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O Fim da Rua (2026) não é o primeiro grande lançamento recente a resgatar o jeito de filmar dos grandes filmes dos anos 70, nem o primeiro blockbuster desta década a tentar emular a atmosfera de Steven Spielberg. No entanto, carrega uma bagagem autoral tão pessoal que se sobressai a todos os outros. Neste ano, é difícil imaginar outro filme que equilibre tão bem a diversão com o drama real, sendo construído a partir de uma história alegórica ao isolamento contemporâneo.

O casamento de Greg e Denise está prestes a acabar. Seus filhos, Adrey e Brian, percebem a aura negativa em casa e temem pelo pior, enquanto vivenciam as descobertas comuns da adolescência. Não que o amor tenha acabado ou algo do tipo, mas o casal é formado por duas pessoas em momentos muito opostos da vida. Greg busca segurança para garantir uma boa vida em família, mas acabou de perder o emprego. Denise quer se aventurar e descobrir novos horizontes. Ir para Nova York, talvez? Esse drama interpessoal, no entanto, é interrompido quando uma luz brilhante no céu transporta todo o bairro onde moram, nos anos 80, para o período jurássico. Agora, eles têm que descobrir um jeito de voltar para casa antes que virem comida de dinossauro.

Ewan McGregor e Anne Hathaway em O Fim da Rua
Reprodução/Warner

É justo imaginar O Fim da Rua como um episódio de 1h30 de Além da Imaginação, pois o filme segue a mesma lógica narrativa. Não espere descobrir detalhes de conceitos ou explicações sobre o que exatamente levou o bairro até o período jurássico. Isso absolutamente não é uma preocupação de David Robert Mitchell, que está focado na relação de causa e efeito que o evento provoca nos personagens. Os personagens, na verdade, são o centro de tudo.

Há de se exaltar um roteiro que opera com sutileza, sem seguir o padrão de Hollywood que pressupõe que o público é jumento e jamais conseguirá pescar o drama sem que ele seja mastigado em diálogos. A aposta é mais forte nos estímulos visuais. Trata-se de uma história identificável com situações que muitas pessoas já enfrentaram na vida. Quantas vezes a falta de comunicação não destruiu casais, fez pais pararem de falar com os filhos e deixou várias relações inconclusivas porque um fator externo eliminou a chance de perdão, dando lugar a um remorso corrosivo? Em parte, parece Mitchell expurgando seus próprios demônios do passado.

O Fim da Rua: Saiba como o filme de dinossauros da Warner se diferencia de Jurassic Park
Reprodução/Warner Bros. Pictures

O drama funciona, em primeiro lugar, porque Mitchell tem a paciência de fazer as pausas necessárias para estabelecer o quanto está em jogo. Em segundo lugar, porque Ewan McGregor e Anne Hathaway estão assustadoramente imersos no peso da questão. Não lembro de atuações tão fortes assim em um filme de dinossauros desde o primeiro Jurassic Park.

Perseguindo esses caminhos identificáveis e perigosos, o filme vai do doce ao pirracento e da pausa ao trauma, com uma cena que vai deixar crianças tendo pesadelos pelo resto da vida — é o tipo de coisa que molda caráter, e Hollywood deveria ter retomado isso antes. As perseguições alucinantes remetem a ameaças invisíveis como em Tubarão e Alien, passando até por Jurassic Park — que não deixa de ser uma referência —, mas tudo dentro de um contexto autoral e anacrônico do diretor, que pensa na decupagem com truques de lentes, como split diopters, e movimentos de câmera que alternam a ótica de presa e predador. Veja, quando O Fim da Rua decide ser amedrontador, ele vai muito fundo nisso.

Crítica de O Fim da Rua
Reprodução/Warner Bros. Pictures

O grande trunfo de David Robert Mitchell é nunca se perder em devaneios. Essa é só uma história de uma família tentando sobreviver. Não tem essa de salvar o mundo. O cineasta tira nota dez nessa abordagem. O que ele queria contar, e como queria contar, é totalmente realizado. Algo tão equilibrado e despretensioso no cinema espetáculo de hoje é raro.

Encarado de longe, O Fim da Rua pode ser entendido como uma aposta muito arriscada de US$ 80 milhões em um cineasta que nunca lançou fenômenos de bilheteria. No entanto, o que está em tela é algo muito seguro. David Robert Mitchell não tenta inventar a roda e resgata o espírito dos blockbusters da Nova Hollywood, trazendo ainda uma história que dialoga com um drama contemporâneo — que, na verdade, hoje é apenas um produto exponencial sobre uma questão atemporal de isolamento e falta de comunicação. É um filme perfeito para o que se dispõe a fazer e tem tudo para se tornar um clássico moderno.

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Nota 10


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