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Rola o tapete, piscam os flashes e a multidão amontoada por trás das fitas de segurança estabelece um trono para a rainha imagem. Ela, no entanto, está sob mais pressão do que nunca. A percepção de sucesso mudou, tornando-se tão veloz quanto um pensamento ou uma rolagem de tela em uma hora vaga do dia. Agora, não basta ser interessante. É preciso vender o interesse! Em algum nível, todo jornalista precisa ser um vendedor, e os melhores vendedores são aqueles que entendem a natureza humana. O Diabo Veste Prada 2 (2026) lida com as consequências do inferno que o filme original ajudou a criar, falando menos sobre moda e mais sobre jornalismo e o fator humano na curadoria da arte.

Olhando em retrospectiva, O Diabo Veste Prada (2006) funciona muito bem como um doce filme de terror sobre pessoas perdendo a própria identidade e abdicando de seus sonhos em prol de uma lógica neoliberal norte-americana, vendida como a única ótica correta do mundo. Miranda (Meryl Streep) é esse monstro que causa um terror psicológico silencioso, e acaba se desenhando como um diabo necessário para catalisar, por meio da pressão, o talento daqueles à sua volta.

Crítica de O Diabo Veste Prada 2
Reprodução/20th Century Studios

Vinte anos depois, a sequência reconhece os problemas do original e entende que o mundo mudou o suficiente para tornar alguém como Miranda uma figura expurgável no mercado de trabalho. Seria fácil fazer um filme de retratação, mas é honroso que a nova história não tenha interesse em reescrever a natureza dela. Ela é o que é; e é por isso que a Runaway faz sucesso e a cadeia de eventos da trama segue seu rumo.

Agora, o inferno neoliberal se volta contra a própria Miranda. A verdade como negócio não é exatamente uma novidade, mas a lógica de empresas sendo devoradas por grandes conglomerados — entregando o controle da mídia às mãos de poucos que sequer compreendem o que estão fazendo — coloca em risco não apenas os empregos na Runaway, mas a própria existência da revista. Longe de Miranda, Andy Sachs (Anne Hathaway) construiu uma carreira como jornalista premiada, mas foi vítima dessa mesma engrenagem quando, logo no início, enfrentou uma demissão em massa após a fusão do conglomerado onde trabalhava. O ponto central do novo filme é como, ao retornar inesperadamente à Runaway para pagar as contas — agora como editora de matérias especiais —, ela se vê enfrentando essa ameaça corporativa mais uma vez.

Reprodução/20th Century Studios

O primeiro filme é quase todo calcado em um arco de busca por aprovação e redescoberta. A sequência mimetiza essa essência no início, talvez para fisgar o fandom através de um caminho familiar. O que se segue, no entanto, é um mistério envolto no charme de um thriller corporativo à la Succession, funcionando quase como uma trama de espionagem. Andy e Miranda, mesmo sem serem claras uma com a outra, sentem-se na obrigação de salvar a Runaway; cada uma tenta fazê-lo à sua maneira, o que acaba gerando ruídos no processo. Quem está tentando salvar quem? Ou cada uma quer apenas evitar o próprio desemprego? O texto, desta vez, é mais maduro ao entender que oferecer respostas prontas seria atentar contra a humanidade do material. São mulheres de gerações diferentes. Seria inverossímil que Miranda mudasse radicalmente apenas por estar sob pressão. Ponto para a sequência por manter essa integridade.

O que há de mudança, no entanto, é uma adição nítida de bagagem por parte de todo o elenco e equipe. Passaram-se vinte anos. As pessoas envolvidas estão melhores, maiores e transportam essa maturidade para a tela. Embora o material promocional tenha sugerido que reencontraríamos os personagens exatamente onde os deixamos, o resultado é outro. São eles — isso é claramente identificável —, mas com todas as heranças que o tempo inevitavelmente deixa para figuras como essas. A evolução mais evidente é a de Anne Hathaway, que transmite uma segurança muito maior como Andy. Ela não é mais a iniciante tentando impressionar, mas uma jornalista premiada que tem plena noção do próprio tamanho — o que é um reflexo da própria carreira da atriz.

Reprodução/20th Century Studios

O diretor David Frankel também traz sua bagagem para a mistura, transformando a câmera em uma extensão do primeiro filme e entregando, assim, seu trabalho mais maduro e elegante até agora. A direção se favorece de um jogo de mistérios ao lidar com a dinâmica do que é visto, mas não ouvido, ou do que é ouvido, mas não dito. Frankel demonstra a maturidade de permitir que o silêncio cumpra seu papel de provocar ansiedade em um mundo de falas urgentes, onde tudo parece precisar de ultra-explicações.

Reprodução/20th Century Studios

Para o bem ou para o mal, o filme original foi um ótimo recorte de seu tempo. Fugindo da lógica algorítmica da nostalgia, a sequência também faz um retrato preciso da época em que está inserida. Se o primeiro foi uma prévia de como a ultra-valorização da imagem causaria uma crise na mídia, o segundo situa-se exatamente no epicentro do impacto dessa crise. Ao final, o sentimento é de completude, como se as duas obras fossem uma só — sendo este novo capítulo uma Parte 2 que, genuinamente, precisava ser contada.

O Diabo Veste Prada 2 completa um arco robusto e instigante sobre a identidade humana, mas agora sob uma perspectiva estrutural, permitindo que a narrativa compreenda os mecanismos que conduziram seus protagonistas até ali. A sequência apara arestas sem trair a essência de cada um. Em vez de apenas fazer as pazes com o passado, o filme o utiliza para edificar um novo presente. No fim, em uma realidade onde pessoas tentam vender uma versão de si, o verdadeiro privilégio acaba sendo a coragem de sustentar o próprio reflexo no espelho.

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Nota 8