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Sorrisos falsos e cores vibrantes. Ao redor, todos dizem apenas o que é confortável, nunca o que é necessário. O ambiente é artificial; as pessoas, superficiais. Consequência (2026), de Jonah Hill, explora com precisão o drama de quem moldou a própria personalidade com base no feedback do público. O filme funciona quase como uma sessão de terapia, defendendo que separar a arte do artista é uma iniciativa saudável inclusive para o próprio criador. Mas, afinal, qual é a graça nisso?
Keanu Reeves é Reef, um super-astro de quase 60 anos que alcançou a fama ainda na infância. Uma vida inteira dedicada à construção de uma imagem artificial o faz entrar em pânico ao ser extorquido com um vídeo misterioso. Ele não sabe o que tem lá, mas, no fundo, entende que cometeu erros graves o suficiente para provar ao mundo que não é a figura benevolente que aparenta ser. Por precaução, e seguindo o conselho de seu advogado, Reef se antecipa e inicia uma turnê de pedidos de desculpas àqueles que mais ofendeu, que está ofendendo ou que possa vir a prejudicar com seu narcisismo. A estrutura narrativa é, essencialmente, “Um Conto de Natal em Hollywood“, na qual o protagonista encara os fantasmas do passado, presente e futuro.

O texto de Hill e Ezra Woods tem qualidade. Por adotar um estilo de enquadramentos documentais, repleto de jogos de plano e contra-plano, o filme está em seu melhor quando foca nas relações pessoais do protagonista. Em especial, há uma sequência de diálogo entre Keanu Reeves e Martin Scorsese que define a alma da obra. O fato é que a produção foi muito feliz na escolha do intérprete de Reef; não apenas por Reeves ser um astro de renome, mas por carregar essa aura introspectiva que dialoga perfeitamente com o conflito de exposição vivido pelo personagem. A intenção é causar incômodo e o resultado é eficaz.
O ambiente joga a favor da narrativa. Nada na fotografia é natural. O exagero é ainda maior nos figurinos. Ao primeiro olhar, percebe-se imediatamente que algo está fora de lugar. Tecnicamente, o trabalho conjunto dos departamentos se destaca, reforçando a estranheza da obra.
Por outro lado, há uma clara falta de inspiração de Hill na decupagem. Repetindo um vício comum e delicado de atores-diretores, Hill foca excessivamente nas expressões e utiliza pouco os recursos de linguagem visual. Faltam estímulos. Consequência é uma comédia que depende demais das piadas do roteiro para ser engraçada — e estas, definitivamente, não são o ponto forte do texto.
Há uma ironia na aparente falta de domínio do diretor sobre a geografia da imagem e o espaço. A dificuldade da obra em se consolidar como uma comédia convencional acaba dando mais destaque para o íntimo, e isso intensifica o grau de estranheza provocado pelo ambiente e pelo elenco — tipo: ‘por que eu estou pensando sobre isso? Não deveria ser um entretenimento escapista engraçado?’. Seria este um acidente feliz que eleva a qualidade da obra como um drama, ou um descuido que faz com que ela simplesmente não seja uma boa comédia?
Para todos os efeitos, Consequência é um filme interessante. O tom de confessionário funciona como uma conversa franca, sem aquela pretensão de ser um chororô de rico. É sobre pessoas quebradas, seus pecados e o quão facilmente elas abrem mão de uma vida inteira de possibilidades pela bajulação do mundo artificial. Há graça nisso, mas não do tipo de dar gargalhadas.
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