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E agora, pausa para uma frase que eu nunca achei que fosse escrever:

Pobre Coringa!

De acordo com seu filme solo, antes de ser o Príncipe Palhaço do Crime, ele era Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço à serviço de uma agência na Gotham City dos anos 80, com severa depressão, tendências psicóticas e uma desordem que faz com que ele ria descontroladamente quando nervoso. A eterna vítima da sociedade, Fleck é chutado, humilhado ou ignorado por todo lugar que passa. Sua relação com sua mãe (Frances Conroy) com quem ele vive, sua vizinha por quem ele é intrigado (Zazie Beets), sua obsessão com um apresentador de talk show (Robert De Niro), a candidatura do bilionário Thomas Wayne (Brett Cullen) e o estado de desamparo de Gotham são todas peças que aos poucos vão formar o quebra-cabeça de como nosso anti-herói entrou em sua espiral assassina que fez dele o mais famoso dos vilões do Batman.

O filme introduz a nova linha de filmes DC Black, o contra-ataque da DC ao sucesso monstruoso do MCU e maior que o seu respectivo DCEU. Para todos os que anseiam por filmes de super-heróis que se desprendem de fórmulas estabelecidas e universos compartilhados intrincados, a DC Black deve produzir filmes de médio orçamento independentes de continuidade, abrindo espaço para projetos isolados mais autorais e voltados para maiores. A ideia tem tremendo potencial, o qual uma prévia disso já pode ser vislumbrado, mesmo que não plenamente atingido.

O filme é completamente ancorado por Phoenix, que traz uma dedicada performance, capturando toda a corporalidade estranha e cerne angustiado, do jeito em que seu físico esquelético se contorce sem camisa, à dor física e psicológica que suas risadas compulsivas claramente lhe causam. Para alguns, pode ser estigmatizada como uma atuação excessivamente “oscarizável”, mas o puro prazer de assisti-lo atuar é o que mais carrega o filme inteiro.

Coringa

A direção de Todd Phillips é estilosa, valorizando o belo design de produção sujo e opressivo da Gotham (Nova York) oitentista, e conduz a trama com fluidez e dinamismo, mesmo sem poder depender de sequências de ação, como geralmente é comum em filmes do gênero. Ele também apresentauma história original, independente das HQs, por mais que hajam claras inspirações em clássicos como A Piada Mortal, de Alan Moore, e O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Mas a maior referência com certeza são os filmes da Nova Hollywood dos anos 70 e 80 como Operação França, Perdidos na Noite e especialmente, como foi muito divulgado, Taxi Driver e O Rei da Comédia, de Martin Scorsese. É tudo o necessário para conquistar a devoção do jovem estudante de cinema e possivelmente membros da Academia.

E, no entanto…

Uma vez passada a impressão inicial, resta um inegável vazio no filme, que se mostra aquém de suas referências e sua autopromoção. Trata-se na verdade de um grande experimento em estética: “Podemos fazer um filme baseado em super-heróis de quadrinhos e orná-lo com signos associados com filmes entendidos como prestigiosos e dignos de prêmios ao ponto de podermos vendê-lo como uma obra-prima subversiva?”

E dada a recepção positiva e positivamente controversa inicial, a resposta parece ser sim. Resta ver se o hype consegue durar até Fevereiro. Por mais que a Academia demonstre resistência, parece inevitável que eventualmente algum filme de super-herói seja premiado com o Oscar, especialmente depois que Pantera Negra abriu a porteira ao ser indicado. Mas pessoalmente, eu acharia uma pena se o filme que finalmente conquistasse o prêmio, só conseguisse isso se emancipando de tudo o que torna o gênero único.

Quando superada a curiosidade de um filme de super-heróis completamente diferente de um Vingadores, fica claro que o que temos não deixa de ser derivativo:

Histórias no qual o protagonista homem branco mediano e amargurado vai tendo um colapso violento diante do contato com a sociedade já são o seu próprio subgênero muito popular, com obras como Desejo de Matar, Dia de Fúria, Clube da Luta, O Abutre, Breaking Bad, entre tantos outros que surgiram ao longo das décadas. O que não quer dizer que muitas dessas obras não sejam boas ou até excelentes, ou que novos filmes nessa linha não possam funcionar, mas vale questionar: além do detalhe que o personagem-título também é famoso por tentar matar o Batman com tortas explosivas, isso torna ele realmente digno de tanta atenção, positiva ou negativa? Ainda mais quando ela se converte (intencionalmente) em publicidade para o filme?

Coringa

Da mesma forma que o Coringa dos anos 80 se tornou um assassino psicótico carismático e o de 2008 se tornou super Osama Bin-Laden secular, não é a toa que o Coringa de 2019 tem sido tão comparado com os incels. Só é uma pena que o filme passa muito mais tempo buscando a simpatia e empoderamento deles ao invés de sua condenação. Ele encapsula muito bem o senso de alienação e autointitulação que faz parte da filosofia desses homens tristes e misóginos, dos quais a maioria não passa de trolls online, mas alguns de fato iniciaram ações violentas.

