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A verdade é um desejo primário, e é justo que seja compartilhada. Mas você está preparado para ouvi-la? E se ela quebrar tudo em que você acredita? O que fazer com o propósito, a motivação e a razão para continuar vivo? Dia D (2026) é uma odisseia pela verdade de Steven Spielberg que, apesar de falar sobre alienígenas ao estilo brega do menino maluquinho dos ETs que o cineasta sempre foi, tem algo a dizer sobre a fé além da religião.

Daniel Kellner (Josh O’Connor) é um ex-cybercriminoso que foi contratado a dedo por uma das empresas de segurança de dados mais importantes do mundo. Certo dia, ele é convencido por Hugo (Colman Domingo) a roubar uma série de dados bombásticos para, em breve, revelá-los publicamente, permitindo que as pessoas finalmente descubram a verdade sobre o nosso lugar no universo. Talvez o que ele tem a revelar piore as coisas, pois o mundo vive sob a sombra do Relógio do Juízo Final, com uma das Coreias (ou as duas) se voltando contra os EUA na maior ameaça nuclear de todos os tempos. Talvez faça o mundo se unir. Não dá para saber a consequência da verdade, por isso Noah (Colin Firth), o chefe da empresa, usará todos os seus recursos para impedir o vazamento. Em paralelo a isso, Margaret Fairchild (Emily Blunt), a moça do tempo de um jornal de Kansas City, passa por um evento misterioso e começa a agir de maneira estranha. Ela agora fala todas as línguas da Terra e consegue ler mentes, mas não sabe o porquê. O que ela descobre acaba sendo decisivo para que a jornada de Daniel resulte no Dia D (ou Dia da Revelação, o que seria uma tradução muito melhor).

Crítica de Dia D
Reprodução/Universal Pictures

Substancialmente, Dia D é como se Spielberg tivesse assistido a Watchmen de Damon Lindelof e percebido que também poderia fazer a sua própria versão da história clássica de Alan Moore. Só que, como é de praxe nos textos de David Koepp, o resultado é bem menos profundo e até um pouco bobo. Eu diria que é uma mistureba mais palatável da HQ e da série de Watchmen, mas com alienígenas e agentes do governo no lugar de homens fantasiados e detetives.

A estrela do show, como não poderia deixar de ser, é Spielberg. Não preciso destacar que esse senhor é um mestre na gestão de espaços. Ninguém em Hollywood sabe trabalhar o cinema de gênero melhor do que ele. Há um domínio absoluto de ritmo, de saber exatamente o que mostrar e quando revelar as coisas. A dosagem de informações constrói a atmosfera através do sentimento intrigante de explorar o desconhecido.

Reprodução/Universal Pictures

Há espaço para as estrelas brilharem — Emily Blunt está divertidíssima no papel de Margaret —, mas nada se destaca mais do que a tensão constante de que tudo pode se colocar a perder a qualquer momento. Para quem sentia falta dessa abordagem de Spielberg, esta é uma experiência cheia. Tão cheia que vira um problema. A construção dessa escalada de perigo funciona tanto que, no final, é preciso encarar o fato de que o filme entrega menos do que prometeu ao longo de sua longa projeção.

O grande truque aqui é que, apesar de a escala prometer algo cósmico e universal, o foco está sempre — mesmo que ocultamente — nos pequenos gestos, no íntimo. Não à toa a fotografia foca tanto nos olhos dos personagens. Os olhos não sabem mentir. Quem mais poderia contar uma história pungente sobre a verdade? O desconforto é quase sempre representado por reflexos em espelhos. Nenhum dos protagonistas está realmente confortável com o que está fazendo. A verdade tem um preço, e eles sabem disso, mas também entendem que ela não pode ser controlada por nenhuma entidade que decida o que é melhor ou não para os habitantes da Terra. Encarar o espelho é abrir mão do próprio ego ao aceitar o que está na sua frente.

Reprodução/Universal Pictures

Vivenciar essa dicotomia de escala entre o que é prometido e o que é entregue pode ser tanto frustrante quanto inspirador. Afinal, mesmo se frustrando, esse sentimento só existe porque você foi capaz de sentir algo — e isso é um ponto para Spielberg. A jornada sensorial funciona e a mensagem é clara.

A fé é a força ativa de apostar no abstrato. Em um mundo cada vez mais bipolarizado e que caminha para o caos, Dia D nos pede algo muito difícil: que tenhamos fé nas pessoas. Em algum momento, teremos que encarar a verdade sobre a nossa lógica na Terra como sociedade e civilização. Isso pode nos destruir de vez ou criar uma nova era de diplomacia. Mas como acreditar que países e líderes sedentos por recursos e território estão dispostos a esse diálogo? Talvez seja utópico demais. Enfim, não é um debate confortável.

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Nota 8