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É inegável que a premissa de Coyote vs. Acme (2026) é divertida, mas não é exatamente inédita. Décadas atrás, Grant Morrison usou o personagem em Homem-Animal para fazer um protesto sobre o gosto controverso das pessoas por entretenimento sádico. O filme de Dave Green, no entanto, segue por um caminho autêntico. O grande barato aqui é parodiar thrillers aclamados, como O Informante (1999), em uma história de conspiração que, na verdade, fala sobre como conseguir o que se quer é um saco.
Após anos falhando em conseguir capturar o Papa-Léguas, Wile E. Coyote pausa um pouco para refletir sobre suas desgraças em sua caverna, quando um comercial de um advogado fuleira do tipo Jimmy McGill promete alguns dólares em troca de algum equipamento defeituoso da Acme — que é uma megacorporação que lidera toda a indústria da América do Norte nesse universo. A partir desse momento, o pobre bicho decide fazer uma dolorosa e explosiva viagem para Albuquerque, no Novo México, para mover um grande processo contra a empresa.

Como esse é um filme dos Looney Tunes, não é recomendável esperar que a atmosfera seja tão densa quanto a dos thrillers nos quais se inspira. A dinâmica aqui é a de usar a conspiração para manter o interesse vivo na trama do Coyote. Por que justo agora o Coyote está fazendo força para levar o caso à Justiça? Por que ele está confiando cegamente em um advogado fracassado? O que ele quer e por que está fazendo isso é um mistério por boa parte do longa. As respostas formam o grande twist. Não é nada surpreendente, mas funciona.
A pretensão narrativa funciona principalmente porque o texto valoriza a jornada em relação ao destino. A rima com Sísifo — que é a figura mitológica condenada a rolar uma pedra até o topo de um morro todo dia, pelo resto da eternidade — é uma escolha de norte temático eficiente e clara, que faz com que a produção nem seja cabeça demais para o público ao qual é destinada, e nem besta demais a ponto de ser algo chato. A resolução do caso na Justiça, ou dos desejos do Coyote, pouco importa. O atrativo é descobrir como se vive os absurdos daquele mundo.

E aqui vai o elogio ao MVP do negócio, que é o Dave Green. A integração da animação para o live-action é funcional e divertida. Os efeitos práticos de carros esmagando, paredes desmoronando e outros absurdos soam como se esse mundo fantástico fosse um fato. O elenco também colabora para essa integração, principalmente Will Forte e John Cena, que conseguem formar uma caricatura na medida certa, soando como personagens de carne e osso do mundo de Looney Tunes. E aqui vale o registro: não canso de me impressionar com o quão bom ator o Cena virou depois de Pacificador. Está entre os melhores — se não for o melhor — de comédia em Hollywood atualmente.

Entendendo que existe um espetáculo muito bem estabelecido na franquia, ninguém tenta reinventar a roda, apenas ampliam a escala para dizer que a natureza do Coyote sempre será correr atrás do Papa-Léguas, e a do Papa-Léguas sempre será tentar se livrar do Coyote. No dia em que um dos dois conseguir o que quer, haverá só vazio. Enfim, Coyote vs. Acme é uma graça.
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