Dessa forma, é difícil negar as acusações que o filme romantiza o Coringa (e por consequência, os homens violentos que ele representa), quando ele constantemente tenta fazer dele digno de sua simpatia e ainda termina por glorificá-lo, com toda a mise-en-scene cheia de pompa representando seus crimes como atos de libertação e autodescoberta, com muito pouco ou nada para indicar ironia, culminando na aceitação do protagonista como um “profeta do caos”. Se até em 2008 “quando você pensa bem, você percebe o Coringa é quem tem razão” já era um clássico das opiniões juvenis ruins, aqueles que nunca cresceram além dessa fase estão ganhando a munição perfeita de presente na forma desse filme. E essa é uma crítica que não pode ser aplicada à análises cuidadosas de suas referências:

Scorsese nunca fingiu que Travis Bickle ou Rupert Pupkin eram mais do que sociopatas egocêntricos. Ele também não teve medo de mostrar o narcisismo autointitulado de Pupkin, ou mais importante ainda, o racismo, homofobia e misoginia de Bickle, e como essas noções tóxicas colaboram para sua visão da cidade como “lixo degenerado que precisa ser lavado pela chuva”. Essas eram as características que tornavam esses personagens perigosos e repulsivos, não que eles eram vítimas da sociedade, mas Todd Phillips não parece ter essa coragem ou autoconsciência.

E aí está sua falha fatal, não é nem que o filme seja socialmente irresponsável. Por mais que essa seja uma discussão disso seja válida e relevante, não impede que um filme ainda seja bom. O maior problema é que enquanto estudo de personagem, ele é simplesmente fraco. Resta apenas a estética.

Questões tópicas para o atual cenário político são invocadas, como desigualdade de renda, saúde mental e o desamparo de serviços sociais, mas estas parecem selecionadas como forma de fazer o filme parecer mais relevante, e desviar a atenção do seu viés problemático. Quando inseridos dentro da narrativa, esses tópicos só produzem mensagens no mínimo infelizes, como “o Coringa é o herói do povo” ou “pessoas que protestam a desigualdade são psicopatas como o Coringa” (me lembra da apropriação bizarra que Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge fez de imagens e discursos remetendo ao movimento de Occupy Wall Street e as associou ao Bane e os planos genocidas malignos da Liga das Sombras) ou então o clássico “psicopatas homicidas são causados por conta de doenças mentais e sobreviventes de abuso”, uma ideia que já é tão batida quanto problemática desde os tempos do Norman Bates.

Coringa

Por fim, quando o filme atinge seu clímax, ele decide se isentar da necessidade um posicionamento político coerente abraçando explicitamente o niilismo popular nas versões modernas do Coringa, o que apenas revela o quão pouco o filme realmente tem a dizer. É frustrante o quanto os memes de “vivemos em uma sociedade” estavam certos.

Se a proposta era usar um personagem popular da DC Comics para explorar a temática de atiradores públicos e terrorismo branco, Brightburn – Filho das Trevas, por mais imperfeito e aquém de seu potencial que seja, chegou mais perto.

Mas de certa forma, é possível que o projeto já estivesse condenado por sua própria premissa. Por mais popular que o personagem seja, o Coringa fez sua fama como coadjuvante por um bom motivo:

Ele é o antagonista perfeito para o Batman, uma encarnação extremamente carismática e unidimensional do puro mal encarnado que serve como escada para o desenvolvimento do Cavaleiro das Trevas e outros personagens. Ao ir contra essa unidimensionalidade e transformá-lo em um anti-herói trágico é que o personagem acaba reduzido ao lugar-comum.

A trama do filme poderia muito bem ser uma das histórias de origem trágicas e mentirosas que o Coringa de Heath Ledger conta para os seus alvos em Batman – O Cavaleiro das Trevas, desde então já caçoando da narrativa de “sou uma pobre vítima e a sociedade fez de mim o Coringa”. Ou melhor ainda, um de seus “passados de múltipla escolha” que o palhaço desesperadamente quer que você acredite em A Piada Mortal para se sentir validado. Mas aqui não tem alguém como o Batman para se opor a ele e mostrar o quanto essas não passam de divagações vazias e patéticas para justificar a própria violência. O que resta é um filme que acredita sinceramente que “basta apenas um dia ruim para se tornar alguém tão ruim quanto o Coringa” como um ethos não-irônico e jamais desconstruído, como no caso de clássico de Alan Moore.

A verdadeira tragédia é que não é Moore, Miller, Nolan e nem mesmo Scorsese que melhor define o filme, mas uma versão do Batman muito diferente das influências que Phillips quer desesperadamente ser associado:

“Esse documento não prova nada, só prova que o Coringa é um filho da p*ta!”

Positivo
  • ► Performance dedicada, desconfortável e visceral de Joaquin Phoenix
  • ► Um exercício dramático e estiloso de direção e mise-en-scene que dão ao filme um ar de importância e sofisticação
Negativo
  • ► O filme não é tão importante ou sofisticado quanto ele quer que você pense.
  • ► Esse Coringa é um estudo de personagem datado que não vai além dos estereótipos e reduz o palhaço ao lugar-comum.
  • ► Todas as reclamações sobre o filme ser socialmente irresponsável? Elas tem um bom argumento.
Nota 6010
Crítica | Coringa



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