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Corre 1980 e um cabeludo paraibano fala sobre eternas ondas como o ciclo de destruição e renovação da humanidade. Corre 2014 e um cabeludo texano diz que o tempo é um círculo plano — outra forma de falar sobre as mesmas ondas. Agora, em 2026, Batman: Cruzado Encapuzado recorre a W. B. Yeats para alegorizar seu retorno a uma 2ª temporada, dando também as mãos a Nietzsche e ao seu conceito de eterno retorno. Se a irregular 1ª temporada funcionou mais como uma história sobre Gotham do que sobre o próprio Batman, agora a série do Prime Video encontra tom e proposta definitivos, dizendo algo realmente instigante sobre a essência filosófica obstinada do Homem-Morcego e o motivo de ela ser atemporal.
Passou-se um tempo desde a queda de Harvey Dent, e Gotham continua tendo de lidar com o crime organizado. Há, entretanto, um teste em curso. Alguém está tirando peças desse tabuleiro corrupto só para ver os espaços sendo ocupados rápido — e por peças piores. Existe uma figura misteriosa querendo provar o ponto de que não há como salvar Gotham sem resetar aquela civilização do zero. Esta não é a primeira história em que o Coringa surge querendo provar um ponto. O vilão vê o Batman como um igual que precisa ser libertado das próprias contradições para se tornar o verdadeiro transformador que está destinado a ser. Por isso, o foco é levar o herói ao seu limite, forçando-o a quebrar aquilo que o mantém em unidade e o diferencia das aberrações contra as quais ele luta. É uma forma de reconhecer que o Batman é um poder atômico, travado apenas pelos códigos inabaláveis de um homem.

Em qualquer iteração, o Batman é tradicionalmente essa figura contraditória. Ele não mata, mas está sempre rodeado de morte, e indiretamente suas ações colaboram para essas tragédias. Ele diz que trabalha sozinho, mas está sempre contando com a ajuda do seu círculo próximo. Diz que não tem medo — que para ele o sentimento é uma arma a ser usada contra os inimigos —, mas treme perante a possibilidade de estar apenas enxugando gelo em Gotham. Existe um abismo entre o que o Batman fala que é e o que ele realmente é. Se você quiser escrever uma boa história desse personagem, precisa entender isso, pois é o que define a sua obstinação. O herói não é estúpido. Ele tem plena consciência dessas contradições, mas, mesmo assim, continua sua cruzada. Por quê? Foi por ter feito uma promessa aos pais? Não. Isso até colava no início da trajetória, mas ele não passa a vida agindo por mera vingança. Ele faz o que faz porque aquilo é o que ele é. E o fato de viver dizendo a si mesmo que não tem medo tem menos a ver com autoengano e mais com construir a força de vontade necessária para continuar. É sobre inspirar Gotham a ser melhor se tornando um símbolo.
Cruzado Encapuzado compreende o próprio potencial de explorar esse tropo enraizado no contexto histórico e no pessimismo do entreguerras do século passado. O Coringa surge aqui como uma figura inspirada por “The Second Coming“, de William Butler Yeats, poema que captura o profundo sentimento de desorientação, trauma e colapso que tomou conta daquela época. Gotham funciona como um reflexo sombrio desse pessimismo. A série, sem amarras, joga ao máximo com todos os elementos que possui. Talvez embalada pela liberdade niilista de saber-se uma azarona — que dificilmente continuará para uma 3ª temporada —, a obra é genuinamente creepy, mexendo tanto com os temores clássicos da Era de Ouro dos quadrinhos e do cinema quanto com as angústias modernas sobre manipulação, perda de controle e identidade.

Em seu poema modernista, Yeats teoriza que o mundo opera em ciclos de dois mil anos e que a suposta segunda vinda defendida pelos cristãos não trará uma figura messiânica, mas sim uma besta destinada a dominar o próximo ciclo. Ela seria uma criatura monstruosa, fria e desprovida de empatia. Embora essa descrição pareça vestir o Coringa menos risonho como essa fera, é o próprio vilão quem compreende que a verdadeira besta é o Batman, embora ela ainda não esteja pronta para forjar a sua nova ordem mundial. O grande nó dessa trama é que o Homem-Morcego está atingindo a sua maturidade. Ele já não é o eixo central de uma narrativa rígida de crime e castigo. Agora, é uma figura capaz de entender que Gotham é construída sobre tragédias de pessoas que fazem o possível para sobreviver à crueldade da cidade. Cada dia mais empático, ele se torna exatamente o oposto do que o Coringa precisa que ele seja.
O grande trunfo da série é manter-se humana. Embora sua vocação experimental subverta muita coisa da mitologia — principalmente no que se refere aos vilões —, ainda é uma narrativa tremendamente reconhecível porque não oculta a humanidade de Bruce Wayne, mesmo sob a máscara do Batman. Uma vez que fica evidente a presença de um homem por baixo do capuz, torna-se muito mais fácil espelhar essa mesma vulnerabilidade em antagonistas tragicamente complexas como Arlequina e Hera Venenosa, a quem o herói simplesmente escolhe dar uma segunda chance. No fim das contas, o Homem-Morcego permanece atemporal justamente porque nos permite enxergar nele um reflexo de nós mesmos. Super-heróis, antes de tudo, carregam as dores da humanidade, e é vital que as histórias do subgênero jamais se esqueçam disso.

A animação de Batman: Cruzado Encapuzado não é brilhante, mas a segunda temporada já se mostra bem mais fluida que a primeira nesse quesito. O desenho do Coringa como um reflexo sombrio do Homem-Morcego — evidenciado por um cuidadoso trabalho de mise-en-scène que também enquadra os personagens como prisioneiros dessa realidade cruel — é uma sacada perspicaz que agrega um propósito genuinamente interessante à imagem. A equipe sabe usar com esplendor os recursos que lhe são fornecidos.

É preciso reconhecer, entretanto, que, como qualquer experimento, a nova temporada não obtém sucesso em todas as apostas que faz. Alguns movimentos carecem de criatividade. A reinvenção do Charada, por exemplo, beira o sem graça. Não que o personagem apresentado seja de todo ruim — ele até protagoniza momentos divertidos na trama. No entanto, aquele Charada transformado em um gângster genérico não tem nada a ver com a essência do vilão original. É o tipo de mudança que acaba esvaziando a interessante proposta de ressignificar o clássico.

Enfim, Cruzado Encapuzado sai de um primeiro ano irregular para uma 2ª temporada sofisticada e inspiradora. É uma anomalia. Em um cenário onde o subgênero de super-heróis tende cada vez mais ao superficial e ao comercial — no qual grandes estúdios parecem mastigar e mastigar as mensagens para cuspi-las na boca do público —, é surpreendente ver uma série animada de um dos heróis mais populares da cultura pop que exige tanto do telespectador. Para qual demografia ela é feita? A verdade é que essa parece nunca ter sido uma questão para a equipe criativa. O foco foi, acima de tudo, contar uma boa história do Batman. Se algumas pessoas não pegarem de cara a referência a W. B. Yeats, ainda assim se identificarão com a mensagem de que, não importa o contexto histórico, a civilização sempre enfrentará novas crises, e o Homem-Morcego sempre estará lá, inspirando-nos a fazer a nossa parte mesmo quando todos os prognósticos apontam para um desfecho fatalista. O mundo pode estar acabando, mas nós ainda vivemos nele. Por isso, podemos persistir. E o símbolo do Batman é sobre isso: perseverança.
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