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Há um ditado antigo que diz que, se você chamar muito pelo Satanás, uma hora ele acaba aparecendo. Em Extermínio: O Templo dos Ossos (2026), um ateu convicto e um satanista se cruzam em um memorial de cadáveres e realizam um teste de fé às avessas, onde o ditado é colocado à prova quase que em uma dramatização do clássico do Hermes e Renato, “Padre Quemedo e o Filho do Capeta“.
Essa tensão teológica, contudo, não flutua no vácuo. Diante de um cenário global onde grandes potências sucumbem ao medo do estrangeiro, o roteirista britânico Alex Garland desenha o mapa aberto da nova trilogia de Extermínio como uma grande alegoria ao Brexit e ao seu isolamento cultural. O fato de o Reino Unido ser o único território contaminado pela raiva não é gratuito: há um alerta claro sobre um local que, na tentativa obsessiva de se blindar do exterior, acaba apodrecendo por dentro.

Nesse ambiente de decomposição social, a bússola moral se perde. Você pode ou não acreditar na sacralidade da Bíblia, mas é um fato que as histórias sobre Jesus Cristo lá escritas são fundamentalmente sobre o exercício da empatia — um sentimento que é o oposto direto da indiferença, tema central da trama.
O longa explora a indiferença através de prismas opostos. No caso do ateu Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), o reconhecimento de sua pequenez diante do mundo gera uma indiferença voltada para o próprio “eu“. Por outro lado, o diabólico Jimmy Cristal (Jack O’Connell) manifesta essa indiferença em relação aos outros seres vivos.
O grande contraste desse embate está em algo intrínseco à humanidade: a busca por propósito e pertencimento. A fé no oculto que falta a Ian Kelson transborda em Jimmy Cristal — que sustenta a convicção absoluta de ser o próprio filho do capeta. No entanto, os valores morais de um e o medo da total ausência de sentido do outro terminam por inverter os papéis, confundindo quem é o fiel e quem é o cético.

De certo modo, a jornada de Ian Kelson é sobre como o desprendimento resulta em uma liberdade genuína — algo que se materializa na tela em uma sequência onde Ralph Fiennes dança Duran Duran completamente despido, com o Bráulio para jogo.
O que marca o protagonista, entretanto, é como o desprendimento do “eu” se converte em uma predisposição para servir que segue os ensinamentos básicos de Cristo — e é aí que tudo se embaralha. Como um médico que leva seu julgamento ao limite, Kelson demonstra ser muito fiel aos seus ideais, reconhecendo a humanidade até na criatura mais bestial desse universo.
O que seria essa crença de que os outros podem ser melhores, e de que ele pode ajudar nessa evolução, se não uma manifestação pura de fé? Não tenho certeza se exercer tamanha empatia em uma realidade brutal e individualista o torna, de fato, um cético.

Toda boa história de zumbis é, no fundo, sobre humanidade. O Templo dos Ossos é, essencialmente, uma contemplação do humano pelos olhos de um homem livre — alguém que não apaga memórias, mas possui a força de entender o novo e passar valores adiante, por mais árdua que a tarefa seja em um mundo que está apodrecendo.
Esse tom mais contemplativo provoca uma mudança imediata em relação ao filme anterior. Enquanto A Evolução (2025) é um punk de notas desarranjadas em guitarras distorcidas, este novo capítulo funciona como o Acústico MTV dessa mesma banda: despojado, cru e focado na essência, trocando o ruído da urgência pela clareza da melancolia.
Apostando em encontrar o diabo nos detalhes, Nia DaCosta entrega uma direção consideravelmente mais comportada que a de Boyle. É um contraponto que deve agradar aos olhos mais sensíveis que não digeriram o ritmo inquieto de A Evolução.

No entanto, se A Evolução é, para todos os efeitos, um filme de Danny Boyle — reconhecível imediatamente por sua assinatura visual esquizofrênica —, o mesmo não ocorre nesta sequência, onde a marca de Nia DaCosta se mostra diluída.
O Templo dos Ossos carece de um pouco mais de rebeldia. Não que o trabalho da diretora seja totalmente desprovido de personalidade, mas este parece muito mais um filme de Alex Garland dirigido por Nia DaCosta do que uma obra de Nia com roteiro de Garland. A forma burocrática como ela lida com a disposição dos planos tem grande influência nisso: as imagens mais marcantes acabam dependendo muito da composição elaborada pelo diretor de fotografia, Sean Bobbit.
Como um filme de Garland, entretanto, o longa molda seu valor na alma de um roteiro carregado de significados sobre religião, política e luto. O ponto mais surpreendente é que, assim como no ótimo Guerra Civil (2024), o autor encontrou otimismo na tragédia.

Há psicodelia e um espetáculo pirotécnico digno de aplausos, tudo embalado pelo melhor do rock britânico dos anos 80 e 90. Mas o trunfo está no texto, que equilibra a perversidade bruta de O’Connell com a perspectiva sensível de um Fiennes exausto. É fino, autêntico e, por que não, transgressor?
Extermínio: O Templo dos Ossos subverte um gênero marcado pelo pessimismo para entregar uma obra sobre memória e empatia. O Templo do título não é apenas um depósito de mortos, mas um lembrete de que, embora não possamos mudar o passado, não temos o direito de ignorá-lo, pois o verdadeiro apodrecimento começa no esquecimento.
O filme é, fundamentalmente, uma manifestação de fé na capacidade humana de ser melhor — ou, ao menos, de ser algo mais que um conjunto de ossos em uma pilha.
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