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Transformar-se em algo novo a partir das próprias cicatrizes tem mais a ver com renascer do que resgatar um auge do passado. O renascimento consiste, acima de tudo, de resistir e se adaptar às rupturas do mundo lá fora. Por mais que não parecesse na época, o mundo era um lugar bem mais simples em 2015. Mais de uma década depois, o Demolidor precisa encarar um cenário onde seu maior rival detém o poder político e Nova York mergulha no caos. Ele só será capaz de mudar as coisas caso passe por uma metamorfose. Na 2ª temporada da nova série do herói, a busca pelo efeito fênix deixa de ser um tema e se torna um elemento estrutural.

Fato é que a Marvel buscou esse renascimento desde os primórdios do projeto, tanto que optou, em um primeiro momento, pela ruptura com o passado — o que se provou um grande erro. Tudo o que funcionou na 1ª temporada de Demolidor: Renascido foi herdado da série da Netflix; nenhuma novidade realmente tinha engrenado até agora. Quando o projeto foi reformulado no meio das filmagens, Justin Benson e Aaron Moorhead estabeleceram que a transformação deveria ser uma evolução natural do que veio antes. Afinal, não dá para virar as costas para o que fez o Homem Sem Medo se tornar tão popular no streaming.

Crítica de Demolidor: Renascido (2ª temporada)
Reprodução/Marvel Studios

A dupla estabeleceu um novo padrão estético, principalmente pela forma como traduziu os poderes do Demolidor em um jogo de focos instigante, além do uso dinâmico de iluminação para marcar os personagens. Foi charmoso na 1ª temporada, mas sinto em escrever que, na abertura da atual, não funciona. E o problema não tem a ver com o estilo em si, mas com a forma como Benson e Moorhead soam desleixados.

Desde os edits de BB Urich, que massacram o ritmo, até a falta de dinamismo nas imagens, os dois primeiros episódios parecem obras preguiçosas ou forçadas. Os diretores se limitam a múltiplos cortes de uma câmera parada diante de dublês dando piruetas para tentar causar a sensação de ação. Falta tensão. Benson e Moorhead não conseguem estabelecer a atmosfera de perigo necessária, de forma que se instaura uma divisão de 40 minutos de converseiro para apenas 5 do que importa.

Crítica de Demolidor: Renascido (2ª temporada)
Reprodução/Marvel Studios

A situação política, embora envolva temas sérios e atuais, é mais um problema dos dois primeiros episódios. Com a habilidade manual de uma retroescavadeira dentro da não-atmosfera construída, os cineastas criam situações que mais parecem as paródias da Vought Studios em The Boys. O início da 2ª temporada tem a catinga da 1ª. Parece até que nada vai mudar, mas, felizmente, muda.

Pode-se dizer que o renascimento da série do Demolidor começa a partir do terceiro episódio do segundo ano, que finalmente lembra que o uso do ambiente é um elemento-base para essa franquia, tal qual em qualquer thriller ou obra noir. A partir desse ponto, Nova York passa a ser, de fato, ameaçadora, e até os coadjuvantes chatos da 1ª temporada começam a importar.

A graça desse tipo de história é, justamente, testemunhar como os agentes envolvidos interagem com o ambiente que os está tragando. Nesta nova fase, a ameaça parece vir de qualquer lugar da cidade. A sensação é de que alguém mantém a mão em seu pescoço, apertando devagar o suficiente para que você não perceba que há um problema, até que, de repente, você já não consegue mais respirar.

Depois da saída de Benson e Moorhead, parece até outra série. Além do cenário se tornar ameaçador, a ação também se torna muito mais interessante. A câmera deixa de ser uma testemunha do time de acrobacias e passa a fazer parte dele. Ela dança, gira, tira o fôlego, cria urgência, causa impacto… Enfim, ganha vida.

Crítica de Demolidor: Renascido (2ª temporada)
Reprodução/Marvel Studios

A 2ª temporada de Demolidor: Renascido entrega uma segunda metade muito forte. Isso se deve, principalmente, à mescla de novos elementos de suspense atrelados aos personagens e ao peso de suas escolhas. O clímax, inclusive, não ocorre em uma sequência de luta, mas no tribunal — por isso, Iain B. MacDonald talvez tenha dirigido o melhor episódio do Homem Sem Medo, contando até mesmo com as temporadas da Netflix.

Não é exagero dizer que a conclusão deste novo ano é o ápice da jornada conduzida por Charlie Cox e Vincent D’Onofrio ao longo da última década. O Demolidor evolui para alguém menos rígido em seus julgamentos, agora capaz de compreender a natureza dos homens. Ele entende que, embora trafegue pelas sombras, não precisa ser parte delas. O Rei do Crime, por sua vez, torna-se um homem em paz com a própria maldade; mesmo nos momentos de perda de controle, ele jamais perde de vista quem é. O choque entre esses dois homens, marcados pelas dores do tempo, é o destino natural que a série tanto tentou alcançar. São figuras antagônicas forçadas a coexistir, como se um fosse o agente limitante do outro — e eles, à sua maneira, se respeitam por isso.

Crítica de Demolidor: Renascido (2ª temporada)
Reprodução/Marvel Studios

Dessa vez, temos uma proposta mais madura. Permanece o tom soturno, mas sai de cena aquele pessimismo purista da Netflix. A nova fase foca mais na corrupção sistêmica do que no ciclo de crime e castigo, encontrando o equilíbrio ideal entre o universo interligado do MCU e a essência visceral que consagrou Charlie Cox e Vincent D’Onofrio.

Deem glória, fãs: o Demolidor está finalmente renascido. A produção do Disney+ encontra uma identidade própria em meio ao caos, o que faz dela uma obra tão interessante quanto a clássica da Netflix. É correto dizer que, para todos os efeitos, esta 2ª temporada é um salto muito bem-vindo em direção ao êxito tão sonhado pela Marvel Studios; a série deixa de ser atrativa apenas por ecos do passado e passa a produzir o próprio barulho.

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Nota 8


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