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Nenhum bom filme é construído por uma pessoa apenas, ou mesmo poucas delas, mas há exemplos de produções que não nascem de ideias brilhantes, tampouco têm roteiros inteligentes, mas são elevadas pelo carisma de seu protagonista. Mayday (2026) é um bom filme que sofre um desnível entre protagonista e texto, mas aqui é o caso em que o texto e a visão cinematográfica sustentam todo o resto.
No final da Guerra Fria, um piloto norte-americano é convocado para uma missão de espionagem no espaço aéreo remoto da União Soviética e acaba abatido. Ele sobrevive e tem a sorte de ser resgatado por um ex-espião da KGB que mora isolado na neve e é fissurado pelos Estados Unidos desde que assistiu, de forma contrabandeada, ao seu filme favorito: Top Gun: Ases Indomáveis. O piloto, vivido por Ryan Reynolds, agora precisa dar um jeito de fugir do território inimigo antes que seja pego para servir de exemplo. O ex-agente da KGB, interpretado por Kenneth Branagh, quer ajudá-lo, desde que o norte-americano lhe consiga refúgio legal nos EUA. E é assim que nasce uma divertida parceria improvável em uma road trip pela vasta União Soviética.

Mayday é claramente um filme de Jonathan Goldstein e John Francis Daley, mas, por ter Reynolds em um cargo importante de produção, tem claros insights do ator, como na estrutura de apresentar um pico de ação nos primeiros minutos para ir contando a história de trás para frente até aquele ponto. Poderia ser chato e formuláico, até porque a dinâmica buddy cop de parceiros de mundos diferentes faz com que o filme pareça Deadpool & Wolverine (2024) de novo, mas só que desta vez é bom de verdade, por causa da autenticidade dos cineastas por trás do projeto.
Goldstein e Daley são roteiristas muito habilidosos. Não por acaso, o melhor texto do Homem-Aranha no MCU é de responsabilidade deles. Por também serem cineastas, eles entendem que é a imagem que manda e entregam uma peça realmente muito engraçada, que sabe usar a imagem e seus espaços para a quebra de expectativa que provoca o riso. O filme deles é de gargalhar, e o humor só não funciona quando Reynolds insere as suas piadas sacais no meio da ação para constatar algo que o público já viu e processou. De certo modo, é como se o texto apostasse na inteligência do público e o astro e produtor do longa estivesse do outro lado dizendo que todo mundo é burro.

É preciso encarar o fato de que Ryan Reynolds estrelar esse filme é um erro. Seu personagem tem vibes de Hal Jordan — herói que ele já interpretou e em que se saiu muito mal — e Maverick. É o herói norte-americano que exala charme e imponência, ou deveria ser, porque o ator não consegue imprimir nenhuma dessas características. Ele entrega um trabalho completamente ausente de carisma, gerando uma situação paradoxal engraçada. Mayday é o melhor filme dele desde Deadpool 2 (2018), mas ele é também a pior coisa de todo o filme. Se um cara como Chris Pine ou Ewan McGregor, por exemplo, tivesse o papel, estaríamos diante de um dos melhores filmes do ano.
Voltando a falar sobre os verdadeiros protagonistas aqui, Goldstein e Daley tiveram uma clara limitação de orçamento que os impediu de fazer as melhores escolhas para cenários, muitas vezes optando por métodos digitais. Há sequências de jato interessantes, como a queda do personagem de Reynolds com paraquedas rasgado sob a chuva de destroços do BlackBird da Força Aérea, mas eles claramente não tinham orçamento para fazer um filme do nível de Top Gun. A contramedida para isso foi apostar massivamente nos movimentos de câmera — seja na pirotecnia à lá Kingsman (2014) que acompanha o balanço dos personagens e objetos nas cenas de luta, ou no jogo de aproximação e afastamento do zoom, que resulta em uma dinâmica boa para a perseguição discreta de espiões.
Há ainda uma carga dramática muito forte sobre pessoas vs. regime, que é totalmente segurada por Kenneth Branagh e Maria Bakalova. A virada emocional dos protagonistas não é tão eficiente no ato final, mas por causa do carisma de joelho do Ryan Reynolds, que não acompanharia Branagh numa corrida de atuação nem com um foguete nos pés.

O longa não tem uma abordagem política firme, mas fala de forma importante sobre como todos somos produtos do nosso próprio sistema. Poderosos contam mentiras e precisam que nós acreditemos nelas para continuarem poderosos. Claro que tudo isso é feito sob uma visão muito norte-americana, mas esse é um filme de Hollywood; o que você esperaria?
Mayday talvez seja o filme mais engraçado do ano inteiro e, com certeza, um dos mais divertidos. Além disso tudo, é ótimo nesse negócio de espionagem, pois saiu no Apple TV sem que ninguém soubesse que estava saindo, quase como um drop secreto. Bem, isso é estranho, porque essa é uma produção do Sr. David Cinema Ellison Trinta Filmes Por Ano, e ele faz questão de deixar isso bem claro, porque o nome dele aparece enorme e em primeiro lugar nos créditos dos produtores. Por que ele quis esconder um ótimo filme como esse? Por que não tentou uma parceria para lançar nos cinemas sob distribuição do seu mega-estúdio? Enfim, perguntas, perguntas… O importante aqui é dizer que o filme Mayday vale cada segundo que você gastar com ele, apesar do Ryan Reynolds.
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