeiros monstros podem se esconder pela imagem que constroem de si, e encontra muita força no desenvolvimento de seus personagens. Embora seja narrativamente sombria e pessimista, a série é um espetáculo repleto de cores, envolvente e bonito aos olhos, que impressiona pelo seu nível frenético de ação. Saber que logo em seguida James Gunn vai lançar Superman (2025), obra cuja proposta de tom é completamente oposta, faz com que o começo do DCU deixe a melhor mensagem possível para seus fãs: suas histórias serão abrangentes e terão personalidade. Ao menos por ora, esse novo universo compartilhado dificilmente fará de seus filmes e séries produtos pasteurizados, planejados somente para fins comerciais.

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A série animada vai estrear na Max na próxima quinta-feira, 5 de dezembro. Os dois primeiros episódios serão lançados de uma só vez, depois disso a exibição seguirá de forma semanal até o dia 9 de janeiro.

Nota 8