Comentários

Estimated reading time: 4 minutos

Corpos, suor e gestos afetivos colidem com cenários vastos e pomposos, palcos de ambição, frustração e medo. Embora real e visualmente atraente, o ambiente é conduzido sob um olhar deliberadamente artificial em O Morro dos Ventos Uivantes (2026). No filme de Emerald Fennell, o desejo honesto — o primitivo — está no íntimo.

Fennell é uma cineasta do maximalismo satírico. Seus filmes, vibrantes e provocativos, operam como “lobos em pele de cordeiro“: uma beleza plástica deslumbrante que mascara a podridão moral de seus personagens. É um cinema onde tudo é grande, barulhento e, não raramente, pretencioso além da conta. É como um delírio adolescente bem-humorado e com precisão sensorial.

Crítica de O Morro Dos Ventos Uivantes
Reprodução/Warner Bros. Pictures

O Morro dos Ventos Uivantes abre com uma respiração ofegante sobre a tela preta, até que surge uma multidão assistindo a um homem atingir a excitação enquanto é enforcado em praça pública. Nos primeiros segundos, Fennell deixa claro do que se trata sua adaptação. Sem enrolação, você está a bordo de um conto erótico de tragédia.

Resta a pergunta quintessencial da crítica: funciona? Bem, apesar da coloquialidade teatral nas trocas entre os atores, o filme não é chato e o propósito estabelecido na introdução é cumprido. Fennell demonstra uma mão apurada para o humor e, ao dominar o espaço, os cortes e a tensão afetiva entre os personagens, arranca risadas sinceras.

Crítica de O Morro Dos Ventos Uivantes
Reprodução/Warner Bros. Pictures

Já experiente nesse tipo de humor dramático, Margot Robbie se sai bem na fisicalidade exigida pela diretora. Jacob Elordi, no entanto, fica um pouco atrás. O jovem é inegavelmente atraente e tem o brogodó que o filme precisava para gerar atração, mas volta e meia ele parece se perder na linha tênue que Fennell traça entre o clássico e o profano.

De qualquer forma, o astro cumpre seu papel, pois este é, acima de tudo, um filme sensorial, com muito estilo para pouca substância. Há até uma tentativa de profundidade quando Fennell aborda a obsessão como esse desejo tóxico que consome e mata aos poucos, mas a intenção perde vazão ao ser confrontada pelo emocional da trama.

Crítica de O Morro Dos Ventos Uivantes
Reprodução/Warner Bros. Pictures

A tortura aqui não é traumática; é, de certa forma, atraente. O filme de Fennell opera como os grandes hits de Eliane, a Rainha do Forró, e você não precisa ser nenhum Chico Lopes para desfrutar dessa melancolia de dançar agarradinho.

Em suma, O Morro dos Ventos Uivantes (2026) é exatamente o que está na capa. Ao entrar no cinema, você não será enganado pela propaganda; o que está ali é o puro suco de Fennell. Pode faltar o miolo, mas tem bastante do tipo diversão que só um delírio adolescente bem executado consegue proporcionar.

Leia também sobre O Morro dos Ventos Uivantes:

Nota 7


Comentários