Comentários

Estimated reading time: 4 minutos

É 2026. É possível conversar com alguém do outro lado do mundo em tempo real. O homem até já fala com softwares sencientes. No entanto, ainda há poucas pontes e muitas ilhas. Por quê? Cara de Um, Focinho de Outro (2026), da Pixar, reflete esse questionamento através do embate de uma ambientalista adolescente com um prefeito egocêntrico. Como resultado, há um choque entre o urgente e o contemplativo que se nega à bidimensionalidade.

Crítica de Cara de Um, Focinho do Outro
Reprodução/Pixar

Por mais careta que essa abordagem possa ser, a Pixar ancora sua narrativa na verossimilhança. Há um esforço visual nítido para aproximar a animação ao máximo do tangível. E funciona — ou funcionou na maior parte do tempo, considerando a dificuldade do estúdio em emplacar originais nos últimos anos. Enfim, é o que é, é a Pixar, e isso não é necessariamente ruim. Cabe aos criadores envolvidos saberem como extrair o melhor dessa fórmula.

Atualmente, a tecnologia do estúdio atingiu um nível assustador. As limitações deixaram de existir. Com texturas tão próximas do live-action, os cineastas agora podem tratar o caricato como um recurso de profundidade visual e operar uma “câmera” livre de obstáculos físicos. A Pixar construiu um foguete e, até hoje, ninguém o pilotou melhor que Daniel Chong.

Crítica de Cara de Um, Focinho do Outro
Reprodução/Pixar

No que se exige de uma grande experiência cinematográfica, Cara de Um, Focinho de Outro é vigoroso. Para além do texto e da mise-en-scène, as emoções agora são provocadas por estímulos visuais de transições, sons e movimentos. É uma exploração completa de recursos em favor da imersão, executada de maneira profundamente criativa.

O jogo entre o caricato e o verossímil é explorado, inclusive, como recurso narrativo. Aqui, o ponto de vista é o guia; é o que diferencia a interação fria da proximidade afetiva. No fim, trata-se de atribuir profundidade ao que é geralmente visto como banal.

Crítica de Cara de Um, Focinho do Outro
Reprodução/Pixar

É verdade que a provocação da empatia é uma tradição da Pixar. Filmes de brinquedos com vida própria, peixes mergulhados em dramas existenciais e insetos com lições sobre luta de classes são exemplos claros disso. Mas Daniel Chong dá um passo à frente muito bem-vindo: desta vez, a alegoria pulsa mais forte na imagem do que no texto. É uma aposta ousada na inteligência de um público que vive em uma era onde tudo precisa ser mastigado.

Crítica de Cara de Um, Focinho do Outro
Reprodução/Pixar

Em suma, Cara de Um, Focinho de Outro é uma obra inteligente sobre comunicação com o DNA da Pixar — ou seja, é engraçada, emocionante e íntima. Para além disso, é o sinal de que o estúdio finalmente parou de olhar exageradamente pelo retrovisor. Com essa tecnologia absurda e diretores que realmente têm algo a dizer sobre o mundo de hoje, os originais ganham um fôlego novo.

Leia mais sobre Cara de Um, Focinho de Outro:

Nota 9


Comentários