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Quando sobem as cortinas em Digger (2026), uma plateia inteira está de pé, emocionada e aplaudindo por ter assistido a uma cena de um homem miserável tirando a própria vida. Lembra o conto das execuções na forca durante a Idade Média, ou como criminosos e políticos foram guilhotinados na França. Como algo tão macabro seria capaz de despertar tanta satisfação nas pessoas? Alejandro G. Iñárritu e Tom Cruise constroem a resposta a partir de uma farsa (mas nem tanto) sobre trauma geracional.

Crítica de Digger
Reprodução/Warner Bros. Pictures

Magnata do petróleo norte-americano, Digger Rockwell ignora todos os avisos de sua equipe científica de que uma plataforma de extração no gelo está prestes a se desprender e causar uma catástrofe, porque ele precisa cavar o máximo que der até a troca de mandato de presidente nos EUA. O líder da nação deu ao bilionário uma concessão fraudulenta e está morrendo. Quando ele partir, a torneira de dinheiro vai fechar. Mas nem chega a tanto: o pior acontece imediatamente e a plataforma Judy se desprende do gelo, virando uma ilha gigante a caminho da costa europeia.

E agora, o que fazer para impedir o acidente? Assumir a culpa e avisar a Europa para salvar o máximo de vidas possível? Ficar calado, não avisar nada, censurar palavras nas redes sociais e tentar controlar a narrativa depois do estrago feito para não perder tanto dinheiro? Digger escolhe a segunda opção, e a trama se desenrola a partir das consequências dessa escolha que atingiu as vidas de milhões de pessoas.

Exigindo do público uma postura de observador moral, Iñárritu se sustenta em uma lógica de imagem de TV, que se assemelha mais a uma sitcom tradicional do que a um espetáculo cinematográfico para IMAX. É um desperdício do talento de Emmanuel Lubezki, cuja maior atribuição é criar uma atmosfera cinza para a farsa narrada. Além disso, há um aproveitamento pouco justificável e atraente do VistaVision.

O jogo de cena em Digger depende muito mais do elenco do que da câmera. A imagem permanece estática, como um observador tímido. Para tudo funcionar, Tom Cruise precisava ir bem, e ele vai. Não é a atuação que ele imaginava para o Oscar, mas cumpre a dicotomia de um homem em crise de identidade, que se reconhece mais no personagem que criou do que em si mesmo.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Teoricamente, isso é uma comédia, o que explica o esquema de imagem de sitcom. Iñárritu não é dos escritores de comédia mais sutis, mas Digger consegue entregar bons momentos de escapismo. Talvez não tenha tanta graça porque o exagero característico do humor se tornou algo banal para o mundo lá fora. E quanto mais as piadas se aproximam da realidade, mais o clima de sitcom vira um incômodo.

Por essa natureza de incomodar, não sei dizer se “divertido” é o melhor termo para definir Digger, mas há um certo tipo de graça no reconhecimento da nossa desgraça. O ponto forte do filme é seu espírito provocativo, que obriga quem está assistindo a confrontar a si mesmo em busca de respostas do porquê de o mundo estar se tornando um lugar pior a cada dia que passa.

Parece um presságio esse tipo de história estar sendo contada no meio da corrida eleitoral do Brasil, pois torna a proposta narrativa ainda mais aparente. A palavra “vingança” tem sido bastante proferida nos últimos dias. Tem quem queira vingança por como vidas foram esnobadas no momento mais sombrio do mundo neste século. Algumas pessoas querem vingança porque as compras do mercado não duram tanto quanto duravam antes. Outras querem vingança porque não conseguem mais contratar subalternos para oferecer serviços braçais por mixaria. E há até quem queira vingança por ter perdido “privilégios” da época da escravidão. Ninguém está realmente preocupado com as consequências gerais, e o ódio cega ao ponto de ofuscar o fato de que o contexto social global é de derrocada.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Até alguns dias atrás, me perguntava o que tinha feito o mundo ficar tão ressentido. Pensei em como o Ocidente se tornou um corpo moribundo — que em Digger é representado por John Goodman no papel de um presidente decrépito — e também sobre como o capitalismo tardio caminha para as ruínas. As pessoas têm dificuldade de enxergar que esse sistema em que vivemos exige que o capital se concentre mais em alguns pontos do que em outros. Com o planeta em superpopulação e começando a enfrentar um tipo mais acentuado de escassez de recursos, essa insatisfação só vai crescer, independentemente de qualquer rumo ideológico.

