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Uma sala, um casal disfuncional e um convite nada católico formam a base do que é uma das comédias mais divertidas do ano. O Convite (2026) mergulha em sensações primárias para mostrar como as pessoas, pela ausência de resolver os próprios problemas internos, descontam suas frustrações nos outros.
Joe (Seth Rogen) é um músico frustrado que mora em um belo apartamento herdado dos pais com sua esposa, Angela (Olivia Wilde). Certo dia, ele chega em casa e encontra tudo arrumado para uma festa. É quando recebe a notícia de que Angela convidou o casal do andar de cima, Pína (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), para um jantar. Joe não gosta nada disso, pois tem problemas com como os vizinhos fazem escândalo durante relações íntimas. Ele quer reclamar. E ele reclama, mas é aí que surge o convite do título: uma proposta para dizer não à monogamia. Será que isso salvará o casamento com Angela? Essa é a grande questão.

Assinado pelos roteiristas de Toy Story 4 (2019), Will McCormack e Rashida Jones (que também é atriz da Ann de Parks and Recreation), o roteiro de O Convite é claramente concebido para ser um “filme de atores”. Se o conceito não for familiar, trata-se de uma obra que depende excessivamente do elenco para dar vida a sensações que, no texto, foram pensadas justamente para causar incômodo.
O resultado faz jus a essa proposta. O incômodo vem de todos os lados. Surge da personagem de Olivia Wilde, abatida pela negatividade tóxica do marido frustrado, e da forma como o personagem de Seth realmente sente que sua vida é um fardo. Ele reclama de tudo; nada está bom. Seu único objetivo é ir para casa, entupir-se de comida e dormir. Nada mais lhe interessa, nem mesmo a bela esposa ao seu lado. Da parte dela, há um conformismo angustiante. Não é o mesmo homem por quem se apaixonou, mas ela insiste em permanecer ali, sem lutar para que Joe desperte para a realidade.
Aquele jantar, com o casal adepto ao swing, finalmente retira Joe e Angela de sua zona de conforto mórbida, forçando-os a expor frustrações e tomar decisões. Por que estão juntos? Apenas pela filha? Existe salvação para aquele casamento, ou eles estão apenas aprisionando um ao outro?
Como deve ser em qualquer comédia de alto nível, a graça aqui está em como as expectativas são quebradas. Não é o choque pelo choque. Um exemplo: em determinado momento, Hawk toca um piano — instrumento que Joe zela mais do que a própria esposa — sem pedir permissão. É fácil se identificar com a situação, basta imaginar um vizinho folgado chegando em sua casa, sentando no sofá e ligando o seu videogame sem pedir. A reação ao incômodo é natural, identificável e, em certo ponto, remete bastante à dinâmica de comédias como The Office e a própria Parks and Recreation, série estrelada por Rashida Jones.
Tematicamente, este é um filme sobre pessoas que buscam desculpas para justificar os próprios problemas em vez de gastar energia na busca por soluções — afinal, o confronto pessoal é sempre um caminho mais tortuoso.
Aqui cabe um grande elogio a Olivia Wilde. Como diretora, ela não apenas abraça a proposta do “filme de atores”, como também imprime à obra uma assinatura artística singular. Isso transparece desde a escolha de filmar em película 35mm até a forma como ela utiliza os espaços na locação principal — o apartamento de Joe e Angela. Mesmo com quase duas horas passadas dentro de um único ambiente, há um forte dinamismo, pois os cômodos, salas, janelas e portas complementam o que está sendo dito, reforçando conceitos subjetivos de prisão e liberdade.
Analisando o âmbito pessoal, Wilde demonstra claramente não ter fé no casamento como instituição, sugerindo que o indivíduo acaba prevalecendo quando o jogo de concessões é posto à mesa.
Em suma, O Convite é uma comédia disruptiva sobre a dificuldade de encarar a própria individualidade com honestidade. A obra explora a alienação como uma escolha e sugere que o fim dos relacionamentos está diretamente ligado à quebra de expectativas — as mesmas que, paradoxalmente, fundamentam a própria estrutura do humor. Em suma, um filme divertido e arrojado.
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