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creed-finalposterQuando foi anunciado que Sylvester Stallone estava retornando ao universo de Rocky dessa vez em um filme onde treinaria o filho de seu melhor amigo e rival Apollo Creed, eu fui um dos que vibrou. Não apenas pelo fato de ser um grande fã da franquia e poder ver o velho Balboa novamente, mas pelo excelente plot que me conquistou desde o começo. Porque afinal acho que até o próprio Stallone em algum momento percebeu que não dá mais pra ficar lutando por aí. Foi legal em Rocky Balboa (2006) onde o roteiro ajudou e conseguiu encaixar alguma plausividade, mas hoje em dia acho que ficaria forçado demais. 

Assim, temos dessa vez Rocky no papel de treinador, mas com uma história realmente boa, e não como o que vimos em Rocky V (1990), um filme considerado esquecível para uma grande parcela dos fãs do lutador. Dirigido por Ryan Coogler, Creed: Nascido para lutar segue um pouco da nova tendência vista em Star Wars: O Despertar da Força, que é fazer uma continuação sem que ela precise sobreviver completamente da sombra dos filmes anteriores. Usam-se dezenas de referências que deixam bem claro que é uma continuação (agradando fãs e nostálgicos) enquanto contam sua histórias com ares de reboot, mesmo sem admitir totalmente que se trata de um reboot. Porque no fim do dia, analisando friamente, a história de Adonis Creed (Michael B. Jordan) segue como praticamente uma releitura da de Balboa em Rocky, um lutador (1976), com um jovem promissor sendo de repente desafiado pelo campeão mundial que busca uma luta fácil e aparentemente com vitória garantida.

Sem dúvida a palavra de ordem do filme é “legado”. Adonis é um filho que Apollo teve fora do casamento, e que após a morte prematura de sua mãe, passou a viver em abrigos sociais e reformatórios, sempre se metendo em brigas e confusões. Adotado pela esposa de Apollo, Mary Anne, o jovem Adonis cresce em um ambiente familiar cercado por lembranças de seu pai e alheio às tentativas de sua mãe de mantê-lo longe das lutas. O problema é que o boxe parece estar no sangue do rapaz, que chega a largar um bom emprego para correr atrás de seus sonhos. No entanto, apesar de ser o único filho (ainda que ilegítimo) de uma lenda do boxe, Adonis decide não usar o nome do pai, disposto a fazer o seu nome no boxe por si só, utilizando seu sobrenome por parte de mãe, Johnson. Aqui já temos a primeira grande sacada do filme, pois apesar de querer construir o seu próprio legado, Adonis usa o nome e influência do pai para ir para a Filadélfia e conseguir ser treinado por nada menos que o maior rival (e melhor amigo) de seu pai. Sim, estou falando de Rocky Balboa, obviamente.


Aqui percebemos facilmente com pouco tempo de filme porque Sylvester Stallone venceu a premiação de melhor ator coadjuvante no Globo de Ouro e porque existe grande possibilidade que leve o mesmo prêmio no Oscar 2016. Seu Rocky possui a mesma leveza apresentada em 1976, acrescentada do ar de sabedoria do idoso que vimos em Rocky Balboa, o sexto filme da franquia. Inicialmente recusando-se a treinar o rapaz, Rocky acaba aos poucos sendo conquistado pela insistência de Adonis e passa a ensiná-lo, criando-se assim um vínculo entre os dois que beira a paternidade. Adonis vê em Rocky o pai que nunca teve, enquanto Rocky vê no garoto a possibilidade de treinar um filho, algo que nunca foi possível com o seu próprio, já que sempre foi desinteressado de boxe, lutas e todo esse universo. Mas engana-se quem pensa que o filme é só treinamento e lutas, ou até mesmo uma repetição do clássico de 76. Creed possui altas doses de drama – principalmente no relacionamento entre Rocky e Donnie – e apesar de algumas similaridades narrativas, o filme possui alma e identidade próprias, trazendo um novo herói para uma nova geração.

O nêmesis de Adonis no filme vem sob a forma do lutador Ricky Conlan (Anthony Bellew), um campeão mundial que tem dificuldades em conseguir novas lutas devido a problemas com a justiça e seu difícil temperamento. Após seu empresário saber que Apollo Creed deixou um filho e que o mesmo está sendo treinado por Rocky Balboa em pessoa, uma luta entre os dois é planejada, sob a condição de Adonis usar o sobrenome Creed. Apesar de esse plot de certa forma lembrar a situação de Rocky e Apollo no primeiro filme da franquia, as similaridades felizmente param nas referências. Ricky Conlan está longe do carisma de Apollo, e seu personagem apenas causa empatia no público, que vibra a cada golpe desferido por Adonis na luta final. 

Ao final do filme, ficamos não apenas com a impressão clara de que teremos uma continuação, mas sim de que precisamos de uma continuação. O Adonis Creed de Michael B. Jordan demonstra todo o potencial para carregar uma nova franquia, e ser para uma nova geração o que o personagem Rocky foi na anterior. Apesar de beber muito da influência de seu antecessor, o filme caminha com as próprias pernas e cria background suficiente para que o personagem possa avançar sem que futuramente nem mesmo precise da presença de Sylvester Stallone para vender o longa. Uma ideia que inclusive é plantada no filme, restando apenas saber até onde a levarão. O bastão claramente foi passado, e acho que agora todos querem saber até onde Adonis Creed chegará.

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.