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Longe dos olhos da justiça, no ardor seco da caatinga, existe uma terra fértil para a resistência, onde a miséria é semeada para que aqueles que operam o jogo do poder colham o controle. Por lá não há santos, apenas pecadores que dependem uns dos outros para sobreviver a um embate constante entre a moral e a honra. Nesse cenário, a 2ª temporada de Cangaço Novo dobra a aposta na complexidade das histórias de bando, lidando em alta tensão com as cicatrizes da violência. É uma dinâmica de ação e consequência que expande e retrai rápido, causando uma explosão nuclear. Onde o caos impera, nenhuma boa ação fica impune.

Como você deve lembrar, a 1ª temporada terminou com Gastão Maleiro provocando uma divisão violenta em Cratará, que culminou na morte do pai de Ubaldo durante o incêndio de uma igreja. O chefe do bando perde, de uma só vez, o pai e o dinheiro do grande assalto, e seu primeiro impulso é arquitetar uma vingança fria que reverbera por toda a 2ª temporada. Ele está quebrado, talvez até arrependido de suas escolhas, mas será forçado a agir novamente — e rápido. Afinal, Dinorah, Zeza e Dilvânia precisam pagar pelo terreno do arraial dos desabrigados. Em meio a esse caos, uma crise hídrica exerce ainda mais pressão sobre o grupo, que assume a responsabilidade de lutar por aqueles que não têm mais ninguém por si.

Crítica de Cangaço Novo (2ª temporada)
Reprodução/Prime Video

No novo ano, a câmera de ação assume, por vários momentos, um papel de voyeur — quase como uma testemunha de campana. O que é exibido talvez seja duro demais para se observar de cara, mas o conforto aqui não é uma escolha para quem assiste. Quando precisa trazer a narrativa para perto e tornar o sentimento mais duro, a imagem fecha o plano, por vezes forçando os personagens a encararem o próprio reflexo. Será mesmo que eles gostam do que se tornaram? É aquela a verdadeira natureza deles? Há uma certa crise de identidade; sim, é claro que o contexto não lhes deixa tantas escolhas ou tempo para pensar.

Quer ou não quer? Sim ou não? Responda logo e pague um preço gigante por isso, sem ter a chance refletir se vale a pena.

O texto eleva esse jogo de ação e consequência no embate entre moral e honra. Elas não são a mesma coisa. A moral é a régua que os poderosos sem honra inventam para definir os limites do “cidadão de bem”. Já a honra é o código ético que o indivíduo negocia consigo mesmo para ser justo com a própria consciência e com os seus.

Crítica de Cangaço Novo (2ª temporada)
Reprodução/Prime Video

A guerra da 2ª temporada, entre novos cangaceiros e políticos, não é justa, pois é travada por exércitos que atuam sob regras e limites distintos. Além disso, é um conflito destinado a jamais acabar; o poder é sedutor ao ponto de corromper homens e transformá-los em uma Hidra: corte uma cabeça e três nascem no lugar. Esta é uma história tão antiga quanto a civilização e muito mais ampla do que o embate entre cangaço e coronelismo.

O que mais encanta em Cangaço Novo, no entanto, é como esse embate entre autoritarismo e resistência é traduzido em uma ótica humana, profundamente identificável para a maior parte do Brasil. O cenário aqui é o Nordeste e a trama envolve água e minérios; no entanto, poderia ser também o interior da Amazônia, onde o conflito se desloca para a posse da terra e a exploração da madeira. Em suma, esta é uma série sobre um Brasil mais cru — aquele que não se vê nas vitrines do Leblon.

Crítica de Cangaço Novo (2ª temporada)
Reprodução/Prime Video

Os Vaqueiros são agentes do caos que não estão ali por escolha, mas por terem sido convocados pelo ambiente; é uma atração magnética macabra. Os Maleiros provocam os Vaqueiros a serem o que são, enquanto os Vaqueiros empurram os Leite para o lugar dos Maleiros. Até há a intenção de quebrar a cadeia de conflitos, mas essa é uma herança forte demais para ser negada. Na 1ª temporada, Ubaldo voltou ao Ceará em busca de um espólio e o recebeu junto com a própria identidade. Estar em paz com essa herança, no entanto, é uma missão que nem sempre se mostra fácil.

A estrutura desta 2ª temporada — que abre a escala para ir fechando aos poucos, até se tornar praticamente um faroeste de cerco — estabelece que o centro do caos na vida desses personagens estará sempre ali, nas terras rurais de Cratará. Não importa o quão longe os trovões se expandam, a tempestade sempre desaba sobre a casa e nunca vai embora sem deixar marcas expostas. Tudo vai ficando mais pesado. A responsabilidade só faz crescer, e a pressão fica sufocante.

Crítica de Cangaço Novo (2ª temporada)
Reprodução/Prime Video

Graças à carga de um texto repleto de traições e tempestades, o vazio da imagem torna-se um constante sinal de alerta. A ameaça pode surgir dali: rápida, traiçoeira, sem conceder ao público sequer a chance de se despedir de quem se gosta. Esta é uma história movida pela vingança, onde o preço de resolver tudo na bala é cobrado de forma traumática.

A 2ª temporada de Cangaço Novo destaca o colapso de uma estrutura social onde a honra é o último refúgio dos condenados. É crua, mais técnica que a 1ª e, acima de tudo, primitivamente humana. O preço é alto, o sangue é quente e a vingança é a herança imposta, mas jamais desejada.

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Nota 9


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