Comentários

Estimated reading time: 5 minutos

Um Miami Vice com anabolizantes, um Bad Boys havaiano ou um A Hora do Rush entre irmãos. Essas são as expectativas naturais para o tipo de buddy cop que Dupla Perigosa (2026) se propõe a ser. E embora o filme de Jason Momoa e Dave Bautista beba de todas essas fontes, a grande surpresa é notar como ele consegue encontrar uma voz própria dentro de um gênero tão batido.

Grande parte do que torna o filme único é como ele molda os personagens em volta das personalidades dos atores. Jonny é um brutamontes espalhafatoso que, quando não está bebendo cerveja, está pilotando sua moto — basicamente, o próprio Jason Momoa. James, por sua vez, é o grandão bobão que, depois de velho, tenta se levar a sério demais, tal qual o Dave Bautista da vida real.

Crítica de Dupla Perigosa
Momoa e Bautista estão tão brutais quanto se espera em um filme de ação estrelado por eles (Reprodução/Prime Video)

São personalidades tão antagônicas quanto complementares; assim, o carisma seco de um é equilibrado pelo carisma tóxico do outro.

O toque de mestre, entretanto, é dado por Angel Manuel Soto — que diretor! O porto-riquenho demonstra um domínio de espaço impressionante, aliado a um molejo visual que faz a câmera dançar com os atores em cena, em vez de ser apenas uma mera testemunha.

Dirigir comédia e ação não é para qualquer um. Tem diretor vencedor do Oscar e líder de sindicato — que já passou até pela franquia Batman — que passa ano após ano tentando entender como causar impacto com esses gêneros, mas segue dependendo de roteiro e trilha sonora alta para entregar algo digno da bajulação que recebe. No fundo, esse é um tipo de trabalho que não aceita diretor de “cintura dura“.

Soto simplifica o complexo. O segredo da sua direção está na curadoria do olhar: o que mostrar e quando mostrar. Ele joga esse jogo de forma magistral, fazendo muito com pouco.

Crítica de Dupla Perigosa
Morena Baccarin faz participação divertida como namorada brasileira do personagem de Jason Momoa (Reprodução/Prime Video)

E olha que ele não dribla apenas a escassez de recursos — sabendo exatamente onde focar para mascarar o digital nas sequências de ação —, mas encara também a limitação do próprio texto de Jonathan Tropper.

Para se ter uma ideia, Tropper despeja uma dezena de piadas sobre genitais no roteiro. Soto consegue fazer metade delas funcionar — incluindo uma divertidíssima em que Momoa agride um gangster da Yakuza com sua “espada orgânica“.

Enfim, não há muito o que falar sobre a narrativa desenvolvida por Tropper. É o básico: dois irmãos brigados, forçados a colaborar após a morte do pai, resolvendo diferenças enquanto batem de frente com a Yakuza e a corrupção política no Havaí. Até existe uma mensagem sobre deixar o passado para trás, mas quem se importa? O mel está em ver Momoa e Bautista destruindo metade do Havaí durante uma investigação — e isso é tudo o que um buddy cop precisa para ser considerado um bom filme.

Crítica de Dupla Perigosa
A velocidade da câmera nas cenas de luta agrega impacto à ação, dando a dimensão da violência praticada pelos personagens (Reprodução/Prime Video)

Existe uma tendência natural de classificar filmes com textos mais simples como obras genéricas, e você certamente vai ler por aí que Dupla Perigosa é um desses casos. No entanto, há tanta personalidade envolvida aqui que esse rótulo simplesmente não cola.

Dupla Perigosa tem o molho! É uma comédia de ação divertida e fogosa que jamais funcionaria se não tivesse os temperos de Momoa, Bautista e Soto. É a prova real de que o elenco certo, nas mãos de um bom diretor, é capaz de entregar muito mais do que recebe.

Leia mais sobre Dupla Perigosa:

Nota 7


Comentários