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Bem no fundo, em alguma nuvem sombria do pensamento, existe um lar para as nossas memórias mais sombrias. Aquelas de que fugimos. Um espaço onde versões de nós existem e não existem ao mesmo tempo, como reflexos distorcidos em um espelho partido em mil pedaços. Apenas fragmentos do que fomos um dia. Um Não-Lugar. Isso é Backrooms.

No filme de Kane Parsons, esse limbo psicológico ganha rostos tangíveis. Clark (Chiwetel Ejiofor) é o proprietário de uma loja de móveis obsoletos. Seu verdadeiro sonho era construir uma carreira como arquiteto, mas ele o sacrificou em nome da estabilidade financeira. Mary (Renate Reinsve) é a terapeuta de Clark. Embora ela insista que o indivíduo é o único capaz de enfrentar os demônios que o perseguem, ela própria não conseguiu superar os dramas do seu passado sozinha. Certo dia, Clark encontra uma passagem impossível no porão de sua loja, e essa descoberta muda tudo para ele e para Mary, forçando ambos a confrontar fisicamente aquilo de que tentavam fugir figurativamente.

Crítica de Backrooms: Um Não-Lugar
Reprodução/A24

Há algo entre o irritante e o atraente na abordagem descompromissada de Parsons ao fazer um filme fragmentado para falar sobre isolamento e fragmentos da memória. Seria isso um tipo singular de metalinguagem? Fato é que Backrooms gasta seu tempo sem explicar direito o que é aquele lugar, quem são aquelas pessoas e o que elas querem. Você precisa perceber sensorialmente que tem a ver com pressão social e estagnação. O filme funciona como um porta-bandeira do que seria a versão Indie Pop da música dos anos 2010 transposta para o cinema: uma nostalgia estética construída por conceitos abstratos, que se unem no sentimento homogêneo de um desejo de fuga.

Dentre as competências da composição cinematográfica, saber lidar com o espaço é uma das mais exigentes. Parsons lida com o vazio quase o tempo todo aqui, e se demonstra arrojado ao não se intimidar por ele. O jovem diretor brinca com as possibilidades do nada. Ele constrói tensão através do que está oculto nos pontos cegos e causa paranoia por meio de jogadas com a profundidade de campo, lentes mais abertas e câmera lenta. Nas sequências do Backrooms, a câmera é a verdadeira protagonista, o que agrega valor à tentativa de emular a experiência de um jogo em primeira pessoa.

Crítica de Backrooms: Um Não-Lugar
Reprodução/A24

Fica a questão: Backrooms: Um Não-Lugar (2026) se basta pelo abstrato? Não sei dizer exatamente, mas para uma geração que valoriza a experiência acima do acúmulo, é fácil perceber o porquê de tanto sucesso. Embora a carcaça sugira o contrário, é um filme fácil de assistir. Ele traduz o pesadelo de correr, correr e não sair do lugar como um verdadeiro um herdeiro da falsa subjetividade do cinema de Nolan. Conceitualmente, trata-se de uma atualização do labirinto de Kafka para uma sociedade adoecida pelo autoisolamento, que lida com o choque geracional a partir dos mais maduros, personagens que representam o fracasso da prosperidade prometida na virada do milênio. Em resumo: um produto interessante de seu tempo, com potencial para se tornar um registro dele.

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Nota 7


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