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Chicago, década de 30. Uma época sombria para a América do Norte. Uma mulher sem voz é forçada a abdicar da própria identidade para sobreviver. Mas, em algum lugar do solitário inferno criativo, Mary Shelley não aceita isso. A autora toma posse da carcaça vazia e reseta tudo. O destino agora está nas mãos do caos da criação. Assim nasce o novo filme de Maggie Gyllenhaal. Um terror? Um drama? Um musical? Para todos os efeitos, apenas A Noiva! (2026).

Com uma postura teatral arrojada, vocabulário erudito e uma confusão dinâmica psicodélica, é constituída uma denúncia contra a farsa do controle autoral. Uma vez que os personagens ganham vida, manifestam-se por conta própria no imaginário e, se tudo der certo, tornam-se maiores que o criador, que a vida e que a morte. Mary Shelley faleceu em 1851 e, até hoje, o mundo ainda escreve coisas novas sobre Frankenstein.

Crítica de A Noiva!
Reprodução/Warner Bros. Pictures

O trabalho multifacetado da efervescente Jessie Buckley causa um impacto imediato. Na carcaça da Noiva, ela transparece uma confusão que espelha a do próprio público: quem é ela? O que é tudo isso? O monstro, também interpretado com potência por Christian Bale, é uma ameaça ou um aliado? A jornada consiste em testemunhar a atriz descobrindo a própria personagem através dos impulsos criativos de Shelley.

O jogo de focos, a textura da imagem e a montagem dilatam ainda mais a confusão projetada. Aqui, o cinema em si é um elemento narrativo vital. Os protagonistas entram e saem da tela como se a porteira entre o real e o fictício estivesse escancarada. Seria esta uma confusão boa? A metalinguagem, afinal, é o grande trunfo?

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Não existe certo ou errado na forma de enxergar o cinema e as suas possibilidades — tampouco em como lidar com a suspensão da descrença. É como um cabo de guerra: os cineastas ficam em uma ponta e o público na outra. Para que a jornada seja proveitosa, ambos os lados têm que se esforçar para manter o equilíbrio; ninguém pode puxar de mais ou de menos. Por muitos momentos, Maggie Gyllenhaal puxa demais.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Ironicamente, o exagero é fiel à proposta. A diretora se rende aos próprios impulsos criativos e permite que o filme se descubra sozinho. Talvez por pressão do estúdio em busca de uma coesão lógica, surge um recurso de narração que apenas torna a viagem mais careta. Nenhum bom filme deveria ser obrigado a explicar verbalmente o que a imagem já grita.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Enfim, A Noiva! não é uma obra-legado, mas um filme sobre legado. É uma subversão da própria criação, vista aqui como uma manifestação de rebeldia e libertação. Maggie Gyllenhaal se permite ao erro; você pode até abandonar a viagem por achar que ela foi longe demais, mas jamais poderá negar que a condução do projeto partiu de um grandioso ato de coragem.

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Nota 6