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O sol está morrendo e o planeta Terra ficando mais frio. A comida começará a faltar e a civilização vai colapsar, enquanto bilhões morrem de fome, frio e guerras por recursos. Isso, se um cientista biomolecular — que trabalha como um simples professor de ensino fundamental — não conseguir concluir sua missão de descobrir algo que reverta a morte do sol em uma viagem só de ida para o espaço. Desistir da própria vida para salvar bilhões é, com certeza, um ato de bravura. A questão em Devoradores de Estrelas (2026) é que esse professor, chamado Grace, acorda no espaço sem lembrar por que topou essa loucura, nem o que exatamente precisa fazer para salvar a Terra.

No mercado hollywoodiano atual, criar originais comerciais é um grande desafio. Em um mundo perfeito, os estúdios investiriam nesse tipo de projeto assumindo grandes riscos, mas não é assim que funciona. Existe, sim, bravura por parte da Amazon em investir US$ 200 milhões em um original; porém, parece muito mais um risco controlado. Essa abordagem do cientista desmemoriado, vinda do livro de Andy Weir, facilita o trabalho do roteirista Drew Goddard em estruturar os eventos, além de dar a Phil Lord e Chris Miller uma margem ampla para equalizar o ritmo da história entre os momentos de solidão de Grace no espaço e os flashbacks pré-missão na Terra.
É uma forma eficiente de comprar a atenção do público. Todo começo de filme precisa apresentar os personagens e seus objetivos; às vezes, quando um criador quer apostar mais no sensorial, essas definições acabam sendo postergadas, e cria-se o risco de as explicações ficarem expositivas demais — vide os ótimos Tenet (2020) e Interestelar (2014). A fórmula usada no texto de Devoradores de Estrelas, no entanto, minimiza essa situação ao convidar o público para montar um quebra-cabeça junto com o protagonista.
Este é o primeiro live-action de 200 milhões de dólares dirigido por Phil Lord e Chris Miller. A dupla de Anjos da Lei, Aranhaverso e Uma Aventura LEGO tem uma assinatura artística voltada para um humor que não depende apenas dos movimentos de câmera, mas da fisicalidade dos atores. Nesse quesito, eles não poderiam ter sido mais felizes ao escolher Ryan Gosling como protagonista.
Veja: a trama é conduzida pela amizade de um cientista da Terra com um alienígena de corpo rochoso. Por mais divertidas que sejam as transições ou mais dinâmico que o roteiro se apresente, o projeto não teria êxito sem um ator com a amplitude emocional e física de Ryan Gosling para servir como o norte tonal da obra.
O fato de Lord e Miller terem construído uma carreira potente na animação também joga a favor do projeto. Nesse tipo de arte, é exigida dos criadores uma atenção maior ao impacto de recursos como ponto de vista, movimento de câmera e som. Em Devoradores de Estrelas, é possível sentir a gravidade — ou a falta dela — pelos gestos da câmera ao agarrar ou flutuar em volta do personagem. O som vibrante, além disso, é marcante o suficiente para fazer você sentir algo na ausência dele. No quesito sensorial, este é um filme que se sai magistralmente bem.
Ninguém pediu por este filme, assim como também ninguém pediu para nascer; mas estamos vivos, tentando descobrir como nos encaixamos no todo. A arte é materialização de vida, não algo que possa ser encomendado como um produto. É verdade que havia uma missão premeditada para Lord, Miller e equipe — assim como havia para Grace —, mas é louvável o quanto eles conseguem fazer desta uma jornada tão íntima e engajadora, emulando sentimentos genuínos como medo, esperança, felicidade e luto.
Devoradores de Estrelas é uma potente ficção científica sobre como existir, por si só, é um imenso ato de bravura. Embora não seja estruturalmente inédito, o filme transborda uma autenticidade e visão artística que o elevam ao status de obra atemporal.
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