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Olhares vazios, disfarçados por sorrisos nervosos de canto de rosto, são reflexos da pressão do tempo sobre a busca por propósito. Existe segurança afetiva ou o casamento é uma instituição falida? Pode parecer uma discussão do nosso tempo — onde a poligamia é debatida sem abalar grandes pilares morais —, mas esse questionamento é mais velho que andar para frente. Quando Bradley Cooper pergunta: Isso Ainda Está de Pé?, a reflexão passa pela compreensão da nossa natureza egoísta. Se cada cabeça é um mundo, o quão disposto você está para deixar o outro entrar no seu?
Will Arnett — o BoJack Horseman, que também já foi o Homem-Morcego em LEGO Batman: O Filme (2017) — e Laura Dern, eterna em Jurassic Park, interpretam um casal de meia-idade que conquistou o check-list completo do sucesso: uma casa impecável, filhos saudáveis e educados, e o carro do ano. Ele é um agente bem-sucedido do setor financeiro; ela, uma ex-atleta olímpica de vôlei. Eles teriam tudo para desfrutar da calmaria que construíram, mas algo está fora do lugar. O que seria? O brilho simplesmente evaporou porque, supostamente, “as coisas são assim“?

Em sua carreira como diretor, Bradley Cooper sempre demonstrou um recurso vital: a sensibilidade de dramatizar o texto através da imagem. No entanto, talvez pelo delírio de se tornar um vencedor do Oscar, ele desenvolveu o vício da megalomania. Nasce Uma Estrela (2018) e Maestro (2023) são exemplos de filmes que, em certo ponto, perdem o rumo ao tentar forçar algo grandioso — a pretensão de ser o maior filme de todos os tempos da última semana. No longa estrelado e co-escrito por Will Arnett, essa vaidade simplesmente não existe. Por isso, este é o trabalho mais puro e bem realizado de Cooper.
Aqui, o espetáculo sai de cena para dar lugar ao intimismo. A câmera insiste em planos fechados no rosto dos atores, com um jogo de foco que traduz visualmente a confusão mental dos personagens. Ao escolher o que deixar fora da tela, o cineasta permite que o público — assim como os protagonistas — crie seus próprios monstros a partir do silêncio. É preciso muita habilidade para fazer esse tipo de comédia dramática à lá James L. Brooks ser interessante, e Cooper doma o ritmo e os movimentos de câmera como gente grande.

É nesse silêncio que Cooper atinge a sua maturidade como diretor. Este é seu primeiro trabalho que não tenta gritar uma identidade, mas se permite apenas ser. Desta forma, o casamento pode até ser o cenário, mas o filme é, essencialmente, sobre a comunicação — ou a falta dela.
Isso Ainda Está de Pé? transita entre o desconforto de quem vive sob a sombra de glórias passadas e a redescoberta da própria voz no stand-up comedy. Mas, no fundo, o que é evidenciado é que a harmonia é um exercício bruto de empatia. Para cada céu, há um inferno particular; é preciso estar ciente — e em paz — com a existência dele para seguir em frente.

Eduardo Coutinho dizia que os melhores filmes fazem perguntas, não oferecem respostas. Cooper abraça essa premissa ao apostar em uma jornada sensorial que não entrega nada mastigado: para aproveitar o longa em sua exatidão, você é obrigado a participar dele.
No fim, a pergunta do título deixa de ser sobre a relação dos protagonistas e passa a ser sobre a nossa própria existência. O que ainda fica de pé quando o sucesso material não basta para abafar o silêncio? Talvez, abrir a guarda seja o melhor caminho não colapsar na própria solidão.
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