Mas por que nos permitimos chegar a esse ponto? Existe uma espécie de resposta na cena mais importante de Digger, em que o personagem de Tom Cruise fala a verdade sobre Judy. Se as petroleiras estão matando o planeta, por que Digger continua cavando? Porque a gente quer que ele cave! É da natureza humana buscar o conforto. Todo mundo quer se livrar do petróleo e de todo tipo de tecnologia que consome o mundo de forma cavalar, mas ninguém quer realmente abrir mão dos benefícios que isso traz.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Abrindo mais esse conceito, podemos observar o humano como um ser social, mas que pensa e opera de maneira individualista. Quando olhamos para o contexto do mundo, onde cada vez mais surgem líderes que parecem pouco inteligentes, propondo e sendo exaltados por medidas que vão contra a união e prosperidade geral do povo, nos perguntamos se aquilo é fingimento, falta de noção, espírito de porco, ou mesmo se as pessoas de modo geral se tornaram ruins. Mas a real é que está todo mundo ressentido. Por mais mesquinhas, inseguras, frustradas e ridículas que possam parecer, essas pessoas partem e compartilham de sentimentos reais, pois são reais.

Qual seria a origem do mal, senão a programação humana de se manter no conforto? A indiferença ao sofrimento alheio existe desde antes de descobrirmos o fogo, quando já matávamos pelo controle de territórios.

O ponto de Digger, com sua reviravolta, é mostrar que não dá mais para negar a realidade de que falhamos como civilização. Não há mais uma cortina escondendo os bastidores desse espetáculo de farsa social em que vivemos por séculos. As ideias macabras, os planos doentios estão todos postos à mesa e muitos estão “OK” com isso pelo simples fato de que se sentem favorecidos. É a natureza aplicando a sua vingança em nós, nos fazendo nos devorar do mais forte ao mais fraco para que ela possa fazer a limpa final.

O filme de Iñárritu com Cruise não é de forma alguma confortável de ver. É feito com raiva. Não tem aviso, mensagem ou diálogo com qualquer público. Ele aplica um castigo. É uma obra que tem ódio de evangélicos, bilionários, de políticos e militares, da classe artística, da direita, da esquerda, dos isentos… enfim, das pessoas em modo geral! A obra fala sobre como o mundo caminha para a perdição e que sua população merece esse destino. Parece até uma visão adolescente e derrotista do contexto — e até é, porque reflete uma sociedade que se nega a amadurecer —, mas esse não é o ponto.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

É aqui que voltamos a falar sobre trauma geracional. Nesta semana, a comunidade de quadrinhos reagiu muito mal ao final de Lanternas, em que o personagem principal tomou uma decisão difícil, mas madura, de quebrar essa corrente, indo contra as convenções de “bem vs. mal” e “crime e castigo” que esse tipo de cultura imprimiu nas pessoas nas últimas décadas. Alan Moore falou recentemente que a derrocada do mundo tinha relação direta com a ascensão dos filmes de super-heróis como alta cultura, e eu até concordo em partes. Mas em casos como essa reação a Lanternas em contraste com o final de Digger, penso em como toda a questão tem mais a ver com a nossa própria negação de quebrar esse ciclo de ódio. A reflexão pessimista de Iñárritu é que nós já escolhemos passar nosso trauma adiante. Digger acredita que nossos filhos e os filhos deles estão condenados, e não há nada que possamos fazer para reverter isso.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Dá para entender o motivo de a Warner ter confiado tanto que iria longe nas premiações com esse filme. Ele conversa muito com o vitorioso Uma Batalha Após a Outra (2025), mas oferecendo um contraponto sombrio. Ambos são filmes que lidam com uma sociedade em guerra cultural, mas Paul Thomas Anderson fala sobre como o fracasso de uma geração não encerra a luta por um mundo melhor. É esperançoso. Iñárritu, por sua vez, nos diz que nós já perdemos essa luta, pois a nossa geração já fracassou como a que veio antes dela.

Digger imprime um retrato para a posteridade dos tempos de ressentimento em que vivemos e, automaticamente, se torna um dos grandes filmes sobre o começo deste século. É impossível sair indiferente dessa jornada, porque ela está o tempo todo te provocando, te fazendo sentir culpado, um cúmplice. Em síntese, a sátira proposta exibe uma crítica caricata (ou nem tanto) ao contexto político atual, mas, apenas como um disfarce para uma exposição da programação sombria da humanidade.

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Nota 8
Ramon Vitor, Editor-Chefe do site, engenheiro civil convertido em jornalista, é um apaixonado por cinema, quadrinhos e pelo poder transformador da comunicação. Com um olhar analítico aprimorado por anos de estudo da indústria cinematográfica, ele mergulha em seus artigos para O Vício desde 2021, transformando sua paixão em conteúdo cativante. Descubra uma perspectiva única sobre o universo do cinema e da TV.